Livro mostra mapa das narrativas nos romances de Milton Hatoum

Em: 4 de dezembro de 2021

Desde que lançou seu primeiro romance, ‘Relato de um certo Oriente’, em 1989, Milton Hatoum vem se consagrando como um dos grandes escritores do Amazonas e do Brasil. Seu mais recente livro, ‘Pontos de fuga’, de 2019, é o segundo volume de uma trilogia que está sendo aguardada pelos seus fãs ávidos por saber o desfecho da história. Milton desperta tantas paixões que, vira e mexe, alguém lança algum trabalho discutindo a sua obra, como fez agora a Profa. Dra. em poética e hermenêutica, Francisca de Lourdes Louro, que acaba de lançar o livro ‘Mapa das narrativas nos romances de Milton Hatoum’, à venda na Livraria Nacional.

“Gosto das obras de Hatoum. Estudei o mestrado, doutorado e pós doc em Hatoum. Chega a ser um vício. E foi juntando partes de leituras ao longo de dez anos que nasceu este livro onde trabalho as questões mais pertinentes, possíveis de perceber nos três romances de Hatoum: ‘Relato de um certo Oriente’, ‘Dois irmãos’, de 2000, e ‘Cinzas do Norte’, de 2005”, esclareceu.

Hatoum nasceu em Manaus, em 1952. Se formou em arquitetura, na USP, mas a consagração veio como escritor principalmente após ganhar o Prêmio Jabuti de ‘Melhor Romance’, com ‘Relato de um certo Oriente’. Haveria um hiato de onze anos para a chegada do segundo romance, ‘Dois irmãos’, mas valeu a pena esperar. ‘Dois irmãos’ fez tanto sucesso que foi adaptado para a televisão, teatro e até HQ. E também ganhou o Prêmio Jabuti de ‘Melhor Romance’.

“Escrevi ‘Mapa das narrativas nos romances de Milton Hatoum’ pensando no leitor iniciante do escritor, ou nos alunos pesquisadores. Digo que esse texto desperta a curiosidade de ler com um possível roteiro do que possa ser observado e encontrado nos romances, e talvez instigar outros pesquisadores”, explicou.

Manaus no mapa da literatura

“Hatoum escolheu a cidade de Manaus como modelo de morada para seus personagens, tal como fez Machado de Assis, com o Rio de Janeiro, no qual ambientou a vivência de Dom Casmurro. O autor tem de ambientar seus personagens em algum lugar, em uma casa, como ‘Dois irmãos’, e Manaus, nas narrativas de Hatoum, foi para o mundo, como ele mesmo diz: “Coloquei Manaus no mapa da literatura”. Isso acontece pelas traduções que os livros tiveram em muitos países”, falou.

‘Dois irmãos’ narra a história dos irmãos gêmeos Yaqub e Omar, e suas relações com a mãe, o pai e a irmã. O lugar da família se estende ao espaço de Manaus, o porto à margem do rio Negro.

Manaus, nesses três romances, segundo Lourdes Louro, apresenta desenvolvimento e decadência familiar que está na representação urbana. No primeiro, a ‘utopia’. O estrangeiro chega e se depara com a natureza grandiosa. Do segundo em diante a ‘distopia’: trabalha questões múltiplas, a Segunda Guerra Mundial, a derrocada da borracha, o filho que não tem descendência reconhecida. Já no terceiro, é o momento do plantio da cultura da juta em Parintins, que foi trazida contrabandeada pelos japoneses. “Nos três romances a questão familiar é o centro da narrativa, aborda a questão identitária sobre a negação da paternidade, aborda a questão da solidão do homem moderno, na figura de Nael, o desenvolvimento da Zona Franca como modelo de sociedade capitalista e a transformação em decadência da cidade com este novo modelo”, disse.

Finalizando a trilogia

Todo escritor cria personagens que, muitas vezes, marcam para sempre. Com Hatoum não foi diferente. Em todos os três romances as personagens são características de modernidade, os masculinos emblemáticos, antissociais e, as mulheres, são ardilosas, porém, determinadas na conquista do espaço financeiro ou amoroso. Hatoum bulina na questão do incesto, do filho sem pai, do filho que descobre o engano de pensar que o pai é, e não era, o picareta radialista, o jovem que tem sonhos de ser artista, o índio que sabe dos segredos dos remédios da floresta, a figura do peixeiro, entre outros.

“O mais importante, nos textos de Hatoum, são os narradores, seres marginalizados socialmente, uma mulher quase louca, no segundo é o filho desnaturado que conta tudo sobre todos depois de 30 anos, e o último, o terceiro, um advogado que não cresceu na profissão por falta de apadrinhamento que o indicasse. Em todos, as denúncias são veladas”, esclareceu.

Concluindo, Lourdes Louro lembrou que Hatoum trabalha na conclusão da trilogia, com “A noite da espera’, de 2017, ‘Pontos de fuga’, e o último, que ainda está em construção.

“Nestes, o cenário é diferente, não têm Manaus na sala de visita do leitor. Mas, podemos esperar Hatoum (que mora em São Paulo) vir lançar seus livros em nossa cidade. Ele gosta de revisitar os lugares da antiga morada”, informou.

A Profa. Dra. aproveitou para lembrar de outros autores amazonense de renome.

“Temos uma miríade de bons escritores. Difícil escolher. Citarei alguns com os quais trabalhei em alguma crítica literária. Rogel Samuel, José Aldemir de Oliveira, Elson Farias, Zemaria Pinto, Arthur Engrácio. Quanto aos novos, Sandra Godinho, que está com muito sucesso nesta nova produção de livros”, concluiu.

Evaldo Ferreira

é repórter do Jornal do Commercio
Pesquisar