Com investimento da Fapeam (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas), via Programa Universal Amazonas, estudo denominado ‘Avaliação das diferentes espécies de açaí comercializadas na região do médio Solimões’, realizado pela doutora em química Klenicy Yamaguchi, do campus da Ufam, de Coari, buscou contribuir com a padronização e beneficiamento dos açaís daquela região e melhorar a qualidade do produto comercializado. Ao todo, 16 pesquisadores participaram do estudo representando a Ufam, UEA, Universidade Federal de Juiz de Fora, Ifam (Instituto Federal do Amazonas) e IME (Instituto Militar do Exército. Em entrevista ao Jornal do Commercio, Klenicy falou mais sobre seu objeto de pesquisa.
Jornal do Commercio: Então, existem duas variedades de açaí?
Klenicy Yamaguchi: Os açaís nativos da Amazônia Brasileira pertencem a família Arecaceae e gênero Euterpe, contendo três espécies de interesse agroindustrial: E. edulis, E. oleracea e E. precatória, mas somente as últimas duas possuem destaque comercial. A espécie Euterpe precatoria Mart é conhecida popularmente como açaí do Amazonas, sendo encontrada na bacia do Solimões, em terreno firme ou área de baixo, e é multicaule. A espécie Euterpe oleracea Mart é encontrada, sobretudo, em terrenos de várzea e igapó do rio Amazonas, com a vantagem do perfilhamento.
JC: É verdade que uma variedade só nasce no Amazonas e a outra no Pará?
KY: Não é verdade. Embora exista uma predominância entre as espécies que são cultivadas no Amazonas e no Pará, hoje existem as duas espécies nas duas regiões.
Na colheita, pode-se diferenciar as espécies por meio das características botânicas, porém ao ser preparado para consumo, nem sempre é possível ter a certeza sobre o tipo de açaí que está sendo consumido. Sabe-se que a espécie E. oleracea é comumente encontrada na região paraense, enquanto na amazonense prevalece a espécie E. precatória, porém, nos últimos anos a domesticação das duas vêm num crescente e as polpas acabam sendo vendidas igualmente.
JC: Qual o objetivo de sua pesquisa?
KY: O aumento da demanda de polpa do açaí é crescente, sendo uma alternativa para o desenvolvimento econômico e social da região. No entanto, poucos estudos vertem sobre o controle de qualidade e as características do açaí comercializado no médio Solimões. Este projeto teve o objetivo de analisar as amostras comerciais de açaí em cinco cidades: Alvarães, Tefé, Coari, Codajás e Anori, além das diferentes espécies (Euterpe precatoria e Euterpe oleracea) no Amazonas, avaliando a contaminação por microorganismos e as variações químicas. Há outro projeto em andamento que trata do incentivo e desenvolvimento da cadeia produtiva do açaí por meio do diagnóstico das dificuldades, desenvolvimento sustentável e tecnologias do extrativismo do açaí no médio Solimões.


JC: Os açaizeiros do Amazonas produzem por seis meses, e os do Pará por outros seis meses, ou seja, o fruto é perene o ano inteiro?
KY: Não. O açaí do Amazonas apresenta uma frutificação periódica, no entanto, o açaí do Pará pode ter produção o ano inteiro.
JC: Explique a contaminação do açaí, ocorrida há alguns anos.
KY: Aquelas contaminações se relacionaram com o descumprimento das boas práticas de higiene e manipulação do fruto, durante a colheita, debulha, transporte e/ou processamento do produto. O barbeiro apresenta coloração escura, semelhante às sementes de açaí. Dessa forma, o que pode ter acontecido é que o inseto foi processado junto com o fruto. O esclarecimento sobre essa temática é uma ferramenta para que esse cenário não volte a acontecer. Durante o projeto foram realizados cursos de higienização e manipulação do açaí e elaboramos cartilhas e livros disponibilizados gratuitamente para a comunidade.
JC: Comprovadamente o açaí é importante em que, no nosso organismo?
KY: O açaí demonstra benefícios à saúde associados à atividade antioxidante, antimicrobiana, vasodilatadora e anti inflamatória descritos em diferentes testes, desde a varredura de radicais in vitro até modelos celulares e plasma humano, sugerindo uma possibilidade do uso medicinal. As polpas apresentam metabólitos bioativos como antocianinas, flavonoides e fenólicos em quantidades superiores aos detectados em outras frutas como a uva, amora, mirtilo e morango.
JC: Que informações a senhora passaria para alguém que quer investir plantando açaí?
KY: Na Região Norte a produção de açaí responde por cerca de 99% da produção de frutos de açaí no Brasil (Conab 2020). Em 2019, a quantidade produzida chegou a 1,6 milhões de toneladas. No entanto, o Amazonas, embora seja o segundo maior produtor do Brasil, contribui somente com cerca de 1% da produção nacional, ficando muito atrás do Pará que, sozinho, responde por cerca de 90% de toda a produção brasileira. Com isso, há na plantação de açaí perspectivas de oportunidades de negócios vantajosos.
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