“Manaus não tem o que comemorar”, diz especialista

Em: 21 de março de 2010
Igarapés poluídos são reflexos da falta de uma política visando a reeducação da população e de um sistema de esgotamento sanitário
Igarapés poluídos são reflexos da falta de uma política visando a reeducação da população e de um sistema de esgotamento sanitário

O supervisor de hidrologia do CPRM no Amazonas (Serviço Geológico do Brasil), Hertz Rebelo de Sousa, ressaltou que o Estado, e principalmente Manaus, não tem muito o quê comemorar no “Dia Mundial da Água”, visto que a maioria dos recursos hídricos da cidade encontra-se poluídos e deteriorados, devido a má utilização desses recursos. Ele cita como exemplo os igarapés, que servem de depósito de lixo e dejetos domésticos produzidos pelas famílias que residem nas proximidades e pela falta de um sistema de esgotamento sanitário.
Para Hertz de Souza, ainda é possível resolver ou minimizar o problema. Para isso, seria necessário fazer uma ampla campanha de reeducação de hábitos das pessoas, com informações sobre como destinar tais resíduos, o que não se deve jogar nos ralos de pias, e a separação de lixo para coleta seletiva, para que não sejam jogados nos igarapés. “Outro ponto que deveria receber atenção do poder público, seria a criação de um sistema de coleta seletiva de lixo e instalação do sistema de esgotamento sanitário apropriado”, disse.
O diretor de relações institucionais da Águas do Amazonas, Arlindo Sales, explica que a revitalização da estação de tratamento de esgoto da Cidade Nova, uma das áreas mais deficientes no serviço, é um dos projetos que a empresa tem na área de esgotamento para 2010, atendendo a primeira e a segunda etapa do bairro. “As obras serão responsáveis pela reversão do material coletado na bacia da Cidade Nova 1 e 2 para o sistema Timbiras, que é uma Estação de Tratamento de Esgoto de grande capacidade e já em funcionamento”, destacou. De acordo com o diretor, a primeira fase da Estação Timbiras foi concluída em 2008, passando a atender cerca de 18 mil habitantes da zona Norte da cidade. Com a entrada em funcionamento da segunda etapa do programa de revitalização, previstas para o primeiro semestre de 2010, o atendimento de rede de esgoto deve passar atender 68 mil habitantes.
Para 2010, a Águas do Amazonas, está com o planejamento de investimentos na ordem de R$ 30 milhões, que serão divididos no combate ao desperdício de água, fraudes e furtos e revitalização de estações de tratamento de esgoto. Entre os anos de 2007 e 2009, com as obras do plano de expansão, a Águas do Amazonas investiu R$ 200 milhões. O uso indevido da água, por sinal, é um assunto preocupante para Sales. Segundo o diretor, 25% dos clientes, representando aproximadamente 70 mil famílias, fraudam e furtam água através da prática do by-pass em hidrômetros, os famosos “gatos”.
Outro problema enfrentado, de acordo com Sales, diz respeito às áreas de invasões na cidade de Manaus. “Hoje, temos mapeadas 30 mil habitações nestas áreas. Isso acaba gerando uma situação complicada, porque resolução desta problemática não depende apenas de nós. Depende de toda uma tratativa que precisaria vir por parte de várias secretarias municipais e estaduais, pois a legalização das invasões depende de uma relação fundiária que precisaria se estabelecer” ressaltou. Ele observa que as invasões se localizam normalmente em áreas de proteção ambiental ou terrenos particulares, o que configuram áreas em litígio, portanto, por conta de determinações legais não é permitida a implantação de quaisquer tipos de obras infraestruturais.

Invasões e fraudes no sistema de distribuição geraram uma segunda Manaus

“Não podemos implantar rede de abastecimento de água ou esgoto porque elas não são áreas legalizadas. Normalmente, gasta-se entre cinco e sete anos para regularizar uma invasão. Nesse meio tempo, essas pessoas procuram obter água de alguma forma e como, por questões legais, não podem ser um consumidor legalmente inscrito no sistema, acabam cometendo os furtos. Utilizando-se das ligações clandestinas”, enfatizou.
O diretor da Águas do Amazonas disse que as invasões somadas as fraudes no sistema de distribuição de água, geram uma espécie de segunda cidade de Manaus, uma vez que nessas invasões moram cerca de 100 mil famílias, que consomem em média quatro vezes mais do que uma família regularizada. Isso implica diretamente na questão do abastecimento de água. Para Arlindo Sales, é por causa desses problemas que ainda falta água em alguns pontos da cidade. “Nós hoje produzimos uma média de 9 metros cúbicos de água por segundo, o suficiente para abastecer uma cidade de 3 milhões de habitantes. Manaus tem aproximadamente 1,8 milhão, e essa demanda acaba sendo afetada por causa da clandestinidade.
Sales disse, ainda, que algumas áreas mais distantes do perímetro urbano de Manaus, como a Colônia Antônio Aleixo, acabam possuindo sistemas próprios de abastecimento de água ou são abastecidas por terceiros, através de poços artesianos. Em termos de abastecimento de água, o centro da cidade é o local de maior demanda, com mais de 100 mil clientes. Segundo o diretor, o grande desafio é estabelecer o mesmo padrão de qualidade para as áreas da região Norte e Leste de Manaus.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
Pesquisar