Irmãs salesianas: 100 anos de presença no Amazonas

Em: 7 de junho de 2023

Da mesma forma que levam uma existência discreta, as irmãs salesianas Filhas de Maria Auxiliadora comemoraram, em 16 de fevereiro deste ano, os 100 anos da chegada das primeiras irmãs dessa ordem católica ao Amazonas, em 1923. Eram quatro religiosas e duas leigas que subiram o rio Negro e foram cumprir sua missão em São Gabriel da Cachoeira. Se até hoje é difícil o acesso pelo rio àquele distante município, imaginem como não deveria ser há um século. Mas madre Anna Masera, irmãs Antonia Beinotti (italianas), Caterina Oliveira e Elisa Ferreira, acompanhadas pelas leigas Amélia de Mello e Antonia Alves (brasileiras), não pensaram duas vezes em acatar a indicação da inspetora madre Anna Covi, no Rio de Janeiro.

No dia 10 de janeiro as seis mulheres partiram da então capital do país e rumaram para a capital do Amazonas a bordo de um navio. Aportaram em Manaus no dia 29 e logo partiram para São Gabriel onde chegaram no dia 16 de fevereiro perfazendo um total de 37 dias de viagem numa embarcação. Foram recebidas com fanfarra e a irmã Elisa Ferreira escreveu.

“Finalmente chegamos a São Gabriel. Fomos à paróquia para o canto do ‘Te Deum’, a bênção eucarística e algumas saudações. Todos queriam ver as missionárias: homens, mulheres, crianças. Queriam nos ver, nos tocar, nos examinar da cabeça aos pés. Todos ficaram maravilhados…”.

Mas por que essas salesianas vieram para um local tão distante e inóspito? O salesiano Dom Pedro Massa, bispo e prefeito apostólico da prelazia do rio Negro, foi o fundador das missões salesianas entre os indígenas daquela região. Dom Pedro Massa achou que seria importante, e necessário, ter mulheres atendendo especificamente às mulheres indígenas nos quesitos saúde e educação, por isso solicitou essa ajuda à Inspetoria de Santa Catarina de Sena, em São Paulo, base das irmãs salesianas no Brasil, no que foi atendido. Uma das salas do Museu dos Povos Indígenas do Rio Negro (antigo Museu do Índio), em Manaus, guarda dezenas de equipamentos médicos utilizados pelas irmãs nos anos seguintes.

“Elas realizavam pequenas cirurgias, extraíam dentes, aplicavam injeções e ajudavam nos partos das indígenas”, contou a irmã Madalena, que reside em Taraquá.

Ordens independentes

Os padres salesianos chegaram ao Amazonas apenas oito anos antes das irmãs. Em 1914, a Santa Sé criou a Prefeitura Apostólica do Rio Negro e os primeiros salesianos vieram para a região já no ano seguinte sob as ordens de Dom Pedro Massa, estabelecendo a sede para a nova missão em São Gabriel da Cachoeira, portanto, quando as irmãs lá se estabaleceram, a base da Igreja já existia porém, o que as irmãs atuais gostam de enfatizar é que, apesar de os religiosos pertencerem à mesma ordem, as congregações masculina e feminina sempre foram totalmente independentes. Enquanto os homens seguem a Dom Bosco, o fundador da ordem, em 1859; as mulheres se auto-intitulam Filhas de Maria Auxiliadora porque foi a Virgem quem revelou a Dom Bosco a vontade de Deus em ter a presença feminina na Igreja. O próprio Dom Bosco disse: “vocês pertencem a uma congregação que é toda de Maria”.

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Fundado em 1937, o Patronato foi a primeira base das salesianas, em Manaus

Dom Pedro Massa não só foi o responsável pela vinda das irmãs para São Gabriel da Cachoeira como também ajudou na construção de sua base, em Manaus, o Patronato Santa Terezinha, fundado em 02 de abril de 1937 e reconhecido pelo governo do estado, em 1938, como instituição educacional, o que permanece até hoje agora como CEST (Centro Educacional Santa Terezinha). Versáteis, as irmãs também fundaram o Museu do Índio, em 1952, a partir de objetos indígenas que traziam das missões quando vinham para Manaus e ficavam alojadas no prédio do Patronato. Elas nunca deixaram de ser atuantes em todos esses 100 anos, e várias outras religiosas e leigas seguiram o mesmo caminho das pioneiras.

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Irmã Carmelita Conceição é a atual superiora das salesianas no Amazonas

Importância dos salesianos

“Hoje nós somos 111 irmãs atuando em quatro estados da Amazônia: Amazonas, Pará, Rondônia e Roraima, formando as Filhas de Maria Auxiliadora da Província Nossa Senhora da Amazônia. No Amazonas temos missões em Manaus, Manicoré, Barcelos, Santa Izabel do Rio Negro e, lógico, São Gabriel da Cachoeira, além da cidade, em quatro distritos daquele município: Assunção do Içana, Taraquá, Pari Cachoeira e Iauaretê. A madre superiora, no Amazonas, é a irmã Carmelita Conceição”, informou irmã Madalena.

“Nos primórdios as irmãs salesianas atendiam apenas mulheres e meninas indígenas promovendo educação e atividades sociais, como clube de mães, por exemplo. Hoje atendemos tanto meninas quanto meninos, indígenas e não indígenas. Temos irmãs que são professoras em escolas públicas e particulares. Não realizamos mais atividades na área da saúde, porque isso agora é encargo do poder público, muito embora tenhamos tido irmãs que eram enfermeiras e até médicas”, falou.

“Nossa principal atuação nos dias atuais está relacionada a projetos sociais realizados junto às comunidades”, destacou.

Em sua homilia, feita no dia 19 de fevereiro, Dom Damião, bispo da diocese de São Gabriel da Cachoeira, destacou a importância da presença da família salesiana no rio Negro, desde 1915, com os padres e, desde 1923, com as freiras.

“Numa região onde o governo esteve ausente até 1990, quem cuidou da educação e da saúde daquela gente foram os salesianos de Dom Bosco e as Filhas de Maria Auxiliadora”, concluiu.

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Evaldo Ferreira

é repórter do Jornal do Commercio
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