O valor nutricional dos frutos amazônicos já é conhecido mundialmente, mas se trabalhar estes sob o viés econômico esbarra em dificuldades que vão da sazonalidade a falta de escoamento das matérias primas. Dentre as espécies de frutos com potencial econômico, tecnológico, nutricional e funcional, destacam-se a pupunha (Bactris gasipaes), açaí (Euterpe oleracea), camu-camu (Myrciaria dubia) e o cubiu (Solanum sessiliflorum). O que ainda impede o ‘estouro’ destas no mercado nacional e internacional, é a falta de uma cultura que valorize o produtor.
Para a Faea (Federação de Agricultura e Pecuária do Amazonas) incentivar a assistência técnica e a extensão rural deve fazer parte da agenda do governo do Estado, conta o presidente da entidade, Muni Lourenço. “Em conjunto com a OCB-AM (Organização das Cooperativas do Brasil- Amazonas) em agosto passado, foi entregue aos então candidatos ao governo, nossa carta de intenções. Com o governador eleito, temos expectativas positivas do anúncio de investimentos em assistência técnica e extensão rural, sem esquecer do incremento nas obras de reforma, ampliação e manutenção das vicinais para o escoamento mais fluido da produção”, afirma.
De acordo com Lourenço, a segurança tecnológica de institutos de pesquisas pode ser o que falta para que os extrativistas busquem por conta própria a melhoria de seus negócios. “Os resultados positivos de pesquisas como as feitas pelo Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) geram mais demanda pelos produtos, mas estes resultados precisam chegar aos extrativistas, dando segurança. Assim, se pode mudar a cultura extrativista e torná-la um plantio racional, deixando o mercado menos restrito, incluindo estes frutos nas compras estatais, impulsionando a economia”, conclui.
Fortalecer o mercado
Segundo a sócia-gerente da Cupuama, pequena empresa de agronegócios com especialidade em polpas de frutas do município do Careiro (AM), Fátima Sales, o extrativismo precisa ser fortalecido para um maior aproveitamento das potencialidades econômicas dos produtos amazônicos. “É preciso que se deixe este formato extrativista. O plantio sistemático evitaria perda de negócios, para o agricultor e para os beneficiadores, que teriam vendas garantidas em qualquer época do ano. O Estado do Pará tem produção recorde de cupuaçu, por conta de assistência técnica e isso deve ser incentivado aqui”, ressalta.
Mesmo com estudos que comprovem a eficácia medicinal dos frutos amazônicos, a saúde econômica se encontra enfraquecida, diz Fátima Sales. “Sem assistência técnica, o produtor interiorano não produz o suficiente e a empresa beneficiadora não tem como suprir altas demandas. As dificuldades estão no escoamento da produção por parte dos produtores, antes disso estes têm que combater pragas, estocar e abrir canais de vendas. Há 17 anos lutamos ao lado destes, comprando, beneficiando e comercializando os frutos amazônicos. É difícil, mas conseguimos”, resume Fátima.
A capacitação do extrativista tem um aspecto social que seria mais valorizado com a capacitação. O trabalho com cooperativas, associações e produtores familiares, além de gerar emprego e renda, evita o êxodo rural, diz Fátima. “Os governos precisam incentivar mais a produção e capacitação destes atores. Para que se melhore os resultados, as ações devem abranger toda a cadeia produtiva”, fecha.
Pesquisas
De acordo com a pesquisadora e doutora em Biotecnologia do Inpa, Francisca Souza, alguns frutos amazônicos (açaí, camu-camu, cubiu e pupunha) são fonte de fibra alimentar, flavonóides e têm atividade antioxidante (moléculas capazes de retardar ou impedir o dano oxidativo, processo causado por substâncias chamadas radicais livres, que podem levar à disfunção das células e o aparecimento de problemas, como doenças cardíacas e diabetes). Para Souza, é importante a avaliação da ação antioxidante destes frutos, pois parte da população amazônica não segue a dieta recomendado pela OMS (Organização Mundial de Saúde), rica em frutas (fonte de vitaminas, minerais e fibra) e alimentos funcionais.
A pesquisa intitulada ‘Frutos amazônicos para a produção de alimentos funcionais’, será desenvolvida com aporte financeiro do governo do Amazonas, por meio da Fapeam (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas). Souza foi contemplada no Programa de Apoio à Pesquisa (Universal Amazonas –Edital 030/2013), o qual irá complementar as outras pesquisas que vêm sendo realizadas.
“Alguns produtos já foram desenvolvidos por alunos de mestrado, por exemplo, o camu-camu e o cubiu encapsulado, cereais, néctares, entre outros produtos enriquecidos com os frutos amazônicos”, completa. A doutora espera que dentro de três anos os produtos desenvolvidos possam ser comercializados. “Alguns produtos ainda necessitam de patentes, para que chegue à mesa do consumidor”, explicou.
Artur Mamede
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