O debate sobre cultura como estratégia de desenvolvimento econômico ganhou novo fôlego nacional após declaração da economista ítalo-americana Mariana Mazzucato à Agência Brasil. Segundo estudo citado por ela em entrevista à Agência Brasil nesta semana, cada R$ 1 investido em cultura pode gerar retorno de R$ 7,59 para a economia, superando setores tradicionais da indústria, como o automotivo, cujo impacto multiplicador é de R$ 3,76.
A afirmação desafia uma lógica histórica de investimento público no Brasil, onde a indústria manufatureira costuma receber mais atenção orçamentária do que as artes, os eventos culturais e a economia criativa. Mas, se no cenário nacional os números já impressionam, no Amazonas os exemplos práticos reforçam essa tese.
O Festival de Parintins, por exemplo, movimentou R$ 215,6 milhões em receita direta em 2025, segundo dados divulgados pela Amazonastur e pela Prefeitura do município, com público estimado em 120 mil turistas. O impacto vai além da arena: envolve hotelaria, alimentação, transporte, comércio, serviços e toda uma cadeia produtiva que começa muito antes da apresentação dos bois e segue depois do encerramento oficial.
Apesar disso, a economia criativa ainda ocupa espaço secundário no debate econômico local, tradicionalmente dominado pelo Polo Industrial de Manaus. Para a produtora cultural Loren Luniere, conselheira municipal de cultura e integrante da Concultura, essa visão precisa ser revista. Há pelo menos dois anos, ela defende publicamente que cultura não é apenas expressão simbólica, mas infraestrutura econômica, geração de renda e política pública estratégica.
Nesta entrevista ao Jornal do Commercio, Loren analisa o peso real da cultura na economia amazonense, detalha a cadeia produtiva que sustenta o setor, aponta gargalos estruturais e defende a destinação de 2% do orçamento estadual para a área. Para ela, o Amazonas já provou que a cultura gera riqueza — o que falta é transformá-la definitivamente em política de Estado contínua e estruturada.
- A economista Mariana Mazzucato afirma que cada real investido em cultura pode gerar retorno maior do que setores tradicionais da indústria. A partir da sua experiência como produtora cultural e conselheira da Concultura, como essa lógica se aplica ao Amazonas? Já temos dados ou estimativas locais sobre o impacto econômico da cultura no estado?
Loren Lunière – No Amazonas, a cultura funciona exatamente como a Mariana Mazzucato descreve: o Estado não só “corrige falhas”, ele cria mercado, organiza cadeias produtivas e gera demanda onde antes havia informalidade e subfinanciamento. Isso é política pública de desenvolvimento, alinhada ao dever constitucional de garantir direitos culturais (CF, arts. 215 e 216) e à obrigação expressa da Constituição do Amazonas de apoiar e difundir manifestações culturais e proteger patrimônio (CE/AM, arts. 205–207).
Em termos de evidência local, o exemplo mais didático é Parintins: a Amazonastur e a Prefeitura divulgaram receita direta de R$ 215,6 milhões com 120 mil turistas no Festival 2025, mostrando que cultura movimenta serviços, comércio, transporte, hotelaria e trabalho local.
No plano nacional, estudos apresentados ao Ministério da Cultura reforçam essa lógica: pesquisa divulgada pela Agência Brasil (com base em estudo FGV) aponta que cada R$ 1 investido via Lei Rouanet retornou R$ 7,59 à economia, o que ajuda a qualificar o debate sobre retorno do investimento cultural.
Precisamos de mais indicadores e estudos mais aprofundados para saber o real impacto da cultura no Estado.
- Muito se fala do Polo Industrial de Manaus, mas pouco se discute o tamanho da economia criativa. Hoje, qual é a participação da cultura e da economia criativa na geração de emprego e renda no Amazonas? Esse setor já é tratado como estratégico pelo poder público?
Loren Lunière – A cultura e a economia criativa ainda são subdimensionadas no debate público do Amazonas, em parte porque o Polo Industrial domina o imaginário econômico. Mas há sinais claros de relevância: levantamentos nacionais (como os da Firjan) mostram que a indústria criativa tem peso crescente no PIB, alcançando 3,59%, mais que a indústria automobilística, e gerou mais de 7 milhões de empregos no Brasil. O Amazonas aparece como território com potencial de expansão, especialmente em audiovisual, música, eventos, artesanato, design, gastronomia e turismo cultural.
- Você tem defendido a destinação de 2% do orçamento estadual para a cultura. Por que esse percentual é importante?
Loren Lunière – Porque cultura é direito fundamental e também infraestrutura econômica. A Constituição do Amazonas é explícita: manda o poder público garantir direitos culturais, manter espaços culturais e proteger as culturas populares e indígenas, e ainda prevê Fundo e Conselho como instrumentos permanentes (CE/AM, arts. 205–207). Isso exige previsibilidade financeira — sem orçamento, vira letra morta.
Em 2026, a LOA do Amazonas foi fixada em cerca de R$ 38,05 bilhões.
Dois por cento desse total significa aproximadamente R$ 761 milhões/ano para estruturar formação (ex.: Liceu), equipamentos culturais, editais, festivais, cinema, teatro, música, circo, patrimônio, economia criativa e políticas específicas para periferias e povos indígenas. É um patamar que permite deixar de fazer cultura “por evento” e “superestruturas”, e passar a fazer cultura “por sistema”, impactando diretamente a população.
- Quando falamos em cultura, muitas pessoas pensam apenas no artista no palco. Mas existe toda uma cadeia produtiva envolvida. Como essa cadeia funciona no Amazonas?
Loren Lunière – Quando alguém pensa “artista no palco”, enxerga só a ponta. A cultura é uma cadeia produtiva completa, que no Amazonas envolve Criação (artistas, compositores, roteiristas, mestres de saberes, artesãos), Produção (produtores, cenografia, figurino, marcenaria, solda, adereços, logística), Técnica (som, luz, palco, montagem, audiovisual, streaming, design, comunicação), Circulação e fruição (salas, teatros, centros culturais, arenas, festivais), Economia Indireta (hotelaria, alimentação, transporte, comércio, serviços).
Eventos como o Festival de Parintins deixam isso escancarado: a própria mensuração oficial fala em receita direta de turismo, que é só um pedaço do que se movimenta na cadeia, fora todo o trabalho criativo e técnico por trás, sem contar o que economia que circula na temporada “bovina”, período pré-festival.
- Mesmo enfrentando precariedade estrutural, informalidade e falta de políticas contínuas, o setor cultural continua gerando renda e movimentando a economia. O que explica essa resistência?
Loren Lunière – A cultura resiste porque ela é necessidade social e identidade — e, no Amazonas, é também meio de sobrevivência econômica em muitos territórios. Mesmo sem política contínua, a cultura segue operando por redes comunitárias, coletivos, tradições, igrejas, escolas, movimentos periféricos e povos originários.
O problema é que, sem fomento regular, essa força vira “heroísmo permanente”: muita produção acontece na informalidade, com baixo capital de giro, pouca proteção trabalhista e alta vulnerabilidade. Por isso o papel do Estado, juridicamente, não é opcional: a Constituição Federal manda garantir direitos culturais (arts. 215 e 216) e a Constituição Estadual do Amazonas detalha deveres e instrumentos. E ainda falta entregar o Plano Estadual de Cultura.
- Q são hoje os principais gargalos que impedem a cultura de alcançar todo o seu potencial econômico no estado?
Loren Lunière – Eu destacaria seis gargalos: Subfinanciamento e descontinuidade (sem previsibilidade não há cadeia produtiva estável); Infraestrutura desigual (muitos municípios sem teatros, salas multiuso, bibliotecas, museus ou equipamentos mínimos); Formação técnica insuficiente (produção, técnica, gestão cultural, direitos autorais, economia criativa); Burocracia e desenho de edital que ainda não conversa bem com a realidade do interior, periferias, mulheres e povos indígenas; Logística amazônica (distâncias e custos de circulação elevam o preço de produzir e circular); Baixa integração entre cultura, turismo e desenvolvimento econômico. Vou dar um exemplo: O FECANI já foi um dos principais Festivais de Música Autoral do Brasil. Vinham artistas de toda a parte para participar. Era uma data esperada, milhares de pessoas viajavam para Itacoatiara por causa do FECANI. Hoje as cidades do interior têm superestruturas, atrações nacionais de alto padrão e logística, mas o impacto no turismo é baixo. São sempre as mesmas atrações e ritmos rodando pela Capital e pelo Estado. Nosso erro é não aprender como o Pará e Parintins: quem viaja pra conhecer a Amazônia quer ver a Amazônia. Aí está o Pará com as rodas de Carimbó em Alter do Chão, as Aparelhagens das Periferias, o Brega, o Calypso. Eles vendem a cultura paraense. Enquanto nós, viramos “monocultura”. O único festival que recebe forte investimento no Estado é o Festival de Parintins. Ou seja, não é falta de talento do nosso povo, é falta de políticas públicas e investimento.
- O Amazonas já possui editais, leis de incentivo e políticas públicas culturais. Na sua avaliação, o que já avançamos nos últimos anos?
Loren Lunière – Houve avanço real, porque a cultura no Amazonas passou a receber injeções de investimento federal, que aceleraram o mercado e evidenciaram o tamanho da demanda reprimida. Pela Lei Paulo Gustavo, o Estado recebeu cerca de R$ 51,7 milhões, e o conjunto Estado e municípios somou aproximadamente R$ 87,2 milhões, recursos que impulsionaram produção, circulação, contratação de equipes técnicas e formalização de projetos. No caso da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), o Amazonas teve adesão total no primeiro ciclo e recebeu R$ 68,4 milhões (R$ 38,7 milhões para o Estado e R$ 29,7 milhões para municípios). Além disso, a execução estadual já se traduz em editais com recursos expressivos — por exemplo, a SEC/AM divulgou lançamento de editais da PNAB com investimento na ordem de R$ 10,7 milhões, sinalizando maior capacidade de operação do fomento.
Ao mesmo tempo, esse crescimento está acontecendo quase “por tração federal”, e aí aparece o limite: ainda faltam políticas próprias e permanentes do Estado e da capital na escala da demanda atual. O Amazonas tem instrumentos estruturantes (FEC, CONEC, cadastros e editais), mas precisa transformar isso em política de Estado: ampliar e regularizar editais estaduais recorrentes, tirar do papel mecanismos de incentivo e, sobretudo, concluir e institucionalizar o Plano Estadual de Cultura, que ainda está em processo de tramitação nos entes públicos, a passos lentos, e ainda será encaminhado formalmente para Assembleia Legislativa.
Em outras palavras: a economia da cultura e indústria criativa (ECIC) do Amazonas está crescendo, mas às duras penas, sustentada por uma “bolha” de demanda e potência produtiva que só se mantém porque o setor é resiliente e porque o fomento federal abriu uma janela histórica. Para consolidar esse ciclo e não depender de excepcionalidades falta o elemento decisivo: vontade política para planejar, financiar e executar cultura como política pública contínua, compatível com o dever constitucional de garantir direitos culturais e com o papel econômico que o setor já desempenha.







