Leandro Abess de Oliveira começou sua vida de vendedor ainda com 16 anos, em 1967, nas lojas de eletrodomésticos S. Monteiro mas, depois de quatro anos de trabalho, resolveu que não queria mais ser empregado. Como sempre gostou de música, teve a ideia de vender discos, os então LPss (long plays), de vinil. “Comprava os discos na Discolândia, tinham três lojas em Manaus, e ia vendê-los nas embarcações, no porto. Levava duas caixas com uns 30 vinis”, recordou. Assim ele faz há 42 anos.
Roberto Carlos, Jerry Adriani, Wanderley Cardoso, Wanderléa, Moacir Franco, eram apenas alguns dos cantores cujos discos, facilmente Leandro vendia, primeiro no Mercadão, depois entre os viajantes que estavam nos barcos. “Ouvia o Kimura (famoso locutor do porto), na ‘Voz Praiana’, avisando os horários que os barcos iam sair, então ia exatamente neles. Passando por baixo das redes, vendia 10, 15, 20 discos num dia, Waldick Soriano, Carlos Alberto, Altemar Dutra, Nelson Gonçalves, Abílio Farias”.
Das embarcações para os bares do centro da cidade, foi um pulo. “Enquanto não dava a hora de os barcos saírem, geralmente no final da tarde, notei que dava para vender os discos nos bares, onde ficavam os boêmios. Foi assim que comecei a visitar o Caldeira, o Armando, o Cipriano, e continuo até hoje, Balalaika e Carmona, estes dois não existem mais”, lembrou.
Como a clientela nos bares foi se mostrando bem melhor que a dos barcos, Leandro passou a frequentar somente esses ambientes. “Nos bares eu fazia amigos, sentava, descansava, bebia junto com os amigos, almoçava e vendia tanto quanto nos barcos. Em todos era a mesma coisa, Carvalho, Jangadeiro, Galo Carijó, Calçada do Rogério”, listou. Por falar em Calçada do Rogério, que já não existe mais, foi lá que Leandro conheceu, pessoalmente, Waldick Soriano. O cantor viera fazer um show em Manaus e foi ao bar comer jaraqui frito. Ao ser apresentado a Leandro, de imediato perguntou se ele tinha um disco seu. E Leandro tinha. Waldick comprou, autografou e deu para o Rogério, dono do bar, não sem antes agradecer e elogiar o trabalho de Leandro.
Celular, nem pensar
Leandro segue a mesma rotina desde 1972. De domingo a domingo, sai de casa por volta das 8h e só retorna à noite, mais ou menos às 22h. Antes, morando na Cachoeirinha, fazia esse percurso invariavelmente, ida e volta, sempre à pé. Hoje, no Crespo, às vezes vai ou vem de ônibus. “É que no trajeto tem uns bares e eu gosto de visita-los”, completou. Também nesses 44 anos, o casal de filhos de Leandro nasceu, cresceu e hoje o rapaz está na Aeronáutica e a moça na Polícia Militar. “Me orgulho de tê-los criado somente vendendo discos”, disse ele que nunca teve e nem quer ter celular.
Leandro lembra quando fez a transição do vinil para o CD, após 1996. “No começo fiquei temeroso, mas depois todo mundo passou a querer só CDs e eu parei de vender vinil, até porque eles são bem mais pesados para carregar, mas já ouvi falar que eles estão voltando”.
Quando as lojas Discolândia fecharam, Leandro passou a adquirir os discos na Disco de Ouro. Quando estas também acabaram, ele passou para a Disco Laser, onde compra até hoje. “Consigo bons descontos porque compro em quantidade e também pego coisa que está entocada no estoque. O pessoal que frequenta os bares não tem tempo de ir a lojas de disco, então eu sou a montanha que vai até Maomé”, brincou. Entre os cantores da terra o campeão de vendas é Chico da Silva. “Se tiver disco dele, sempre vende”, seguido pelo Raízes Caboclas e banda Carrapicho.
Até hoje Leandro mantém sua média de vendas, 10, 15, 20 CDs por dia, mas sempre busca novos clientes. “Os mais novos são a Peixaria do Metal, Tio Ita e Snoopy Bar. Aos domingos vou lá pro Eldorado”. E muda constantemente o itinerário. Um dia começa por um bar, outro dia por outro, visando clientes em horários distintos, e quando o provável comprador tem dúvidas sobre determinada música, Leandro, com sua voz desentoada, a canta. “É só pra eles lembrarem, não para se encantarem com a minha voz”, riu.
Com 63 anos, sem pressa nenhuma de viver a vida, tomando uma cervejinha aqui e ali, Leandro nem pensa em parar. “Enquanto tiver forças, vou continuar vendendo meus discos, e ainda tenho muito chão pela frente”, sentenciou.
Por dentro:
Vinil “em alta”
Vinte e cinco anos atrás, em meio ao avanço tecnológico que viu nascer o CD e depois o MP3, ninguém jamais vislumbraria um retorno ao vinil. Mas eis que em pleno 2014, com a explosão dos sites de streaming – Spotify, Deezer e congêneres –, o vinil não está mais restrito a grupos de audiófilos ou nostálgicos avessos à tecnologia. Ele está fazendo parte efetivamente do cotidiano de pessoas que consomem música atual, que amadureceram com o meio digital e que têm acesso a todas as facilidades que o universo 2.0 oferece.
Prova do interesse crescente da produção atual vem do guitarrista Jack White. Seu segundo álbum solo, “Lazaretto”, tornou-se o disco de vinil mais vendido desde 1994 (época em que foi lançado “Vitalogy”, do Pearl Jam). Lançado em 10 de junho, deste ano, o álbum vendeu nos EUA, em sua semana de estreia, 40 mil cópias – já totalizou 60 mil vendidos.
Desde 2010, 135 mil discos foram produzidos pela Polysom; 63% foi o aumento registrado na produção em 2013; 300 unidades é a tiragem mínima de um vinil; R$ 10 mil é o custo médio de uma tiragem de 500 discos.







