Se o comércio varejista vem apresentando bons resultados em todos os seus segmentos e, em agosto, cresceu a taxas excepcionalmente significativas (2% com relação a julho, com ajuste sazonal, e 10,4% frente a agosto de 2009), a indústria brasileira não vem logrando o mesmo desempenho, ou ainda, a indústria não emplacou. Em agosto, a indústria em geral apresentou, seja na produção, seja no emprego, resultados muito modestos ou mesmo de desaceleração. No que diz respeito à produção industrial, observa-se que, no total das regiões metropolitanas pesquisadas pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), houve recuo de 0,1% em agosto com relação a julho – taxa calculada a partir da série com ajuste sazonal. No entanto, apesar de o resultado para o conjunto do Brasil não ter sido bom, não se deveu ao comportamento observado nos principais centros industriais. Isso, de certa maneira, ameniza tal resultado negativo global. De fato, o produto físico da indústria de São Paulo e do Rio de Janeiro foram positivos e expressivos, crescendo, respectivamente, 1,3% e 1,6% em agosto frente a julho –na série com ajuste sazonal. Em Minas, a produção industrial praticamente ficou estável (–0,1%).
A análise regional permite, portanto, qualificar o que ocorreu em agosto. Ou seja, a virtual estabilidade da produção da indústria deveu-se a dois movimentos opostos: (i) bom crescimento em dois estados onde a indústria é mais estruturada, diversificada e/ou tem maior peso na composição nacional (como a indústria paulista e carioca); e (ii) recuo quase generalizado nas demais regiões. A indústria mineira ficou no meio termo.
No Amazonas e Nordeste, a produção recuou 3% e 1,9%, nessa ordem. No Rio Grande do Sul e no Paraná, a retração foi mais expressiva (4,3% e 7,2%, respectivamente). Pode-se dizer que os sinais da produção industrial no segundo semestre deste ano não são totalmente claros. A queda do produto da indústria amazonense registrada em agosto é a segunda consecutiva (–1,4% em julho). No Nordeste, o recuo de 1,9% em agosto ocorreu após um aumento de 1,3% em julho. Por sua vez, nos Estados do sul, a retração da produção no Rio Grande do Sul em agosto praticamente “devolveu” o crescimento de julho (+4,4%) e, no Paraná, a produção já havia caído em junho (–3,2%) e em julho (–3,3%).
Ajustes de estoques
É possível que os resultados reflitam ainda alguns ajustes de estoques –após as expressivas taxas de crescimento observadas no começo do ano– nessas regiões onde a produção recuou mais fortemente. Outra possibilidade está ligada à concorrência que a indústria doméstica vem sofrendo dos produtos importados, devido ao câmbio sobrevalorizado e à aguerrida busca por parte de várias economias de mercados externos para suas exportações. Esta possibilidade é bastante plausível e deve ser acompanhada nos próximos meses –o dado da CNI (Confederação Nacional da Indústria) divulgado ontem favorece esse argumento, ao mostrar um recuo do faturamento da indústria em agosto, mesmo com crescimento das estimativas de produção e do emprego do setor levantados pela entidade.
Cabe destacar que a trajetória da produção industrial é positiva em 2010, mas vem desacelerando. No primeiro semestre, o produto da indústria aumentou 16,2% e, nos dois primeiros meses do segundo (julho e agosto), 8,8% –sempre na comparação com o mesmo período de 2009. É verdade que, no segundo semestre do ano passado, a indústria começou a apresentar melhores resultados; portanto, a comparação se dá com um nível de produção maior. No entanto, o arrefecimento é muito forte. Em São Paulo, o crescimento da produção industrial passou de 15,3% no primeiro semestre para 8,8% no período julho-agosto; em Minas, de 22,4% para 11,0%; no Espírito Santo, de 36,9% para 19,6%; em Santa Catarina, de 12,3% para 1,9% no Amazonas, de 28,2% para 12,5%. Em todas as outras regiões pesquisadas pelo IBGE, observam-se também, ainda que em menor magnitude, desaceleração da produção entre esses dois períodos.
Arrefecimento no emprego
Com relação ao emprego industrial, parece clara a tendência de desaceleração de crescimento adicional do emprego na indústria brasileira. De fato, os dados do IBGE mostram que, em agosto, a variação do número de ocupados na indústria, embora se mantendo na faixa positiva, regrediu bastante com relação ao padrão que vinha sendo obtido em meses anteriores. O aumento de apenas 0,1% em agosto com relação a julho, calculado a partir da série com ajuste sazonal, contrasta com as elevações de 0,4%, 0,5% e 0,3% registradas, respectivamente, em maio, junho e julho.
A causa do arrefecimento está no menor ritmo do crescimento industrial ocorrido após a indústria ter experimentado um tão vertiginoso quanto passageiro aumento da produção no primeiro trimestre deste ano. Com se sabe, o emprego costuma reagir às variações na produção, porém com alguma defasagem. De qualquer modo, é importante destacar que, em agosto deste ano com relação ao mesmo mês de 2009, o emprego industrial foi 5,2% maior, uma marca expressiva, e a variação acumulada nos últimos 12 meses até agosto foi de 0,5%, o primeiro resultado positivo nessa base de comparação após dezesseis meses de recuos.
Há também fatores ligados ao mercado de trabalho da indústria que são positivos e também merecem destaque. Podem ser observados aumentos de emprego em regiões e setores importantes para a economia brasileira, seja porque são grandes contratantes de mão de obra ou porque estão ligados a novos investimentos. Na comparação mensal com agosto de 2009, as variações mais significativas do emprego ocorreram em São Paulo (3,8%) e região Nordeste (6,7%). Setorialmente, os destaques de maior significância foram: máquinas e equipamentos (12,7%) e meios de transporte (9,5%).A expectativa é que o emprego mantenha sua trajetória de crescimento nos próximos meses, ainda que, possivelmente, com menor ímpeto.







