Um dos paradoxos do mundo em que vivemos é a exigência de termos profissionais competitivos, de um lado, e cidadãos que saibam trabalhar de forma ética e conviver em comunidade, de outro. Ou seja, somos estimulados a compartilhar, mas somos ensinados e cobrados também a vencer e a superar o próximo.
O exemplo de sucesso que vem sendo dado pelo modo cooperativo do trabalho de milhares de cientistas, das mais diversas nacionalidades, nos laboratórios do CERN (Centro Europeu de Pesquisas Nucleares) – na fronteira franco-suíça –, realizando experiências de ponta no mundo das altas energias e das partículas subatômicas mostra a viabilidade e a eficácia desse modelo organizacional.
Exatamente porque a cultura do individualismo ainda predomina é que precisamos trabalhar, de forma cada vez mais sistemática, continuada e eficiente, para promover princípios éticos. O ambiente escolar e universitário deve propiciar situações concretas por meio das quais os estudantes vivenciem experiências de cooperação, resolução de conflitos e convívio com as diferenças. Não basta apregoar esses valores, é preciso que eles sejam exercitados na prática.
Precisamos perceber a relação direta de causa e efeito entre o discurso da competição extrema, do sempre levar vantagem, do vencer a qualquer custo, do cuidar apenas de si e do que é seu, e o panorama geral da sociedade, marcado por violências, destruição ambiental, solidão e vazio existencial. Muitas pessoas fazem de conta que uma coisa não tem nada a ver com a outra. É como se pensassem: posso ser egoísta, mas a sociedade deve ser solidária! Como é possível haver uma sociedade humanizada, justa e acolhedora formada por pessoas individualistas e egocêntricas? São posições antagônicas que mutuamente se repelem.
A cultura ocidental contemporânea caracteriza-se por exacerbado individualismo e por generalizada expectativa imediatista. Como todos estamos imersos nessa cultura, tendemos a acreditar que trabalhar em grupo seja uma tarefa difícil, quase impossível – algo que exige um esforço sobre-humano. Obviamente, nesse ambiente cultural não é fácil trabalhar em grupo. Trabalhando sozinho você pode até ir mais rápido, mas juntos se consegue ir mais longe.
É trabalhando em grupo que a pessoa pode aprender mais, enriquecendo sua visão ao entrar em contato com percepções diferentes. É impossível a alguém enxergar a multiplicidade de ângulos que uma questão oferece – principalmente se for complexa. Acontece que a maioria dos problemas enfrentados por uma empresa (ou pela sociedade) é de grande complexidade, o que torna necessária a adoção de adotar abordagens que incluam a diversidade, a multiplicidade e a multidimensionalidade. E isso só pode ser alcançado em um trabalho em grupo.
A dificuldade de se trabalhar em grupo reside no fato de ser um processo que depende de um conjunto de qualidades, atitudes e competências que muitos não desenvolveram ao longo de uma escolarização anacrônica: empatia, escuta ativa, respeito a opiniões contrárias, tolerância para com o estilo de cada um, humildade em reconhecer que não é o dono da verdade, cortesia etc. É por intermédio do diálogo e da participação que um grupo se desenvolve.
Em geral, as pessoas não nascem sabendo trabalhar em grupo. É preciso aprender, e esse aprendizado se dá na prática da socialização, ao longo da vida. Observemos os estágios do desenvolvimento do ser humano: o bebê não admite partilhar seus brinquedos; a criança aceita emprestar o seu brinquedo a outra, desde que haja permuta; a criança maior já é capaz de participar em esportes coletivos; e o adolescente busca ativamente engajar-se em algum grupo e sente prazer na partilha. É um processo que faz parte da natureza gregária do homem.
O amadurecimento do caráter humano se dá em direção às relações que promovem a cooperação e a interdependência. Mas a cultura pode coibir esse aprendizado. No atual estágio da civilização planetária, que nos trouxe a clara noção de que é preciso urgentemente construir uma sociedade que não deprede o planeta, não se pode tolerar excessivo de individualismo. Em demasia, o individualismo gera um egoísmo pernicioso que nada constrói. Temos, portanto, que reaprender a trabalhar – e a nos desenvolver – em equipe. Este será o grande desafio que condicionará a qualidade do futuro da civilização.
Os Correios
O serviço de Correios é um monopólio estatal que já teve seus dias de glória no Brasil. Chegou a equiparar-se aos das nações mais desenvolvidas. Infelizmente, nos últimos anos, a qualidade dos serviços prestados pelos Correios – que integra a infraestrutura de comunicações –, essencial em um país da dimensão física e demográfica do Brasil, vem se tornando cada vez pior. A insatisfação é generalizada. Tratando-se de serviço público que atinge a totalidade da população, a queda de qualidade é sentida por todos. A decadência dos Correios é um problema e uma lição para o próximo governo. Mostra que a politicagem com cargos e o aparelhamento de órgãos públicos e de empresas estatais têm alto custo para os funcionários e para os usuários, tanto em termos da corrupção gerada como da deterioração da administração. As provas vivas desse fato são o estado atual dos Correios e as históricas imagens na TV, transmitidas em rede nacional, de Mauricio Marinho pegando dinheiro vivo, que culminaram na CPI do mensalão. Assim como carimbam no envelope a data da postagem, os Correios deveriam ser obrigados pelo Procon a carimbar também a data da entrega da correspondência. E assumir, assim, as responsabilidades legais pelos imensos prejuízos morais e materiais causados aos usuários. Se isso fosse obrigatório, as indenizações resultantes já teriam quebrado os Correios.
Caos aéreo
A situação do transporte aéreo no Brasil vai de mal a pior, como se verifica diariamente nos aeroportos. Os atrasos sistemáticos de vôos já se transformaram em rotina para os usuários desse serviço essencial em um país das dimensões do Brasil. A Folha de S.Paulo, em recente editorial (“Ganância e Aptidão”, em 05.08), abordou o tema de forma contundente, concluindo com as seguintes observações: “É crescente a demanda por voos no país. Mas não há como atender à procura se a oferta continuar engessada pela ineficiência generalizada. Já se tornou ocioso lembrar que faltam vagas em aeroportos para que novas e antigas empresas ampliem o número de voos. E faltam aeroportos. O governo Lula, que não consegue fazer a Anac funcionar, não admite, por surradas razões ideológicas, privatizar a Infraero, cuja atuação na ampliação da infraestrutura tem sido pífia – e com frequência cercada de suspeitas. Não se vai longe, desse jeito”. Entre as capitais, a situação mais grave é a de Manaus, onde as fábricas do PIM dependem maciçamente do transporte aéreo para abastecer as linhas de produção de suas fabricas, além dos prejuízos e desconfortos causados aos passageiros. A sociedade amazonense, portanto, sofre duplamente com o caos aéreo.






