Metade dos brasileiros pagou juros ou multas por atraso em pagamentos nos últimos 12 meses, segundo o estudo Brasil no Limite: o raio-x dos pagamentos em 2026, realizado pela Toku em parceria com o PiniOn. O levantamento indica que a desorganização financeira segue como um desafio para parte relevante da população, mesmo em um cenário de melhora na percepção individual de renda.
De acordo com a pesquisa, 45,9% dos entrevistados afirmam que suas condições financeiras pessoais melhoraram. Apesar disso, apenas 25,6% dizem ter expectativas positivas em relação à economia nacional. O estudo também mostra que seis em cada dez brasileiros têm mais de 50% do orçamento comprometido com despesas fixas.
A pressão sobre o orçamento aparece como o principal fator de estresse mensal. A falta de dinheiro foi citada por 34,2% dos entrevistados, seguida por problemas ligados à rotina de pagamento, como esquecer a data de vencimento, mencionado por 16,6%, e a necessidade de emitir boletos todos os meses, apontada por 10,7%.
Para Raphael Emerick, country manager da Toku no Brasil, o pagamento de multas por atraso revela uma perda financeira ligada não apenas à renda, mas também à fricção no processo de quitação das contas.
“Quando o orçamento está apertado, qualquer falha aumenta a sensação de risco. O fato de metade dos entrevistados já ter pago multas indica que bilhões de reais são perdidos anualmente por fricção e desorganização. Esse desgaste tornou-se parte da rotina das famílias, tornando a cobrança um ponto crítico e complexo na relação entre empresas e clientes”, afirma.
Na avaliação de Talita Castro, CEO do PiniOn, os dados apontam uma vulnerabilidade que envolve fatores financeiros, emocionais e estruturais.
“A gestão financeira exige atenção constante, e em um ambiente de múltiplas pressões, pequenas falhas acabam gerando custos adicionais. Esse levantamento sinaliza uma vulnerabilidade importante na rotina dos brasileiros e reforça a necessidade de mecanismos que tragam mais previsibilidade e simplificação ao consumidor”, analisa.
Pagamentos digitais
O levantamento mostra que o aplicativo do banco e a organização mental são os principais meios usados pelos brasileiros para controlar obrigações financeiras. Métodos como planilhas e outros recursos de acompanhamento aparecem com menor adesão.
Entre as formas de pagamento de contas mensais, o Pix Manual lidera, utilizado por 51,7% dos entrevistados. Já o Pix Automático ainda tem baixa adoção, com uso por 11,8% dos respondentes. A resistência ocorre apesar de 81% afirmarem conhecer o recurso. Entre os entrevistados, 44,8% dizem preferir controlar os gastos manualmente.
Ainda assim, a automação aparece como uma possibilidade para reduzir atrasos e estresse financeiro. Segundo o estudo, 46,4% dos brasileiros associam pagamentos automáticos à prevenção de atrasos, enquanto 21% relacionam o recurso à redução de estresse.
A adesão, no entanto, depende de confiança e transparência. A pesquisa aponta que 81% dos consumidores adotariam o Pix Automático se houvesse clareza total sobre o funcionamento da ferramenta e facilidade de cancelamento.
Apesar da tendência de digitalização, 15% dos entrevistados ainda têm o boleto como principal modalidade de pagamento, enquanto 7,2% utilizam o débito automático tradicional. Para 74,9%, o futuro das transações será híbrido ou automático.
Impacto no consumo
A relação dos consumidores com cobranças recorrentes também influencia decisões de contratação e cancelamento. Segundo a pesquisa, 52% dos brasileiros já deixaram de contratar serviços para evitar esse tipo de pagamento. Outros 48,6% cancelaram assinaturas por dificuldades no processo de quitação.
O levantamento também aponta que 39,6% dos entrevistados já pagaram por uma fatura sem utilizar o produto ou serviço contratado.
No setor de financiamentos, 51% dos brasileiros afirmam já ter atrasado parcelas, mesmo considerando esse tipo de dívida uma prioridade. Em 32% dos casos, o atraso foi provocado por esquecimento ou desorganização, e não necessariamente por falta de dinheiro.
Ao mesmo tempo, 80% dos entrevistados afirmam que automatizariam as parcelas de financiamentos se percebessem a solução como segura.
Para Emerick, os dados indicam que empresas podem reduzir atrasos sem necessariamente endurecer a cobrança, desde que invistam em processos mais previsíveis.
“Se empresas que lidam com milhares de transações diárias não possuírem sistemas previsíveis e escaláveis, continuaremos alimentando um gargalo que pesa no bolso do consumidor, com juros que poderiam ser evitados”, afirma.
A pesquisa foi realizada em fevereiro de 2026, com amostra nacional de 1.531 brasileiros, em 528 municípios e 27 unidades da Federação.







