Meta, agora, é liofilizar

Em: 30 de abril de 2026
O processo tem quase 100 anos, mas só agora está sendo usado, em Manaus, ampliando o potencial da biodiversidade regional.
Beto, "atualmente somente produzimos liofilizados"
Beto, "atualmente somente produzimos liofilizados"

Liofilização. Você já ouviu falar dessa palavra? Ela circula, em Manaus, há uns 20 anos, mas somente nos meios científicos. Agora está se popularizando.

“A liofilização está em Manaus desde os anos 2000 porém, era restrita aos centros de pesquisa e em escala laboratorial. Nos anos de 2010 houve incrementos de maquinários mais robustos que devido aos altos custos de manutenção e à burocracia das instituições de pesquisa, hoje se encontram sucateados por falta de manutenção adequada”, contou Beto Pinto, diretor de Operações e um dos fundadores da Amazônia  Smart Food.

Diferente dos métodos convencionais, que retiram a água das matérias primas através de evaporação utilizando o calor, a liofilização ocorre em baixas temperaturas (de -85° a -45°C) e sob vácuo extremo. A água é removida por sublimação, ou seja, do estado sólido diretamente para o vapor, preservando assim mais de 98% dos ativos e propriedades organolépticas como cor, cheiro e sabor. Para se realizar esse processo são utilizados dois equipamentos: o ultracongelador e o liofilizador.

Mas por que esse processo está ganhando importância, em Manaus? Graças à liofilização, a castanha, o cupuaçu, o açaí e o tucumã aparecem em versões em pó. O tucumã surge em lascas, o que garante a qualidade e a segurança alimentar destes alimentos.

A liofilização tem ampliado o potencial da biodiversidade regional ao permitir que alimentos típicos da Amazônia sejam desidratados sem perder suas principais características. O resultado são produtos mais fáceis de transportar, armazenar e aplicar em diferentes preparações, além de ampliar sua vida útil.

 

Há quase 100 anos

“A liofilização é conhecida da ciência desde os anos de 1940, sendo utilizada de bactérias a materiais mais complexos, podendo ser aplicada nas mais diversas matérias primas. Dada a sua versatilidade, a liofilização é aplicável a praticamente todas as matérias primas conhecidas”, revelou Beto.

Entre suas principais vantagens listam-se: redução de peso do produto; prazos de validade superiores a dez anos; preservação dos bioativos, bem como da cor, sabor e cheiro; segurança alimentar; fácil reconstituição, pois é só adicionar água; entre tantas outras.

Karol, “Além da Smartfood, temos a Terramazônia e Iapó no âmbito do programa prioritário”
Karol, “Além da Smartfood, temos a Terramazônia e Iapó no âmbito do programa prioritário”

Essas soluções vêm sendo desenvolvidas no âmbito do PPBio, uma agenda de pesquisa e inovação vinculada à Suframa e coordenada pelo Idesam.

“Ao aumentar significativamente o tempo de prateleira sem comprometer as características nutricionais, a liofilização permite diversificar o portfólio de produtos, viabilizando novos formatos como pós, snacks e ingredientes para a indústria alimentícia. Essa tecnologia reduz perdas e facilita o transporte por longas distâncias, o que pode dar maior escalabilidade e competitividade de mercado, além de fortalecer as cadeias de produção”, explicou Karol.

Alguns dos produtos que já estão sendo industrializados liofilizados são o pão de buriti, o biscoito de cupuaçu e o creme de macaxeira com tucumã, e uma das empresas que há três anos está se beneficiando do processo é a Amazônia Smart Food.

 

“Trabalhamos com tucumã, açaí, buriti, cupuaçu, guaraná, mirantã e fáfia”, disse Beto Pinto, diretor de Operações e um dos fundadores da Amazônia  Smart Food.

“Iniciamos a liofilização em 2023 com o tucumã e o açaí, como ingredientes para nossa linha de congelados. O resultado foi tão bom que mudamos o foco e atualmente somente produzimos liofilizados. Expandimos a operação para o buriti, energético em pó, cupuaçu e cumaru, que tem alta demanda comercial”, afirmou.

 

Ganhando mercados

Entre os resultados positivos listados por Beto, constam a empresa ter triplicado o faturamento já no primeiro ano e agora, no segundo ano de operação, já há indicativos de triplicar novamente.

“Fortalecemos a marca com alta aceitação em mercados internacionais, através da participação em feiras como Anuga/Alemanha, Sial/Paris, Lac/Coréia do Sul, C-PLPEX/Macau, Gulfood/Dubai, Sial/Canadá, e Apas/Brasil, com fechamento de negócios. Entramos expressivamente em grandes redes de varejo e passamos a fornecer matérias primas amazônicas para players industriais”, informou.

“Trabalhamos com tucumã, açaí, buriti, cupuaçú, guaraná, miratã e fáfia”
“Trabalhamos com tucumã, açaí, buriti, cupuaçú, guaraná, miratã e fáfia”

 

Atualmente a Amazônia Smart Food atende a duas redes nacionais de varejo com mais de 300 lojas pelo Brasil, seis indústrias de alimentos e quatro distribuidores internacionais, exportando seus produtos para Estados Unidos, França, Bélgica, Alemanha, Suíça, Kuwait, Catar e está abrindo mercado no Canadá.

“O que ainda está faltando para o manauara é o conhecimento sobre as vantagens do método já bem conhecido no exterior”, avisou.

As empresas interessadas em liofilizar seus produtos podem adquirir o equipamento de liofilização ou ‘terceirizar’ sua produção em empresas que tenham o equipamento, como a Iapó (@iapo.cacau), por exemplo. 

Evaldo Ferreira

é repórter do Jornal do Commercio
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