Se você nunca viu uma farinhada em algum dos interiores da Amazônia, ou provou a farinha, feita na hora, torradinha, desculpe, mas perdeu um dos prazeres da vida. Saiba que essa forma de preparar, assando num tacho de metal, o alimento que não pode faltar na mesa de um amazônida é milenar e começou com as japuna feitas de barro, muito antes de os antepassados indígenas sequer saberem o que era metal.
Para recuperar essa tradição perdida de produzir e usar, as japuna de barro, mulheres agricultoras e ceramistas da comunidade da Missão, em Tefé, no médio Solimões, estão participando do projeto ‘Cadeias Operatórias das Japuna no Médio Solimões’, iniciado pelo Instituto Mamirauá em 2025.

“Não é difícil encontrar japuna tanto em superfície quanto em subsuperfície, nos vários sítios arqueológicos existentes na Amazônia, na maioria das vezes fragmentadas. Nelas os indígenas processavam farinha e beiju”, falou a arqueóloga Geórgea Holanda, uma das idealizadoras do projeto.
Os naturalistas bávaros Spix e Martius, em sua ‘Viagem pelo Brasil’ (1817-1820), registraram hábitos alimentares e culturais de indígenas e caboclos e descreveram o uso da japuna na comunidade do Nogueira.
“Eles relataram que as mulheres produziam japuna, no entanto esse conhecimento foi se perdendo, acredito, por conta da colonização e aí foi inserido o tacho de metal, no entanto, os relatos dizem que nas japuna a farinha ficava mais crocante e gostosa”, informou.
Mais de um metro
Japuna, somente no singular, é uma palavra de origem tupi que quer dizer forno, ou assador. No alto Solimões significa casa de farinha do forno de assar beiju, ou forno de assar farinha.
“Várias etnias, entre elas, maioruna, kambeba, cocama e miranha habitam aquela região de Tefé, e todas utilizam o tacho de ferro, por isso a importância do projeto para salvaguardar esse patrimônio cultural e refazer as cadeias operatórias”, disse.
No sitio arqueológico CEST UEA (Centro de Estudos Superiores da UEA), entre 2017 e 2018, os arqueólogos conseguiram medir o diâmetro de algumas japuna porque foram encontradas partes da borda. De acordo com eles, da maioria delas restaram só partes e fica impossível medi-las sem a borda. Essas japuna mediam 60 cm, 80 cm e 1m30.

“Mas esses tamanhos podem variar, porque existiam japuna que eram fixas, e outras móveis, que eram levadas de uma comunidade para outra, ou de uma casa para outra”, contou a arqueóloga.
O projeto conta com três eixos de pesquisa: o primeiro com base em escavações na região; o segundo, de caráter etno-histórico, fundamentado em relatos de livros históricos e na memória das mulheres; e o terceiro, etnográfico, baseado na observação das técnicas das ceramistas da comunidade. Foram reunidas as mulheres do Clube de Mães da comunidade da Missão para realizar o mesmo trabalho de suas antepassadas: fazer a coleta do barro, modelar e queimar as peças até a finalização, práticas aprendidas com suas mães e avós.
Ao mesmo tempo em que articula conhecimentos arqueológicos e experiências atuais das ceramistas, a retomada da produção dessas peças amplia as possibilidades de geração de renda para o grupo. Além da japuna, as mulheres iniciaram a confecção de peças que não eram produzidas há anos, como vasos, fogareiros, churrasqueiras, alguidares, fruteiras, panelas entre outras.

Caraipé e cauxi
Quem vê as peças tão perfeitas e firmes não imagina que existe toda uma técnica no preparo para que elas fiquem assim, durando séculos. O produto que não pode faltar nesse preparo é o caraipé, um antiplástico que dá consistência ao barro. Caraipé (gênero Licania, principalmente L. octandra e L. utilis) é uma árvore amazônica. As cinzas de sua casca, ricas em sílica, são utilizadas para dar resistência e refratariedade (suportar altas temperaturas sem deformar ou quebrar) às peças. Só não se sabe como os antepassados descobriram isso, mas com certeza foi com experimentos. O famoso cauxi, existente em muitos dos rios amazônicos, também é usado com o mesmo fim do caraipé. O cauxi é uma esponja de água doce, conhecida por liberar espículas (microagulhas) que causam coceira e alergia intensa na pele em quem se arrisca a mergulhar onde elas estão em abundância.
“Cauxi também é uma palavra tupi que significa mãe da coceira”, ensinou Geórgea.
“Antes da queima das peças, as mulheres usam pedras para tratamento da superfície, mas existem outras técnicas como passar cuias e tauá (um tipo de argila ou barro, de cor amarela ou avermelhada, utilizado como pigmento)”, completou.
Agora em abril, os arqueólogos do Instituto Mamirauá foram até a comunidade de Nogueira, a mesma visitada por Spix e Martius há mais de 200 anos, com o objetivo de também identificar mulheres que ainda detêm práticas ancestrais.
“O projeto ‘Cadeias Operatórias das Japuna’ pretende reavivar essas técnicas ancestrais que estavam adormecidas”, finalizou.















