Guerra pressiona polo termoplástico

Em: 18 de março de 2026
Tensões no estreito de Ormuz elevam custos, ampliam riscos logísticos e expõem dependência externa de insumos do PIM.
"Legenda: Indústria local depende de insumos petroquímicos importados que estão impactados pelo conflito." Divulgação
"Legenda: Indústria local depende de insumos petroquímicos importados que estão impactados pelo conflito." Divulgação

O bloqueio do estreito de Ormuz, no Irã, e as perspectivas de uma guerra mais prolongada do que o esperado naquele país, acenderam um sinal amarelo no polo termoplástico. Em nota, a Abiplast (Associação Brasileira de Indústria do Plástico) manifestou apreensão com os impactos da escalada no conflito, assinalando que o Brasil já enfrenta “fragilidades estruturais no fornecimento de resinas e de materiais de maior especialização tecnológica”. O cenário, é ainda mais delicado diante das tensões geopolíticas que afetam rotas logísticas, custos e disponibilidade de matérias primas, questão que preocupa também o Simplast-AM (Sindicato das Indústrias de Material Plástico de Manaus).

O segmento depende de insumos petroquímicos e da estabilidade das cadeias internacionais de suprimento, sendo que a maior parte de suas matérias-primas é importada. De acordo com a Suframa, 63,73% dos insumos usados pelo polo termoplástico em 2025 vieram do exterior, somando US$ 6.93 bilhões em dispêndios. O subsetor é essencial para as linhas de fabricação de bens de consumo do PIM, sendo parte importante na composição das cestas de produtos dos carros-chefes do Polo Industrial de Manaus: duas rodas, bens de informática e eletroeletrônicos. O Simplast-AM ainda não detectou casos de falta de insumos, mas confirma que o aumento de custos já é uma certeza. 

Um dos pontos de maior preocupação da Abiplast é o abastecimento de “resinas com grades especiais”, que têm “produção insuficiente” no Brasil, em situação semelhante à do mercado de PVC. A indústria de transformação depende da importação de policarbonato, poliamida, ABS, PET, PBT, poliuretano, poliacetal e PPS, entre outros materiais essenciais para eletroeletrônicos, mobilidade, saúde e infraestrutura. E os maiores fornecedores são justamente países que sofrem maior restrição em Ormuz: EUA e Canadá – responsáveis por 75% da oferta. Em paralelo, as petroquímicas brasileiras também já estão ficando sem matérias primas, como metaloceno e octeno.

 

“Pressão nas margens”

O polo termoplástico vem uma sequência de cinco anos consecutivos de alta no faturamento e recorde em 2025. Os indicadores da Suframa informam que as vendas avançaram 6,66%, em dólares (US$ 3,60 bilhões), e 9,03%, em reais (R$ 20 bilhões), o maior patamar da série histórica, iniciada em 1988. O subsetor esperava aumento mais moderado para 2026, favorecido pela expansão da linha de produção de motos e pelo “aquecimento de nichos específicos de consumo” por conta da Copa. A avaliação era que o principal obstáculo seria a taxa de juros – que podem não cair como o esperado, no novo cenário de guerra. 

Indagado pela reportagem sobre os estoques, o presidente do Simplast-AM, José Petronilo Silva Costa, apontou que a única certeza é o aumento de custos. “Tivemos um crescimento sólido em 2025, e o segmento consolidado como o segundo em movimentação de contêineres em Manaus. Mas, a guerra no Oriente Médio elevou custos de resinas, fretes e seguros, exigindo gestão rigorosa da competitividade. Além disso, o aumento da taxa antidumping [para importação de resinas de polietileno dos EUA e do Canadá] para 79%, em março, pressiona as margens de lucro. A situação de resina está ficando ainda mais difícil: A Braskem não tem capacidade de atender e comprar dos EUA é inviável, devido ao antidumping. E não é possível adquirir do Oriente Médio”, frisou.

 

“Cenário de incertezas”

O presidente da Fieam e vice-presidente executivo da CNI, Antonio Silva, reforça que a indústria de transformação sente os impactos da guerra nas cadeias globais de suprimento fabril. “Para o cotidiano do PIM, essa realidade é particularmente sensível, visto que nossa produção demanda não apenas resinas comuns, mas materiais de maior especialização tecnológica, que já enfrentam fragilidades estruturais de fornecimento no país. Como o Brasil não possui produção local suficiente, a atual instabilidade logística eleva consideravelmente o risco de desabastecimento de insumos críticos para nossas linhas de montagem”, ressaltou.  

O dirigente frisa que atividade do Polo depende fortemente de “ampla gama” de plásticos de engenharia, como policarbonato, poliamida, ABS, entre outros, que são majoritariamente importados. “Esses insumos são essenciais para aplicações técnicas em subsetores que formam a espinha dorsal do PIM, a exemplo dos polos de eletroeletrônicos e de mobilidade. Adicionalmente, as dificuldades enfrentadas pelas petroquímicas do país para obter matérias-primas, somadas à incapacidade da oferta interna de itens básicos como o PVC, reduzem a previsibilidade de fornecimento, o que exige planejamento aduaneiro e logístico ainda mais rigoroso”, salientou.  

Diante do “cenário de incertezas” e da necessidade de manter o fluxo produtivo, Antonio Silva enfatiza que é imprescindível avaliar estrategicamente e com cautela a aplicação de instrumentos de defesa comercial. “Uma vez que a importação de produtores representativos nos EUA e Canadá configura, muitas vezes, a única rota viável e esbarra nessas restrições, precisamos buscar equilíbrio na política de comércio exterior que não asfixie o acesso da indústria a insumos vitais. Garantir essa previsibilidade e abastecimento adequado é uma condição indispensável para a manutenção da competitividade e continuidade das atividades produtivas estratégicas que sustentam o ecossistema socioeconômico da nossa região”, avaliou.

 

Capacidade e estoques

O contador, professor da Ufam e consultor empresarial com foco na indústria incentivada, André Costa, concorda. “A capacidade industrial da petroquímica brasileira é ainda mais tímida que a disposição fabril para o refino. É uma das muitas expressões da ‘primarização’ da nossa economia. Com isso, perdemos em produção e armazenamento. Grandes produtores e consumidores costumam ter grandes estruturas de armazenamento, mas não é o caso do Brasil. Daí, nosso país termina por se tornar muito sensível a interrupções nas cadeias globais de suprimentos, como ocorre em meio à guerra”, alertou.

Conforme o especialista, em função das particularidades regionais, a indústria incentivada teria maior sobrevida nesse cenário, embora a sazonalidade deva ser levada em conta. “Há dois fatores que pesam para o PIM, e isso varia mesmo de empresa para empresa. As fábricas já têm armazenamento acima da média, devido ao maior tempo de trânsito e menor frequência de rotas, principalmente as aquaviárias, que são as que transportam para o setor termoplástico. Além, é claro, do provável aumento geral, devido aos dois anos de seca severa. Contudo, a virada de ano costuma ser de estoques menores, e o problema pode vir justamente nessa reposição”, encerrou.

 

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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