Há mais de um século, estando em Manaus a trabalho, Euclides da Cunha, o ilustre escritor de “Os Sertões”, escreveu sobre o clima da cidade: “Este delicioso clima traduz-se num permanente banho de vapor – quem o suporta precisa ter nos músculos a elástica firmeza das fibras dos buritis e nas artérias o sangue frio das sucuruiúbas. Não o suporto. A febrícula de 38º que me assaltou é menos um caso patológico que um incidente físico – o sangue precipita-se como o mercúrio dos termômetros”. O ‘delicioso clima’, foi uma ironia do escritor.
Euclides escreveu isso em 1904, quando Manaus não ia além do centro atual da cidade, as ruas não eram cobertas pelo quente asfalto e as árvores eram parte integrante dos quintais das casas. Imagine se voltasse hoje a Manaus. Todo mundo sente na pele que, ano a ano, a cidade está virando um inferno.
Para o botânico Carlos Alberto Cid Ferreira, do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) o que falta é governantes e administradores do poder público implementarem programas de preservação de áreas verdes na cidade. “Estamos no centro da biodiversidade do planeta e entra governo e sai governo e não aparece ninguém para resolver esse problema do desmatamento urbano. A cada dia surge um condomínio novo em Manaus e mais uma área verde deixa de existir”, lamentou.
Quando alguém tenta dar uma solução para a situação, ainda o faz de maneira errada. Alfredo Nascimento foi prefeito de Manaus entre 1997 e 2000. Na gestão de Alfredo Nascimento (1997/2000), a prefeitura plantou várias palmeiras imperiais na av. Djalma Batista. Ocorre que a palmeira imperial é uma planta nativa das Antilhas e como não houve adaptação ao clima da região, com algum tempo começaram a morrer.
O que o prefeito desconhecia é que a Amazônia abriga a maior diversidade de palmeiras do território brasileiro, possuindo 35 dos 42 gêneros e cerca de 150 das 193 espécies reconhecidas para o Brasil. Não precisava ter ido buscar tão longe, plantas que temos aqui, ao nosso redor.
Exemplo a ser seguido
Mas erros do tipo não são recentes. Duas das principais avenidas de Manaus, arborizadas há mais de 50 anos, o foram com arborização exótica. Os oitis, ou oitizeiros, da avenida Getúlio Vargas são um exemplo. Árvores nativas das restingas costeiras do Nordeste, são muito utilizadas em arborização urbana, mas como qualquer planta, precisam de manutenção. “Os oitis da Getúlio Vargas estão cheios de ervas de passarinho”, falou Cid. “No Boulevard as árvores não nativas são os flamboyants, oriundas de Madagascar, na África. É inadmissível que, cercados pela maior floresta tropical do planeta, tenhamos em nossas avenidas e praças, árvores de outras regiões do país e até do mundo”, reclamou o botânico.
Atualmente, na Djalma Batista, estão plantados ipês roxos, árvores naturais da América do Sul. “A intenção foi boa. O ipê é uma árvore muito bonita, mais ainda quando florida. Mas como falei antes, precisa plantar e manter. Vários dos ipês da Djalma Batista estão mortos, ou morrendo, e arriscaria dizer que foi por falta de cuidados. Água não, porque estamos em período de chuvas, mas às vezes a planta morre devido alguma doença que, se não tratada, vai matando as outras”, ensinou Ferreira.
Espécies ideais
O botânico listou várias espécies nativas ideais para a plantação urbana: cacauí, sorvinha (antes bastante comum nos balneários da cidade), castanha de galinha, fraijó, ucuuba, açaí do Amazonas, sucupira vermelha, bussu, caiavé, pau de rosas, coccoloba (cujas folhas são as maiores do mundo) e a lombrigueira, existente somente em Parintins. “Um exemplo de como a questão da plantação de árvores num condomínio deve ser seguido é o do Jardim das Américas. Fiz o levantamento das espécies nativas e cultivadas, que foi passado ao síndico, e o projeto foi levado adiante pelos moradores. Hoje as residências convivem harmonicamente com as árvores e plantas, inclusive com uma parte nativa”, citou Ferreira.
Um futuro cheio de árvores
O professor de metodologia do ensino de ciências, Luis Carlos Lemos, da faculdade Martha Falcão, está colocando em prática o projeto “Contribuição das árvores no processo de embelezamento das cidades”, idealizado pela aluna Ana Karolina, de pedagogia. “A ideia do projeto surgiu de uma discussão em sala de aula quando resolvemos agir, ao invés de só falarmos da derrubada das árvores em Manaus”, contou Lemos.
Segundo o professor, o objetivo principal do projeto é conscientizar, primeiramente, alunos da educação infantil. “A partir deles, iremos organizar o plantio de árvores nas escolas de Manaus, depois nas vias públicas. Vamos fazer o levantamento das escolas onde existem espaços para serem plantadas árvores”, disse.
“Através de pesquisa bibliográfica, Ana Karolina fez um levantamento das espécies que podem ser utilizadas nesse plantio.
Os próximos passos são: conseguir as mudas junto à prefeitura ou órgãos ambientais. Em seguida iremos buscar apoio de instituições como Inpa, Ipaam, Ibama, Semmas, e outras”, completou.
A iniciativa teve de ser adiada, mas uma nova data para o início das ações já está agendada. “A execução inicial do projeto iria acontecer agora, durante a Semana do Meio Ambiente, mas como ainda estamos resolvendo alguns detalhes, ele será posto em prática no dia 9 de setembro, o Dia da Árvore.
Pra fase de plantio em via pública, a Ana Karolina até já fez o levantamento de uma área na avenida das Torres. Imagine como ficará a cidade quando todas as escolas de Manaus estiverem ponto em prática esse projeto”, comemorou.







