Os comerciantes de Manaus mantiveram o otimismo de curto prazo, pelo segundo mês seguido, em março. A cidade seguiu na contramão da média nacional, que registrou nova queda, no mesmo período. Mas, sem datas comemorativas no mês, e já sentindo os efeitos redobrados da inflação e dos juros, por conta da guerra na Ucrânia, os empresários locais reduziram suas apostas na economia brasileira e nos negócios. Embora a situação dos estoques tenha apresentado melhora, há menos disposição de contratar e, principalmente, de investir na empresa.
É o que revelam os dados locais do Icec (Índice de Confiança do Empresário do Comércio), pesquisa da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo) com 6.000 empresas no país –sendo 164 em Manaus. O indicador registrou 122,6 pontos em Manaus, sendo que valores acima de 100 indicam satisfação. Foi uma marca melhor do que as de fevereiro (122,2 pontos) e de 12 meses atrás (119,7 pontos). Já a média brasileira (118 pontos) recuou 1,3%, acumulando 1,12% de quedas no trimestre. Mas, se manteve 13,9% acima do patamar de março de 2020 (103,6 pontos).
Apenas duas das cinco regiões brasileiras registraram elevação mensal no Icec, com destaque para o Norte (+0,9%), que também aparece com a maior pontuação da lista (124,9 pontos). Os comerciantes do Centro-Oeste (+0,3% e 121,7 pontos) também ficaram mais otimistas, enquanto Sudeste (-2,4% e 116,9 pontos), Sul (-1% e 120,3 pontos) e Nordeste (-1% 114,9 pontos) reduziram a confiança. Em contrapartida, todas as variações anuais seguiram no azul, com Sudeste (+19,9%) e Nordeste (+7,7%) nos extremos.
A boa notícia é que, na comparação com fevereiro, o comerciante de Manaus melhorou a confiança nas condições atuais da economia (+4,5%), da empresa (+1,9%) e do setor (+1,6%), assim como em relação à situação dos estoques (+%) e nas perspectivas para o setor (+0,2%). Houve nova piora, contudo, em relação às expectativas na economia (-0,2%) e na empresa (-0,1%), em que pese o relativo otimismo quanto ao setor (+0,2%), assim como no indicador de contratações de funcionários (-0,6%), e no nível de investimento (-3,5%) –que teve o maior recuo da lista.
Contratações e investimentos
A maioria dos varejistas locais (39,7%) considera que a situação atual da economia brasileira “melhorou um pouco” –contra os 40,8% anteriores mas, foram seguidos pelos que dizem que “piorou muito” (28,3%) e que “piorou um pouco” (26,5%). Apenas 5,4% afirmam que “melhorou muito” (5,4%). A confiança é maior entre as empresas com até 50 empregados e que vendem bens duráveis. A avaliação majoritária sobre o setor e a empresa também é de melhora relativa (50,3% e 53,8%, respectivamente), especialmente entre as companhias de maior porte e atuantes em não duráveis e semiduráveis.
Apesar da queda, as pontuações nas expectativas ainda são mais favoráveis do que a percepção do momento atual, seguindo acima dos 150 pontos. Ao menos 54,1% dizem que a economia brasileira vai “melhorar um pouco”, enquanto 33,2% arriscam apostar que vai “melhorar muito”. As avaliações que pesam mais para o setor e para a empresa também são predominantes nas perspectivas de melhoras parciais (53,1% e 52,9%, na ordem) e mais significativas (40,1% e 42,1%).
Mesmo com a piora no indicador de emprego, a parte majoritária dos comerciantes locais ainda apontam que as contratações devem “aumentar pouco” (57,8%), seguida de longe pelos que avaliam que pode “reduzir pouco” (26,7%). A projeção predominante para investimentos ainda é de melhora relativa (45,5%), embora 34,5% digam que o aporte será “um pouco menor”. Sobre os estoques, 68,2% dos empresários consideram que está “adequado”, 19,2% indicam que está acima dessa marca, e outros 10,7%, que está abaixo. No mês anterior, as respectivas marcas foram 72,8%, 17,8% e 7,9%.
Instabilidade e firmeza
O presidente em exercício da Fecomércio AM (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Amazonas), Aderson Frota, considera que a queda do indicador na média nacional é “compreensível”, mediante o “quadro de dificuldades atual”. O dirigente salienta que, embora o setor enfrente mais um momento de instabilidade, e “careça de perspectivas maiores”, a confiança do comerciante de Manaus segue “firme” e “estabilizada”, quando se analisa a variação anual.
“Os números são compatíveis com esse momento que a gente vive e atravessa. Vimos uma escalada de aumentos sucessivos, que desestabilizaram o abastecimento e a própria economia. A guerra na Ucrânia também está criando uma série de dificuldades e deflagrando aumentos exagerados de algumas mercadorias. Mas, o comércio vê isso tudo com a mesma preocupação em eventos parecidos, que já superamos antes. O que nos resta é passar por essas dificuldades e entrar em nosso melhor momento, que é o segundo semestre”, ponderou.
Sazonalidade e guerra
Em texto da assessoria de imprensa da CNC, o economista responsável pela pesquisa, Antonio Everton, avalia que, apesar de constituir a segunda retração consecutiva e com mais força que no mês anterior, a queda da intenção do comércio brasileiro de contratar funcionários pode indicar ajustes nas empresas. “A variação pode sinalizar uma adequação nos custos operacionais a uma perspectiva de menor faturamento”, alertou.
O economista observa ainda que o clima de menor confiança é agravado pela sazonalidade, já que os começos de ano são tradicionalmente marcados pela chegada de “impostos aumentados” –como IPTU e IPVA –, novos valores para condomínio e mensalidade escolar, que pesam nos orçamentos. Outro fator apontado é a alta dos juros reais (+5%) acima da inflação, o que encarece ainda mais o crédito. “São fatos que também afetam a percepção dos empresários para uma conjuntura relativamente mais difícil”, resumiu.
No mesmo texto, o presidente da entidade, José Roberto Tadros, ressalta que os impactos econômicos da guerra na Ucrânia também pesaram no resultado, dados que contribuem para gerar um cenário de incertezas. “O conflito deve influenciar, juntamente com comportamento dos valores internos, o crescimento da inflação. Os preços, em geral, devem permanecer em alta, principalmente em virtude da escalada dos combustíveis e das commodities”, encerrou.







