Indicador foi puxado pelo aumento da cotação do petróleo

Em: 1 de abril de 2022

A inflação da indústria desacelerou em fevereiro, mas o otimismo do setor voltou a esfriar neste mês, sinalizando freio nos investimentos. O IBGE informa que os preços avançaram 0,56% entre janeiro e fevereiro, em um ritmo menor do que o do levantamento anterior (+1,20%). Mas, já acumulam 20,05% de expansão em 12 meses. Segundo o órgão federal de pesquisa, o indicador foi puxado pelo aumento da cotação do petróleo e a taxa só não foi maior em razão da relativa desvalorização do dólar ante o real. 

Já a CNI aponta que, em meio ao choque do petróleo decorrente da guerra na Ucrânia, e de seus impactos na espiral inflacionária e realimentação dos juros, 22 dos 29 subsetores da indústria de transformação reduziram a confiança na economia. Só seis avaliam de forma positiva as condições atuais de suas empresas. Há menos pessimismo entre as indústrias da região Norte e entre as de pequeno porte. A entidade assinala ainda que o setor já mostra expectativas mais moderadas para os próximos seis meses.

O encarecimento das commodities é decisivo nessa percepção. Pelo terceiro mês seguido a indústria extrativa (mineral e petrolífera) teve a maior alta (+8,34%) no IPP (Índice de Preços ao Produtor). O indicador do IBGE mede os preços na “porta da fábrica”, sem impostos e frete, em 24 atividades. Em 15, eles ficaram mais caros, sendo puxados por vestuário e acessórios (+1,82%); petróleo e biocombustíveis (+0,70%); e impressão e reprodução de gravações (+1,67%). Em 12 meses, as maiores pressões vieram de petróleo e biocombustíveis (+49,47%); químicos (+41,85%); madeira (+29,41%); e produtos de metal (26,59%). 

O IBGE informa que, entre as “grandes categorias econômicas”, a maior variação mensal veio dos bens de capital (+0,64%), seguido por bens intermediários (+0,50%) e bens de consumo (+0,65%) –especialmente os não duráveis (+0,75%), em detrimento dos semiduráveis e duráveis (+0,15%). Em 12 meses, os preços ficaram +19,88%, +22,06% e +16,76% mais caros para as três categorias, respectivamente. 

Linha de corte

O Icei (Índice de Confiança do Empresário Industrial) recuou de 55,8 para 55,4 pontos, entre fevereiro e março, ficando pouco acima da marca de 12 meses atrás (54,4 pontos). Conforme a CNI, o pessimismo é maior nas divisões de máquinas, aparelhos e materiais elétricos (53,3 pontos); têxteis (53 pontos); e móveis (52,6 pontos); entre outros. A entidade destaca, contudo, que o setor segue tecnicamente “confiante”, já que o indicador segue acima da linha de corte dos 50 pontos, entre a confiança e a desconfiança.

A confiança ainda é maior nas indústrias da região Norte (58,5 pontos), embora esta também tenha mostrado involução na comparação com fevereiro (60,2 pontos), assim como as demais. A comparação com março de 2021 (53,6 pontos) –período da segunda onda no Amazonas, e suas consequências na economia –mostrou crescimento. Na sequência estão o Centro-Oeste (55,8 pontos), Nordeste (55,5 pontos), Sul (55,4 pontos) e Sudeste (53,6 pontos). Em termos de porte, a percepção é ligeiramente melhor nas pequenas empresas (55,7 pontos) do que nas médias (55,4 pontos) e grandes (54,8 pontos).

Entre os segmentos menos confiantes, destacam-se dois com peso de representatividade no PIM, a exemplo de equipamentos de informática; produtos eletrônicos e outros (54,2 pontos); produtos de material plástico (54,6 pontos); químicos (54,2 pontos); metalurgia (53,8 pontos), bebidas (54,4 pontos) e produtos de borracha (53,7 pontos). Apenas o primeiro aumentou seu nível de otimismo, entre fevereiro e março.

“Percepção de piora”

Em texto veiculado pela assessoria de imprensa da CNI, o gerente de Análise Econômica da entidade, Marcelo Azevedo, enfatiza que a queda da confiança aconteceu tanto pelas expectativas, quanto pela avaliação das condições correntes de negócios. “As perspectivas ainda são positivas, mas se tornaram um pouco menos positivas. Já com relação às condições atuais das empresas, há uma percepção de piora”, resumiu.

O economista informa que o maior recuo ocorreu no segmento de máquinas, aparelhos e materiais elétricos, onde o tombo foi de 9,20%, caindo para os 53,3 pontos, após atravessar nove meses seguidos acima do patamar dos 55 pontos –com pico em agosto de 2021 (65,1 pontos).  “Em março, houve uma piora significativa na percepção das condições da empresa e da economia. O setor só segue confiante, porque as expectativas para os próximos seis meses se mantêm um pouco acima da linha de corte”, salientou. 

Fator câmbio

Em texto postado no site da Agência de Notícias IBGE, o analista da pesquisa, Murilo Lemos Alvim, observa que, apesar da desaceleração mensal, o IPP ainda ficou acima do dado de dezembro de 2021 (-0,08%), e descarta tendências de queda. Segundo o pesquisador, a alta mais amena foi influenciada principalmente pela variação cambial, já que a cotação do dólar ante o real recuou 6%, na maior queda registrada em 20 meses. 

“Essa depreciação da moeda norte-americana pode ser observada nos acumulados do ano (mais de 8%) e de 12 meses (mais de 4%). Nas quatro atividades que se destacaram, três tiveram queda de preços. São as que têm impacto direto do dólar: fumo, madeira e metalurgia. Há diversos produtos exportáveis e isso se reflete no preço que será recebido pelo produtor em real. Se o dólar cai, recebe menos. Há vários setores que dependem de insumos importados e, com o dólar mais baixo, o preço ficará mais baixo”, analisou.

O analista da pesquisa lembra que, na indústria extrativa, óleo bruto de petróleo e minério de ferro tiveram aumentos de preços no mercado global, mas ressalva que as consequências da guerra entre a Rússia e a Ucrânia não tiveram impacto claro no resultado do IPP. “O início da invasão na Ucrânia aconteceu no fim de fevereiro, e as principais sanções econômicas contra a Rússia, ocorreram a partir de março. O que provocou a alta das duas commodities foi a redução da oferta, junto com uma demanda aquecida”, frisou.

“Período de incertezas”

O presidente da Fieam, e vice-presidente executivo da CNI, Antonio Silva, reforçou à reportagem do Jornal do Commercio que os números de ambas as pesquisas sinalizam um momento de “maiores entraves” para o setor. O dirigente concorda que a guerra na Ucrânia ajudou a pressionar a inflação, que já vinha sendo alimentada pelo nó na cadeia logística global decorrente da pandemia. Mas, acrescenta que as turbulências de um ano eleitoral polarizado ajudam a trazer mais incertezas e fazer o empresário reter investimentos.    

“A inflação desacelerou, mas continua em uma crescente preocupante. A pressão sobre os preços desestimula o investimento e a produção. Temos pela frente um período de muitas incertezas, especialmente se considerarmos o cenário político decorrente do ano eleitoral. O segmento industrial avalia com cautela as perspectivas futuras, aguardando, principalmente, os próximos três meses, a fim de que tenhamos uma noção mais clara do panorama político-econômico.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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