“Jornal do Commércio” – 114 anos

Em: 2 de janeiro de 2018
Trago permanentemente em minha mente a frase de minha sobrinha Milene: “Tio, se você quer escrever profissionalmente, leia tudo de Machado de Assis e as melhores obras dos grandes escritores, incluindo o amazonense Milton Hatoum
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Trago permanentemente em minha mente a frase de minha sobrinha Milene: "Tio, se você quer escrever profissionalmente, leia tudo de Machado de Assis e as melhores obras dos grandes escritores, incluindo o amazonense Milton Hatoum

Escrever não é tarefa fácil. Fazê-lo bem, com a devida correção e, principalmente, com quitutes sugestivos, que fustiguem o leitor a procurar, com interesse, a próxima palavra, frase ou oração, mais difícil ainda.

Trago permanentemente em minha mente a frase de minha sobrinha Milene: “Tio, se você quer escrever profissionalmente, leia tudo de Machado de Assis e as melhores obras dos grandes escritores, incluindo o amazonense Milton Hatoum. E não esqueça de que escrever bem se faz com dez por cento de talento e noventa por cento de muito trabalho e dedicação. Óbvio que ela citou outros autores e obras. Tenho a impressão de que tudo li de Machado de Assis e de Nietzsche. As outras obras são parte do meu calendário cotidiano e leitura de cabeceira de cama.

Para permitir que, seguindo os ensinamentos de Nietzsche, eu mantivesse íntegra a minha identidade, necessário seria, vez por outra, libertar o Pégaso lúdico do imaginário para cavalgar os ventos da criação pelas estradas multicores do arco-íris para transformar o mero de um corriqueiro em inspiração poética viva, pelas quais navegasse em águas límpidas, corpo e alma, embalado pela emoção de sonhos inesquecíveis, que se fizessem ou não, realidade. Isto é: estar permanentemente preparado para ir além do mestre.

Julguei necessário este preâmbulo porque se aproximava o dia 24 de outubro de 2017, data comemorativa do aniversário de Manaus; eu pretendia escrever algo sobre o assunto, mas nada me vinha à mente para homenagear a cidade que me acolheu desde 16 de março de 1996. Nada tinha? Lógico que sim: arrumação geral em minha residência e tomo nas mãos, datada de 24 a 26 de outubro de 2015, uma publicação do Jornal do Commércio. Tudo aquilo que imaginei necessitar estava ali registrado.
Por que utilizar, somente agora, as informações valiosas que possuo, ao apagar das luzes de 2017? Em primeiro lugar, porque a correria daquele momento específico não me permitiu. Segundo, porque falar de Manaus independe de tempo, hora e lugar.

Mas vamos aos fatos: o nosso “Jornal do Commércio” edita, religiosamente, ano a ano, um exemplar extra, à época do aniversário de Manaus. Em 2015 não foi diferente. Naquele ano, ele veio datado de 24 a 26 de outubro, tendo, em seu corpo, um apanhado singular dos encantos, peculiaridades e sabores dessa Terra Cabocla, onde a “leseira baré” é permanentemente lembrada em seu linguajar “caboco”, onde a “chibata” canta e a “caboquice” impera. Lembrados foram o “dindim”, a macaxeira, a farinha “caroçuda” e os pimentões “ardosos”, presenças indispensáveis na cozinha amazonense.

Ao recordar o passado, pasmem, falou sobre a matéria de 24 de outubro de 1950, onde o Presidente dos Estados Unidos da América do Norte alertava o mundo sobre a necessidade de controle de armas atômicas. Não foram esquecidos as lendas e os mitos, do boitatá cuspindo fogo ao boto vermelho, encantador de donzelas. Veio a sensação de água na boca quando lembrou a culinária e os peixes regionais, onde o pirarucu, o tucunaré e o tambaqui têm seu lugar de destaque.

Viajamos pelas plantas medicinais e pelos artesanatos, reconhecidos pela cura dos males do corpo e beleza dos produtos manufaturados. Vimos os flutuantes e as peculiaridades de cada um deles, oferecendo o passeio, o descanso e o lazer.

No aspecto cultural, um pouco de tudo foi lembrado. O Teatro Amazonas, desde os tempos idos, onde o “Ciclo da Borracha” trouxe à região levas de estrangeiros, principalmente europeus, que nos premiaram com um toque sutil da arte europeia. Outros acervos, tais como Museus Históricos e o Encontro das Águas, não foram esquecidos por sua importância, não somente pelo que representam, mas, em idêntica proporção, pelo valor turístico.

Somaram-se a eles os bares da cidade: o Caldeira, que abrigou celebridades, dentre elas Vinícius de Moraes; Jangadeiro; De Carvalho; O Boteco; e o prestigiado Bar do Armando, reduto dos boêmios e intelectuais do outrora que, até hoje, recebe jovens e saudosistas, desejosos por saborear o famoso “sanduíche de carne de porco” do Armando.

Houve ainda invasões de terras, provocando crescimento desorganizado, em contraste com outros bairros projetados; a criação do “Parque dos Idosos”, com prestação de serviços às comunidades de suas periferias; a Academia Amazonense de Letras, destaque permanente, seus poetas e escritores; artistas de toda sorte enfeitaram os recantos da cidade.

Das festividades da região metropolitana, coube destaque ao Festival de Música de Itacoatiara e à Ciranda, de Manacapuru. Um pouco mais afastado territorialmente, Novo Airão se fez presente pelo turismo ecológico e artesanato, não sendo poucas as pessoas que ouviram falar e visitaram os “Botos Vermelhos”, proporcionando espetáculos maravilhosos aos olhos dos turistas, com suas proezas e malabarismos. Rio Preto da Eva também não foi esquecido com suas iguarias e o famoso Café Regional.
Houve mais. Muito mais, naquela edição especial de 24 a 26 de outubro de 2015: o samba; os Bois Bumbás da Praça 14; o Centro, bairro mais antigo; as Escolas, as Faculdades e as Universidades; o Comércio e a Zona Franca de Manaus; a fé do povo caboclo; em Maués, a festa do Guaraná; a do Tucunaré, em Nhamundá; a religiosidade da festa de Borba; o Festival Folclórico de Parintins, evento que ultrapassou os limites regionais e nacionais para conquistar o mundo pela beleza, expressão cultural e genialidade dos seus artistas.

A publicação daquele 2015 revelou a alma amazônica, num ritual histórico secular de envaidecer o seu povo. Um leitor mais arguto questionará: “Um belo relato, mas permanecerá a dúvida sobre o que será o amanhã. Estarão cobertos de razão alguns entendidos no assunto, afirmando que os jornais escritos estão fadados a desaparecer”?

São 114 anos de vida do “Jornal do Commércio”, o mais antigo de todos, em plena atividade, relatando o cotidiano, contando fatos e “causos” em suas crônicas. Enfim, trazendo informação e cultura ao povo amazonense, na forma mais simples e objetiva de expressão.

Em pouco mais de um século passado, o “Jornal do Commércio” acredita que os tempos modernos trarão adaptações e mudanças, muitas delas já efetivadas, que não serão suficientes o bastante para calar a voz escrita do seu idealizador, jornalistas, poetas e escritores, impressa em suas páginas.

Tal certeza resulta da constatação do seu valor histórico-cultural, forjado em suas letras, palavras, orações e mensagens, que ultrapassarão os limites físicos do tempo e se transformarão em informação pura, nua, crua e de grande valia para as gerações futuras.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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