Jornal do Commercio – Qual o teor dessa sua visita à Câmara Municipal de Manaus?
Artur Virgílio Neto – Eu vim visitar o vereador Fabrício Lima e o líder do meu partido, que é o vereador Mário Frota, e aproveitei para rever amigos e companheiros. Acabei recebendo uma homenagem, que me deixou muito tocado, até de adversários políticos, como foi o caso do vereador Ademar Bandeira (PT) que foi extremamente gentil, extremamente educado e elegante no se referir a mim. Ou seja, eu me senti muito em casa e essa foi uma forma de demonstrar que eu prestigio o parlamento municipal como prestigio os parlamentos, que são a base da democracia, junto com o Judiciário. Se os parlamentos não funcionarem com força, se o Judiciário não funcionar com decência e força prevalece o Executivo. E prevalecendo o Executivo a gente fica a um passo da tirania. É importante que a interdependência dos poderes seja muito bem demarcada e, portanto, eu não perco a ocasião de demonstrar minha crença na vitalidade do poder legislativo, e ele tem que se revitalizar: se aproximar do povo, estar cada vez mais perto do que as pessoas nas ruas sentem. Infelizmente, eu percebo que elas estão cada vez mais distantes da forma de política que se faz no Brasil hoje. A gente tem que mudar isso. Cabe a quem é agente político mudar isso porque está realmente preocupante. É uma coisa preocupante. Não é possível, em longo prazo, que tenhamos uma democracia distante de políticos e de política.
JC – Como estão as conversas com relação a uma possível candidatura do PSDB à Prefeitura de Manaus ?
Artur – O fato é que nós estamos avaliando. Vamos ver o que o futuro tem a nos dizer no curtíssimo prazo. Em uma questão de dias nós vamos definir isso com muita precisão, com muita unidade no partido, com perspectivas, se Deus quiser, de alianças que sejam proveitosas e valiosas. O PSDB tem conversado, tem feito aquilo que é o exercício da democracia que é conversar, ouvir, falar, opinar, ouvir opiniões, receber opiniões e… por enquanto é o que eu posso dizer.
JC – As convenções já têm uma data ?
Artur – Dia 30, como a maioria dos partidos.
JC – Existe a possibilidade de o senhor vir em uma chapa com o deputado Henrique Oliveira como vice ?
Artur – É uma coisa para se ver. Nós estamos vendo todos os prós e contras, de todas as possibilidades. Por enquanto nós estamos fundamentando nossa decisão no partido. Eu prefiro, no momento, não aventar qualquer possibilidade porque nós estamos simplesmente examinando com muito critério. Dia 30 é que é a convenção. Só dia 30. Então ainda tem tempo de sobra para nós vermos o que é melhor.
JC – Como o senhor encara a polêmica com relação à retirada dos vendedores ambulantes do centro da cidade, que aconteceu na sua passagem pela prefeitura?
Artur – Eu não encaro como cicatriz nem como nada porque cicatriz seria se eu tivesse praticado enriquecimento ilícito, evasão de divisas, obras superfaturadas, corrupção passiva ou ativa, formação de quadrilha e nada disso eu pratiquei ao longo de 34 anos de vida pública. Eu sou uma pessoa que entro nos meus cargos e saio deles com a cabeça erguida. E não têm sido poucos os cargos. Fui prefeito de Manaus, ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência da República – eu coordenava os demais ministros. Um pedido meu mandaria a Petrobras pagar fulano ou não pagar beltrano e eu não fazia esse tipo de coisa. Procurei cumprir o meu dever, que era o de honrar a confiança do presidente da República, que na época era o presidente Fernando Henrique (Cardoso)… Então eu fico espantado e até digo que, sinceramente, se é um defeito tão grave eu ter feito algo que a cidade precisava, a cidade demandava, que era a retirada dos camelôs, numa época em que a arrecadação caía, que a arrecadação ia pro chão, que não dava mais pra se pensar em pagar a longo prazo os professores, funcionários da saúde, não dava pra continuar fazendo a drenagem na cidade… Era o governo Collor, com 26% de inflação ao mês e 5% de queda no Produto Interno Bruto em um ano só. Uma coisa tétrica, uma coisa terrível! Então eu tomei uma atitude que era enfrentar os empresários desonestos, que exploravam os camelôs na rua, sem lhes dar cobertura previdenciária, sem lhes dar cobertura trabalhista nenhuma e que levava à falência os empresários sérios que tinha duas alternativas: ou eles colocavam camelôs nas ruas também e eles sobreviveriam sonegando; ou eles iam à falência, como muitos foram. Eu enfrentei essa situação. Eu sempre digo que governar é escolher muitas vezes entre o desagradável – que foi o que eu fiz – e o desastroso. O desastroso é empurrar com a barriga, é não ter coragem. O desastroso é não tomar as atitudes no devido momento, o desastroso é não falar a verdade. Então eu sempre brinco que se depois de 34 anos o defeito que veem em mim é ter retirado camelôs, eu aconselho que conversem com minha mulher, que já vive comigo há 20 anos, e com meus filhos que eles vão dizer que eu tenho outros defeitos, com certeza, não são só esses, eu teria outros. Enfim, sinceramente eu creio que até os próprios ambulantes de hoje entendem e nós temos um projeto para eles, uma coisa muito interessante. Quando o cólera vinha descendo o rio Solimões, a Organização Mundial da Saúde, a OMS, disse que 10 mil manauaras morreriam. O que nós fizemos? Começamos a preparar agentes comunitários de saúde, preparamos os socorros básicos para quem caísse doente de cólera, nós fizemos convênios inclusive transferindo – o que era um absurdo porque a prefeitura era pequena, era pobre – recursos para o governo do Estado, governado pelo governador (Gilberto) Mestrinho na época, para juntar com recursos dele, do governo dele para enfrentarmos o vibrião colérico. Eu acho que o governo Collor foi aquele desastre que nós conhecemos, mas o ministro da saúde dele se portou muito bem conosco, veio 12 vezes, se não me engano, a Manaus. Nós fomos ao Solimões 12 vezes para acompanhar a descida do vibrião colérico para procurar impedir que o vibrião matasse gente do interior, solidariedade com o interior, por isso eu me meti a procurar retardar ao máximo a chegada do vibrião colérico a Manaus. Era meu dever de prefeito proteger a população q eu governava. A manchete foi terrível: 10 mil vão morrer… Não morreu ninguém. E não teve nenhuma manchete dizendo: Não morreu ninguém. A manchete nunca é em cima do fato bom, sempre é em cima do fato ruim. Se tivessem morrido 10 mil o que faria um prefeito do tipo desastroso? Eu fui desagradável. Tirei feiras, mexi com feiras. Feirantes prosperaram depois, são grandes amigos meus. Na época eu tinha que mexer, eu não podia deixar que aquelas feiras funcionassem em condições de falta de higiene. Foi preciso mexer nelas. Eu entrei naqueles hotéis todos da Joaquim Nabuco e adjacências. A maioria foi fechada por falta de condições de higiene e funcionamento. Lá encontramos pedofilia, encontramos foragidos da Justiça, encontramos drogas, percevejos, barata, rato… Encontramos o que não prestava naqueles hotéis. Eu tirei aqueles hotéis todos, fechei. Foi uma atitude impopular? Não, porque mexeu com alguns empregos, mexeu com os donos dos hotéis, com as famílias deles, mexeu com os clientes mas se eu não faço aquilo o cólera vinha e ia consumar a profecia da OMS. Então nós temos orgulho de falar que na nossa gestão nós desmentimos a Organização Mundial da Saúde. Nós enfrentamos e não morreu ninguém. Então eu me recuso a reduzir, digamos, a análise do povo do Amazonas a este episódio, porque se todo mundo tivesse como defeito “ter tirado camelôs” não estaria havendo a CPI do Cachoeira e da Delta, não teria havido o mensalão, não teria havido tanto escândalo, não teria havido a demissão de tantos ministros por corrupção. Bastava cada um deles ter tirado os camelôs das suas cidades e não ter metido a mão no dinheiro público, bastava isso. Eu quero falar para as pessoas, de coração muito aberto, que se Manaus precisa de pulso, eu tenho pulso. Se Manaus precisa de mão firme, eu tenho mão firme. Se Manaus precisa de amor, eu tenho amor pela cidade. Quem poupa a vida de 10 mil pessoas é porque tem amor pela cidade. Eu estou pronto para qualquer embate, se for o caso mesmo de ter que lançar uma candidatura.
JC – E quais são os projetos do PSDB para Manaus ?
Artur – Nós temos projetos para cada coisa.
Para os camelôs pretendemos doar prédios subutilizados no centro para se colocar lá até 3 mil boxes, de nove a 12 metros quadrados, e transformá-los em centros comerciais, lá colocar restaurantes, cabeleireiros, lá colocar artesanato, lanchonetes e lá, obviamente, eles vão comercializar os produtos que têm a ver com a atividade ambulante. E isso transformará os camelôs, que receberão aulas de gerência patrocinadas pela prefeitura e serão formandos microempreendedores ou empreendedores autônomos. A vida deles muda porque passam a aspirar ao crescimento. Aspirar à aposentadoria. Aspirar ao auxílio previdenciário. Então nós temos educação. Educação pra mim não é construir um prédio e colocar “Escola Dra. Fulana de Tal”, que morreu não sei quando, a família vai homenageia… Para mim, escola é muito mais do que isso. Para mim escola é a qualidade do ensino. Escola é professor reciclado. Para mim escola é professor bem pago. Para mim escola é aula com prêmios para os professores que mais se destacarem. E prêmios para os alunos, com maratonas de matemática. Procurar dar qualidade de ensino. Na saúde a mesma coisa. A ideia do PSDB é fazer um combate às drogas. Nós vamos ter uma Guarda Municipal armada, como a Lei permite. Uma Guarda Municipal adestrada, bem integrada à defesa da sociedade para fazer a nossa parte na resolução da violência e lhe digo que essa Guarda Municipal, além de estar armada e preparada para o que der e vier, ela vai trabalhar junto com o Estado, junto com o que vier de ajuda do governo federal, que é quem tem que liderar essa campanha. Quem tem que fazer a repressão forte é o governo do Estado. Quem tem que fazer as políticas sociais são os três entes juntos: governo federal, estadual e municipal. Fazer políticas públias para ganhar o coração das pessoas, dos jovens para evitar isso. O crack consome hoje grande parte das verbas de saúde. Então eu não posso falar em saúde sem falar no combate às drogas.







