Lei Seca derruba consumo em 30%

Em: 12 de novembro de 2008
Para se adequar à realidade, alguns estabelecimentos reduziram em até 50% o quadro de funcionários, cortaram gastos ou investiram em melhores serviços para não fecharem as portas
Para se adequar à realidade, alguns estabelecimentos reduziram em até 50% o quadro de funcionários, cortaram gastos ou investiram em melhores serviços para não fecharem as portas

Ao contrário dos anos anteriores em que o fim do ano representava crescimento no movimento dos bares, restaurantes e casas noturnas, em 2008, empresários do setor apostam em resultados negativos, já que a redução no consumo chegou a 30% no perío­do de julho a outubro em comparação ao mesmo intervalo de 2007, impacto da Lei Seca e da lei municipal que obriga os bares e restaurantes a fecharem as suas portas às 23h. Para se adequar à realidade, alguns estabelecimentos reduziram em até 50% o quadro de funcionários, cortaram gastos ou investiram em melhores serviços para não fecharem as portas.
É o caso do bar Toc e Toc, situado na Avenida do Turismo, que passou a adotar uma série de medidas para continuar funcionando. Segundo o gerente da empresa, Delson Ramos, desde a edição da lei 11.705, conhecida como Lei Seca, em 20 de junho, o local teve o quadro de funcionários reduzido em 50%, ou seja, em novembro do ano passado, a casa contava com 42 funcionários, sendo 23 garçons, e hoje trabalha com a metade. Para não se retirar do mercado, a empresa passou a oferecer um serviço diferenciado, adquiriu dois veículos e contratou motoristas para buscar e levar o cliente até sua residência.
Para compensar os prejuízos sofridos, que chegaram à margem de 48% em agosto e hoje giram em torno de 40% na comparação mês a mês, a empresa passou a oferecer almoço a partir de quinta-feira e começou a abrir as portas também aos domingos, segundas e terças-feiras. “Tivemos que nos readaptar à nova realidade, procurando sempre investir em qualidade para segurar o nosso cliente”, afirmou. O gerente disse que, ao contrário do ano passado, em que a casa encerrou o ano com um balanço positivo, a empresa deve fechar este ano no vermelho. “Estamos trabalhando para continuarmos com as nossas portas abertas”, acrescentou.
De acordo com o gerente, o estabelecimento trouxe dez profissionais de outro Estado para melhorar o atendimento depois da redução do quadro de funcionários. “Com uma equipe mais preparada e qualificada, temos mais condições de não perder a qualidade no atendimento”, salientou. Em tempo de vacas magras, a empresa também teve que mexer na atração musical e ao invés de bandas passou a contratar duplas ou cantores solos para reduzir custos.
O gerente da Cervejaria Fellice disse que a proibição no consumo de álcool atrapalhou um pouco o estabelecimento, mas, em virtude da posição onde a casa está situada, dentro do complexo de um shopping center, a situação está mais tranquila. “Sentimos uma resposta mais positiva do nosso público, que está focado na área industrial de Manaus”, salientou Paulo Hosterno.

Casa noturna fecha trimestre com demissões

Os reflexos da Lei Seca também estão sendo sofridos pelos empresários das casas noturnas de Manaus. Segundo o proprietário do Porão do Alemão, William Lauschner, as medidas trouxeram uma queda em torno de 30% no consumo, o que resultou em demissões. Por causa da crise, quatro funcionários fixos da casa e outros terceirizados perderam os empregos nos últimos três meses. No ano passado, a casa cresceu 15% em relação a 2006, mas, o proprietário disse acreditar que em um mês não vai conseguir recuperar as perdas sofridas até agora.
“Estamos indo na contramão do anos anteriores. Geralmente, em outubro, o segmento inicia as contratações, mas, como baixou o consumo, não acredito que o segmento de bar vá contratar funcionários temporários, apesar da leve melhora que sentimos nos últimos dias”, afirmou.

Crise faz Abrasel rever projeção de crescimento

A crise enfrentada pelo segmento fez a Abrasel/AM (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes do Amazonas) rever a projeção de crescimento do setor este ano, que girava em torno dos 13% ante 2007, devendo ficar abaixo dos 10% com a retração dos investimentos. Segundo o diretor da entidade, Jerson Alves Queiroz, a redução no crescimento do setor é resultado da legislação imposta pelo governo, que reduz cada vez mais o consumo de bebidas, da obrigatoriedade de fechar os bares às 23h e dos reflexos da crise financeira internacional.
“As leis estão sendo criadas sem ouvir a representação do segmento, com isso, o empresariado vem sentindo cada vez mais os prejuízos de tantas mudanças feitas sucessivamente”, acrescentou. Por exemplo, há um tempo atrás podia se fumar dentro do estabelecimento, muitos empresários se prepararam, investiram em espaços apropriados e hoje, também já não é permitido. Quem é que vai arcar com os custos destas mudanças? Com certeza somos nós”, reclamou.
De acordo com dados da Abrasel/AM, o setor alimentício emprega em torno de 108 mil pessoas, que estão distribuídas entre 4.000 empresas, sendo 90% delas em Manaus. Entre­tanto, apenas 200 estão filiadas à organização.
A situação do setor estará em pauta durante o Encontro Regional da Abrasel, em Boa Vista (RR), na praça do Centro Cívico, entre os dias 11 e 13 de novembro. “Vamos nos reunir com os representantes do setor para fazermos um diagnóstico da situação”, acrescentou Queiroz.
O diretor fez questão de ressaltar que a entidade que ser protagonista no processo de mudanças da sociedade. Para Queiroz, não adiantam leis proibitivas; deveria haver um trabalho de conscientização com a sociedade. Dentro desta linha, a Abrasel está desenvolvendo a campanha Porções de Harmonia, cujo objetivo é ressaltar, segundo ele, o papel sociocultural dos bares.
A campanha, iniciada no dia 6 de novembro, segue até o dia 5 de dezembro e defende que bar aberto depois das 23h oferece mais segurança às pessoas que passam pela rua, pois inibe os criminosos, além de conscientizar os proprietários a não venderem bebida alcoólica para menores de 18 anos e a praticar atitudes conscientes, como reciclar o óleo de fritura residual para preservar o meio ambiente.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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