Movimento negro no alto escalão de Lula repercute bem

Em: 24 de dezembro de 2022

O anúncio de ministros do próximo governo central surpreendeu o meio político nacional. Dos conhecidos para fazer parte da equipe ministerial que assume a partir de janeiro, pelo menos quatro deles são negros –Margareth Menezes (Cultura), Luciana Santos (Ciência e Tecnologia), Anielle Franco (Igualdade Social) e Sílvio Almeida (Direitos Humanos).

É algo que demonstra o quanto o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vê o aspecto multirracial como importante para formar o primeiro escalão de seu governo e dos outros que virão posteriormente, segundo analistas políticos.

Lula promete resgatar o protagonismo das classes menos favorecidas, marcas de seus governos anteriores, apesar dos sobressaltos de tantos escândalos de corrupção que sangraram o erário público. O PT, partido ao qual ainda é filiado, foi estigmatizado. E, agora, com a sua volta ao Planalto, busca combater o antipetismo que ainda impera em grande parte da população brasileira, principalmente na gestão do presidente Jair Bolsonaro (PL), prestes a deixar o governo.

O presidente eleito foi elogiado pela comunidade política internacional por escolher negros para seus Ministérios. Porém, certos setores da sociedade ainda veem a questão como uma estratégia de marketing em um momento conjuntural em que Bolsonaro foi acusado de racista, de discriminar a atuação de mulheres e até de misoginia, fatos extremamente explorados pela imprensa de esquerda.

Ao contrário do atual presidente, Lula privilegia o empoderamento feminino tão reivindicado por representatividades envolvendo mulheres na política nacional. “É a oportunidade que faltava para nós demonstrarmos o quanto somos importantes para também ajudar no desenvolvimento do país, possibilitando mais empregos,  renda e acesso das comunidades mais pobres às principais demandas da população”, avalia a psicóloga e assistente social Valdizia Peleza, professora de uma faculdade da rede privada de Manaus.

Divergindo

No entanto, Marta Laurita, sua colega de profissão, não vê com bons olhos esses argumentos, divergindo de seus idealismos. “Não vejo tudo isso com tanto entusiasmo. Vivemos em um mundo extremamente machista. Na realidade, as mulheres sempre continuarão submissas ao homem, independentemente de qualquer cor partidária. É a herança de uma sociedade paternalista que ainda hoje impera em todos os estratos sociais”, questiona.

Com alto trânsito no meio político nacional e até internacional, a cantora Margareth Menezes não escondeu o entusiasmo ao ser escolhida ministra. “Vou cumprir a minha missão e lutar por uma classe que sempre foi menosprezada pelo atual governo”, disse a artista.

Irmã de Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro morta em 2018, a futura ministra da Igualdade Social integrou o grupo técnico de Mulheres na transição. Ela é fundadora e diretora-executiva do Instituto Marielle Franco, criado depois do assassinato da parlamentar e do motorista Anderson Gomes. É jornalista, escritora, educadora e ativista dos direitos das mulheres e dos negros. “Irei trabalhar contra o retrocesso”, destaca em suas contas nas redes sociais.

Para a ativista Michelle Andrews, que já foi candidata a vereadora e a deputada no Amazonas  em eleições passadas, a inserção de negros no próximo governo de Lula é uma resposta ao clamor da maioria da sociedade. “São pessoas aliadas ao movimento negro e que levam a uma responsabilidade de políticas afirmativas, negadas no atual governo”, analisa.

Consultados pela reportagem, muitos entrevistados admitiram que o Brasil continua ainda hoje muito racista, sentimento remanescente da política escravista do passado, obrigando os negros a servirem da principal força motriz, engordando os lucros de um capitalismo selvagem.

”Continuamos ainda tão racistas como na época da escravidão. Só que essa discriminação se apresenta de múltiplas formas –no negro que é discriminado quando vai ao supermercado, quando busca emprego, andando nas ruas, praticamente visto como malfeitor, mesmo sendo intelectual e ocupando bons postos nas atividades econômicas”, diz Lauro Mendoza, estudante de ciências sociais. “Não adianta disfarçar. No Brasil, ser negro é sinônimo de bandido. E praticamente todos temem encontrar alguém de cor nas ruas”, acrescenta ele.

Marcelo Peres

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