Com o livro, “As casas que moram em mim”, o professor José Seráfico encerra a trilogia iniciada em 1992 com “Memórias talvez precoces” e continuada em 2013 com “Mais um pedaço”. O livro será lançado na sexta-feira (27) no Paço da Liberdade, às 19h, mas o escritor adiantou um pouco do seu conteúdo nessa entrevista ao JC.
Jornal do Commercio: Por que esse título “As casas que moram em mim?”
José Seráfico: Porque as casas por onde passamos, ao longo de nossas vidas, são uma janela aberta para o mundo, se o sentimento de vizinhança merece atenção. Por onde passamos, vamos estabelecendo relações sociais da mais diversa natureza, muitas das quais se sedimentam e acabam desdobradas em outras relações. E assim se vai construindo a história, não só de cada indivíduo, mas igualmente de comunidades e sociedades inteiras. A vizinhança parece perder sentido, quanto mais se estabelecem relações via internet; sabemos muito dos que moram a milhas de distância, enquanto ignoramos o vizinho de nosso apartamento.
JC: Trata-se de um livro de crônicas, no qual o sr. conta histórias do passado, de sua infância?
JS: Eu diria que o livro, pelo conteúdo memorialístico, completa uma trilogia, inaugurada em 1992, com ‘Memórias talvez precoces’, que a CEJUP (Belém, PA) editou; o ‘Mais um pedaço’, edição da Editora da Amazônia, 2013, é a segunda parte. Este começa quando eu cheguei a Manaus, a cidade que escolhi para viver. Nela constitui família, nela trabalhei e aumentei os bons sentimentos despertados desde a primeira vez que aqui estive, em 1957. Em 1963, estagiando no então 27º BC, renovei meus votos de amor à cidade. Em 1966 tomei a decisão de vir por quinze dias. Conhecer Maria da Graça, minha mulher há 47 anos, fez ecoar a sentença de Pascal: o coração tem razões que a própria razão desconhece. Em 2016 completo meio século de rendição a esta amável cidade.
JC: O sr. fala das várias casas onde morou. Quantas foram e como uma casa marca a vida de uma pessoa?
JS: Confesso que fica difícil quantificar as casas em que morei, sobretudo porque dentre as que inspiraram o livro há algumas em que nem sequer cheguei a morar. Foram apenas palco de algum acontecimento marcante, seja na minha vida, seja em determinada parte da própria história. Delas apreciei o mundo no seu ir-e-vir, mais que em outras. Há, portanto, desde as casas da minha infância (tenha morado nelas ou não) até casas da minha maturidade. Talvez seja mais próprio chamar da minha velhice. Há casas em Belém, como as há no Rio de Janeiro e em Manaus.
JC: Em alguma dessas casas, aconteceu algum fato que marcou sua vida para sempre?
JS: Se, em uma, me dei conta de que era necessário participar da vida política, noutra soube da morte, por suicídio, de um amigo da família. Se, numa, vi as comemorações da derrota de um líder político paraense, em outra encontrei provas de profunda amizade e solidariedade de amigos. Se uma permitia participar do carnaval da época, em outra reunia jovens como eu, para a pelada que só abandonei aos 55 anos. Enfim, cada palco servindo à representação da vida, de resto o espetáculo de que participamos, desde o primeiro vagido até o último suspiro.
JC: É um livro que pode servir de consulta histórica já que o sr. lembra como eram as relações sociais entre as pessoas, no caso, os vizinhos, as festas populares, as brincadeiras de criança, coisas que não existem mais?
JS: Sua expectativa me agrada muito. Oxalá o livro sirva para isso! Lá, é certo, tento descrever essas manifestações populares e aspectos de uma sociedade sepultada pelos interesses e valores que, em determinadas passagens registradas no livro sequer se supunha um dia triunfassem. Mas não há nostalgia, nem saudade. Apenas o registro, porque sem memória seremos condenados a repetir os erros do passado. Pior: como farsa.
JC: “As casas que moram em mim” vem completar seus dois outros livros “Memórias talvez precoces” e “Mais um pedaço”. Explique como foi escrever essa trilogia e por que resolveu escrevê-los assim?
JS: O primeiro livro teve inspiração ainda quando prisioneiro da 5ª Companhia de Guardas, em Belém do Pará. Com apenas 22 anos de idade, experimentava os rigores de uma ditadura. Longe de isso afetar minha esperança na democracia e fragilizar a disposição de permanecer engajado nas causas sociais, isso aumentou meu interesse pelos assuntos que dizem respeito à cidadania. O segundo, cuja epígrafe faz referência à minha chegada nesta cidade, também se dedica a contar um pouco das minhas experiências, pessoais e profissionais, individuais e coletivas. O fato de hoje estarmos diante de uma trilogia não foi proposital; resulta de um processo baseado no exercício da memória e na seleção de fatos e comentários que talvez descrevam uma época e me situem nela. Ou em várias épocas.
JC: Qual sua relação, hoje, com a casa em que mora?
JS: Porque resultou de uma escolha nossa, minha e da Graça, espero não ser necessário de lá sair. A relação que temos com o imóvel, enquanto bem material, é fundamentada no conforto que ela nos oferece, sem qualquer pretensão de luxo. Sentimentalmente, é impossível estimar seu valor. Nela Marcelo, o primogênito, chegou aos três anos de idade. Gustavo, o mais novo de nossos filhos, nasceu quando já morávamos lá. Agora, são os netos, Lucas, Nicole, Matheus e Ian, os usuários privilegiados do espaço em que moramos. Mais que uma casa, ela é um lar. Mais que uma casa de moradores, ela é o abrigo de uma família, a que não faltam, ao redor, muitos amigos. Com eles compartilhamos os domingos, o que nos faz um enorme bem. Lá não se trata de negócios, como também têm acesso todos os que nos honram com sua amizade.






