No início do mês foi comemorado o Dia do Autista (2 de abril) e o Jornal do Commercio entrevistou Guilherme de Almeida, pesquisador em educação inclusiva na Faculdade de Educação da Unicamp e presidente da ANIA (Associação Nacional para Inclusão das Pessoas Autistas). Guilherme é autista e só foi diagnosticado como tal aos 37 anos tendo passado essas mais de três décadas com sintomas não identificados que trouxeram dores e problemas sociais de relacionamento. Através da ANIA ele realiza ações para ajudar os autistas dos dias atuais a não passarem pelo que ele passou.
Jornal do Commercio: É impressão, ou parece que cada vez nascem mais crianças autistas?
Guilherme de Almeida: Não é impressão, a prevalência do TEA (Transtorno do Espectro Autista) tem aumentado nas últimas décadas, mas esse aumento pode ser resultado de diversos fatores, incluindo maior conscientização e diagnóstico mais preciso. Anteriormente, muitas pessoas com TEA eram mal diagnosticadas ou simplesmente não diagnosticadas. Com o aumento da conscientização e melhores técnicas de diagnóstico, é mais provável que crianças e adultos agora sejam identificados e recebam o tratamento necessário. Outros fatores que podem contribuir para o aumento na prevalência do TEA incluem mudanças ambientais, como poluição, e fatores genéticos e epigenéticos.
JC: Antes essas crianças eram excluídas, chamadas de ‘doidas’, e trancadas dentro de casa.
GA: Infelizmente, é verdade. No passado, muitas crianças com TEA eram rotuladas como ‘loucas’ ou ‘atrasadas’ e frequentemente excluídas da sociedade, mas o preconceito não ficou para trás. Ainda hoje é comum as pessoas se referirem a autistas como ‘estranhos’ ou ‘esquisitos’. Felizmente, com o avanço da ciência e da conscientização, a compreensão, bem como o tratamento e o suporte disponíveis para indivíduos com TEA, têm melhorado bastante nas últimas décadas.
JC: Como detectar uma criança autista, já que o comportamento se apresenta de variadas formas?
GA: Pode ser difícil, no entanto, existem sinais que indicam a possibilidade de TEA em uma criança. Os sinais mais comuns são dificuldades na comunicação e na interação social, bem como padrões repetitivos de comportamento, interesses e atividades. Ao se suspeitar que uma criança tem o espectro autista, é importante conversar com um profissional de saúde qualificado para obter uma avaliação completa e diagnóstico preciso. Eu mesmo só tive o diagnóstico de TEA aos 37 anos mesmo sendo acompanhado por psiquiatras desde os doze anos. Os médicos, de modo geral, não estão preparados. O diagnóstico precoce e o tratamento adequado podem ajudar a melhorar o desenvolvimento e se obter sucesso a longo prazo.

JC: O que é realmente o autismo, e por que se nasce assim?
GA: O autismo é um transtorno neurobiológico do desenvolvimento que afeta a comunicação social, a interação social, a flexibilidade comportamental e a imaginação social. As pessoas com autismo podem ter dificuldades para se comunicar verbalmente ou não verbalmente, entender as intenções dos outros, adaptar-se a novas situações e se relacionar com outras pessoas. O autismo é um espectro, o que significa que há variações significativas nos sintomas e na gravidade do transtorno. Não é causado por pais ou cuidadores, e não é resultado de uma má criação.
JC: Existe algum tratamento para o problema?
GA: Sim, existem tratamentos disponíveis, no entanto, é importante lembrar que as necessidades de cada pessoa são diferentes, portanto, o tratamento deve ser adaptado às necessidades individuais da pessoa. Os tratamentos mais comuns incluem terapias comportamentais, terapias ocupacionais, terapias da fala e linguagem, terapias de integração sensorial e terapias baseadas em tecnologia. Alguns medicamentos também, como o canabidiol, têm se mostrado muito úteis para combater problemas de comportamento, ansiedade e depressão.

JC: É verdade que o autismo é um distúrbio prevalente em meninos?
GA: Sim, é mais prevalente em meninos do que em meninas. De acordo com estimativas atuais, a proporção de meninos para meninas com autismo é de cerca de 3.8:1. Pesquisas sugerem que os cérebros de meninos e meninas podem responder de maneira diferente aos fatores ambientais e genéticos que contribuem para o autismo. Outra teoria é que as meninas possam ter uma capacidade maior de compensação ou mascaramento de sintomas de autismo, o que pode levar a sub-diagnósticos ou diagnósticos tardios, porém, a diferença de gênero não é uma regra absoluta e meninas também podem ter autismo. A importância de identificar o autismo em meninas e mulheres deve ser enfatizada para garantir que elas recebam o diagnóstico e o tratamento adequados.
JC: De que forma a Associação atua?
GA: A ANIA é uma entidade sem fins lucrativos que tem como objetivo promover a inclusão e a defesa dos direitos das pessoas com autismo. Idealizada em 2022, a ANIA busca informar, conscientizar e mobilizar a sociedade para a importância da inclusão das pessoas autistas em todos os aspectos da vida, como a educação, o trabalho, a saúde, a cultura e o lazer.
***







