O sagrado e o profano; a realeza e o popular; a diversidade e a singularidade. Anos e anos de fé e dedicação fizeram da Festa do Divino Espírito Santo em Pirenópolis, estado de Goiás, a mais rica expressão da religiosidade popular cristã da cidade, onde os moradores se preparam durante um ano inteiro para festejar e participar da histórica celebração. Todos os rituais da festa serão apresentados ao Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, que estará reunido amanhã, no Rio de Janeiro, com a proposta do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) para registrar a Festa do Divino Espírito Santo de Pirenópolis como patrimônio cultural nacional. Depois do Círio de Nossa Senhora de Nazaré, em Belém do Pará, em outubro de 2005, a Festa do Divino Espírito Santo de Pirenópolis é a primeira manifestação religiosa encaminhada à análise do Conselho Consultivo para registro como Patrimônio Cultural Brasileiro, com inscrição no Livro das Celebrações.
As festas de santos, trazidas pelos colonizadores europeus como devoção religiosa e como expressão da cultura popular e medieval, se espalharam pelo Brasil, durante o processo de colonização e ocupação do território, sendo mescladas aos cultos de matriz africana e às crenças religiosas indígenas. Entre as que se destacam, como as festas juninas e as de Nossa Senhora do Rosário, estão as do Divino Espírito Santo, popularizadas por todo o Brasil, a partir do século 17, por jesuítas e colonos açorianos. O culto ao Divino Espírito Santo está relacionado às comemorações do fim do ciclo agrícola, época festiva da colheita de cereais, e remete à celebração judaica de Pentecostes, quando se ofertavam os primeiros frutos da colheita ao Espírito Santo. No dogma católico, o Espírito Santo integra a Santíssima Trindade, ao lado de Deus Pai e de seu Filho Jesus, e se manifesta como uma pomba branca ou como línguas de fogo.
Desde sua origem em Portugal, a celebração ao Espírito Santo destaca a figura do imperador, com sua coroa de prata, cetro e bandeira do Divino. A população local oferece pães, grãos e animais para os festejos, que geralmente envolvem grandes refeições coletivas. Grupos de músicos saem pelas ruas em folias, recolhendo donativos, levando estandartes vermelhos como o fogo do Espírito Santo. Nas procissões, crianças vestem-se de anjo, o imperador segue em cortejo pela cidade conduzido por virgens vestidas de branco. Uma burlesca mascarada sai pelas ruas. Um imenso mastro com a bandeira do Divino é erguido no pátio principal da cidade, onde fogos de artifícios encerram a festa.
Festejos em Pirenópolis
A Festa do Divino de Pirenópolis é realizada anualmente desde 1819, data do primeiro registro na lista local de imperadores. Desde então, ano após ano, essa listagem é atualizada e publicada na programação da festa. É considerada uma das mais expressivas celebrações do Espírito Santo no país, especialmente pelo grande número de seus rituais, personagens e componentes, como as cavalhadas de mouros e cristãos e os mascarados montados a cavalo. Enraizada no cotidiano dos moradores de Pirenópolis, a Festa do Divino determina os padrões de sociabilidade local, consolidando-se como elemento fundamental da identidade cultural da cidade.
Os rituais têm início no domingo de Páscoa e seguem até o domingo seguinte ao feriado de Corpus Christi. O clímax da festa é no Domingo de Pentecostes ou do Divino. Os elementos essenciais incluem as Folias da Roça e da Rua, a coroa, as cerimônias e rituais do Império, com alvoradas, cortejos do Imperador, novena, jantares, cafés, missas cantadas, levantamento do mastro, queima de fogos, distribuição de “verônicas”, sorteio e coroação do novo Imperador.







