O fanatismo religioso que atingiu Portugal durante o reinado de D. João V (1706-1750) chegou ao limite de queimar “infiéis” em cerimônias públicas, cabendo ao seu sucessor, D. José I a responsabilidade de mudar aquele cenário de atraso social. O novo rei convocou o Marquês de Pombal que, como homem forte da Coroa, estabeleceu mudanças profundas na estrutura social e implantou, na área econômica, um sistema mercantilista alicerçado em matérias-primas a serem fornecidas pelas Colônias de além-mar, entre elas o Brasil.
Na Amazônia, que não tinha ouro nem pedras preciosas, o executor das ordens de Pombal foi seu irmão materno, Francisco Xavier de Mendonça Furtado que implementou aqui uma agricultura de excedentes e implantou o autoritário “Diretório dos Índios” (1759) que, em 95 parágrafos, redefiniu a questão da liberdade, da economia, da administração das povoações, da civilização dos silvícolas, etc.
A “civilização dos índios”
Para garantir a “civilização dos índios” o “Diretório Pombalino” impedia que os silvícolas, de qualquer etnia, usassem o dialeto materno, inclusive o nheengatu, e obrigava o uso da língua e de sobrenomes portugueses. As ordens diziam ainda que os índios deviam construir suas casas dentro de padrões dos brancos, usar vestimentas decorosas e decentes, proibindo a nudez, principalmente das mulheres. E para completar esse genocídio cultural os nativos foram obrigados a freqüentar escolas separadas para meninos e meninas.
No parágrafo 95 o Diretório de Pombal fixava seus objetivos que eram, principalmente, a dilatação da fé, a extinção do gentilismo, a propagação do evangelho, a civilidade dos índios, o aumento da agricultura e o estabelecimento da opulência e total felicidade do Estado.
Agricultura e cultura
Paralelamente, para fornecer especiarias e drogas do sertão para o mercantilismo português e recompensar as despesas do Reino com a colonização (sic) da distante Amazônia, Xavier de Mendonça implantou uma agricultura de plantas exóticas ajustada ao modelo europeu de trabalho assalariado e produção privatizada. O modelo fracassou porque contrariava a cultura indígena que praticava o cultivo de plantas nativas em um sistema compartilhado de trabalho e produção.
A luta continua
Proibidos de falar suas línguas, e submetidos a normas contrárias ao seu secular modo de vida, os índios voltavam para seus territórios onde os colonizadores não se atreviam a ir buscá-los. As revoltas indígenas foram muitas como conta o prof. Francisco Jorge dos Santos em seu livro “Alem das conquistas: guerra e rebeliões indígenas na Amazônia pombalina”, desmitificando a versão de que Ajuricaba foi nosso único herói.
Estou convicto que Pombal, por ser um homem inteligente e culto, sabia perfeitamente que ao proibir a verbalização nativa usada na transmissão intergeracional dos saberes, liquidaria o modo de vida pagão dos índios, consciente de que o desaparecimento de uma língua faz morrer uma cultura.
Com o passar do tempo o “modus vivendi” dos índios sobrepujou o “way of life” dos colonizadores e hoje a cultura luzíndia, segundo o prof. Samuel Benchimol, é muito mais índia que lusa.
Este artigo festeja essa vitória e coloca, como troféu, a Lei Municipal nº 145/2002, de São Gabriel da Cachoeira (AM) que dispõe sobre a co-oficialização das línguas Nheengatu, Tukano e Baniwa à língua portuguesa, naquele município.
Como escreveu o prof. Joaquim Shiraishi Neto (UEA), a co-oficialização de três línguas é um dado fundamental para o fortalecimento da identidade cultural das comunidades indígenas representando, também o reconhecimento das diferenças e desmistificando a idéia de “homogeneidade cultural”.
Essa lei não teve cobertura adequada da imprensa porque a atual Idade da Mídia repete os fundamentos do Diretório Pombalino “obrigando” nossa gente, deliberadamente mantida sem escolaridade adequada, a adotar culturas estranhas e usar uma língua alienígena fabricada e ensinada nas novelas,






