
Marco Dassori
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A indústria do Amazonas aumentou as horas trabalhadas e o uso da capacidade instalada, em maio. Houve reflexo positivo também na geração de postos de trabalho. Mas, em sintonia com o agravamento da crise na cadeia global de suprimentos, o esforço se refletiu mais na reposição de estoques. As fábricas acabaram vendendo menos, em todas as comparações, em um mês em que a massa salarial também ficou menor. É o que revelam os dados locais dos Indicadores Industriais da CNI (Confederação Nacional da Indústria), compilados em parceria com a Fieam (Federação da Indústria do Estado do Amazonas).
Outro estudo da CNI aponta que a indústria de transformação registra, há oito trimestres seguidos, a falta ou o alto custo de insumos e matérias-primas como principal problema. Entre abril e junho, o cenário se repetiu e voltou a interferir na produção de 22 dos 25 setores industriais. No segundo trimestre, 71,7% das fábricas do subsetor de Impressão e Reprodução registraram esse problema. O mesmo se deu nos segmentos de produtos de limpeza, perfumaria e Higiene Pessoal (70%), veículos automotores (69,8%), calçados e suas partes (68,3%), bebidas (66%), produtos de borracha (63,3%) e farmoquímicos e farmacêuticos (62,5%).
Conforme os Indicadores Industriais da CNI, o faturamento real da manufatura do Amazonas tombou 10,3% na variação mensal, ampliando a perda de abril (-12,2%). Vale notar que o indicador ficou positivo em apenas um dos cinco meses iniciais do ano, nesse tipo de comparação. As vendas despencaram 21,3% ante maio de 2021. No acumulado do ano, ainda houve aumento de 6,2%. Em contraste, a média foi favorável em praticamente todos os cenários (+1,8%, +0,2% e -4,2%, respectivamente).
Em paralelo, as horas trabalhadas nas linhas de produção da indústria amazonense mantiveram o passo (+2,5%), entre abril e maio deste ano, acelerando na comparação com o resultado da sondagem anterior (-7,4%). No confronto com a marca de 12 meses atrás, o indicador escalou 15,1%, segurando o acumulado do ano em alta de 17,8%. Em todo o país, o setor foi pouco além da estagnação na variação mensal (+1,6%), embora tenha crescido de forma mais robusta nas demais comparações (+4,9% e +2,4%).
A UCI (utilização da capacidade instalada) –que trata do percentual de máquinas comprometidas na produção –decolou 9,8 pontos percentuais (+12,89%) no mês, após o tombo sofrido em abril (-7,4 p.p.). Passou de 76% para 85,8%, entre o quarto e o quinto mês deste ano. Em relação a maio do ano passado (80,1% de uso), a expansão foi de 5,7 p.p. (+7,12%). A indústria do Amazonas usou 74,7% de sua capacidade instalada, em média, no aglutinado dos cinco meses iniciais do ano, registrando variação positiva de 6,5 p.p. em relação a 2021. O indicador nacional (80,9%) praticamente empatou com o dado de abril de 2022 (81%) e encolheu ante março de 2021 (81,3%).
O levantamento da CNI confirma o que o IBGE já havia mostrado em sua pesquisa mensal para o mês: a produção industrial do Amazonas subiu nas variações mensal (+6,6%) e anual de maio (+9,1%), interrompendo dois meses consecutivos de estagnação. Mas, apesar de mostrar crescimento em 2022 (+2,1%), o setor segue negativo no acumulado dos últimos 12 meses (-1,8%), embora tenha se saído melhor do que a média nacional.
Empregos e salários
Os dados relativos à mão de obra da indústria do Amazonas, por sua vez, mostraram novamente resultados conflitantes. O saldo de contratações no parque fabril do Estado foi pouco além do zero a zero e subiu 0,7%, na comparação com abril. Foi o segundo resultado positivo em um ano de oscilações, mas o número foi insuficiente para recuperar a perda anterior (-5,8%). No confronto com o quinto mês de 2021, houve alta de 5,6%, segurando o acumulado no azul, mas já dilapidado à casa de um dígito (+9,2%). Em âmbito nacional, o setor estancou na variação mensal (+0,1%), e subiu em ritmo menor nas demais comparações (+1,5% e +2,4%).
Outros levantamentos já haviam confirmado que as contratações superam as demissões na indústria do Amazonas. Segundo o Novo Caged, o setor interrompeu uma série de dois meses em queda para criar 22 vagas celetistas em âmbito estadual, gerando variação positiva de 0,02% na comparação com o estoque anterior. O saldo foi puxado pelos segmentos de água, esgoto, atividades de gestão de resíduos e descontaminação (+64 vagas), de eletricidade e gás (+34) e da indústria extrativa (+10), mas a indústria de transformação (-86 e -0,08%) foi a única a efetivar cortes. Mas, a atividade continua com saldo negativo no acumulado do ano (-285).
O mesmo não pode ser dito da massa salarial real da manufatura amazonense, que emendou seu segundo mês seguido no vermelho, conforme a CNI. O retrocesso foi de 4,1%, na passagem de abril para maio, em queda mais amena do que a anterior (-8,7%). Em relação ao patamar de 12 meses atrás, no entanto, foi registrada uma decolagem de 30,8%, ajudando a manter o aglutinado de janeiro a maio em alta de 26%. Na média brasileira, a variação mensal ficou positiva em 1,3%, e teve altas de um dígito nas elevações anual (+5,2%) e acumulada (+2,3%).
Empregos e insumos
Em texto distribuído pela assessoria de imprensa da CNI, o gerente de Análise Econômica da entidade, Marcelo Azevedo, considerou que os números nacionais dos Indicadores Industriais foram positivos, principalmente no que se refere aos empregos. “O resultado de maio é importante, pois reverte, ainda que parcialmente, o resultado mais negativo de abril. E a retomada da trajetória positiva do mercado de trabalho é muito importante”, amenizou.
Em outro texto veiculado pela CNI, a economista da entidade, Paula Verlangeiro explica que, aproximadamente, metade da produção industrial é consumida como insumo pela própria indústria. Dessa forma, a falta ou alto custo de insumos se dissemina por toda a cadeia de produção, com aumento de preços ou redução da produção. Os motivos apontados são a pandemia e a guerra na Ucrânia, além dos “severos lockdowns na China”.
“Os dois últimos fatores atrasaram a normalização das cadeias de insumos globais, que ainda não haviam se recuperado totalmente dos choques da pandemia. Além de dificultarem a recuperação da produção, contribuíram para pressionar mais os preços e aumentar a inflação global. A expectativa é de normalização apenas em 2023”, frisou.
“Cenário de instabilidade”
Em entrevistas recentes à reportagem do Jornal do Commercio, o presidente da Fieam, e vice-presidente executivo da CNI, Antonio Silva, reforçou que a economia funciona de forma cíclica, sendo natural que, após um período de inflexão negativa, os números apresentem alguma retomada – e vice-versa. “De igual modo, ao superarmos os problemas decorrentes da crise atual imposta pela pandemia, devemos observar indicadores positivos, fruto de uma nítida demanda reprimida e redução do poder aquisitivo da população”, completou.
O dirigente acrescenta que é necessário ressalvar também que as bases comparativas foram prejudicadas, em decorrência da pandemia e do problema global na cadeia de fornecimento de insumos. “As análises comparativas pontuais devem ser ponderadas sob uma ótica menos conclusiva. Temos ainda um cenário de instabilidade decorrente das eleições no segundo semestre do ano. Nossas expectativas são de que os números continuem apresentando inflexões voláteis até o primeiro semestre de 2023”, concluiu.







