As frutas e plantas da Amazônia podem curar as doenças do planeta. Só os brasileiros parecem não perceber isso. Mas existem alguns poucos que percebem, como a doutora Tamara Menezes, que está desenvolvendo uma pesquisa com o camu-camu para ajudar seus pacientes e, no futuro, pacientes de outros hospitais no mundo.
Um dos principais problemas enfrentado pelos pacientes quando estão acamados já há certo tempo, é o surgimento de úlceras de pressão. As feridas ocorrem em função da falta de oxigenação superficial da pele, principalmente na região sacral, logo abaixo da cintura, provocadas por compressão prolongada nas camas dos hospitais.
“Esse é um problema de saúde pública, que pode acontecer tanto com ricos, quanto com pobres, mas ocorre mais com os pobres porque os ricos podem pagar uma enfermeira para mudar o paciente de posição, de duas em duas horas, passar medicamentos no local, trocar o fraldão, enquanto o pobre muitas vezes não tem ninguém para cuidar dele”, disse. “Também são úlceras que, por mais que as enfermeiras tratem, podem infeccionar”, completou.
Devido à grande quantidade de pacientes nessa situação, nos hospitais João Lúcio, 28 de Agosto e da Unimed, tratados por Tamara, ela começou a pensar numa solução que, se não resolvesse o problema, ao menos amenizasse o sofrimento dos pacientes. Já conhecedora das potencialidades do camu-camu, a doutora escolheu o fruto amazônico para as suas pesquisas.
Em busca de empresas
“O camu-camu possui alta concentração de vitamina C, superando frutos como acerola, laranja e limão. A vitamina C é uma das principais responsáveis por estimular a formação das fibras colágenas, presentes em todos os tecidos do corpo, que ajudam no processo de cicatrização das úlceras após tratadas”, explicou.
“A nossa pele é formada por colágeno, mas o nosso organismo em si tem uma deficiência de uma enzima que não produz a vitamina C, ou seja, nós temos que ingerir vitamina C para poder essa enzima sintetizar e acontecer à produção de colágeno. Precisamos ingerir ao menos 100mg de vitamina C por dia, enquanto um camu-camu possui 180mg de vitamina C, ou seja, um fruto já ultrapassa a necessidade do corpo”, falou.
Em suas pesquisas, Tamara percebeu uma diferenciação na concentração de vitamina C quando o fruto está verde, ‘de vez’ e maduro. “Ainda verde, ele é rico em ácido cítrico, excelente bactericida, que poderia neutralizar as bactérias que ajudam a formar a úlcera. Quando o fruto está de vez, ou maduro, possui mais ácido ascórbico, muito bom cicatrizante”, ensinou.
“Não pretendo apenas pesquisar a vitamina C, mas também analisar outras potencialidades do fruto como a ação antioxidante, além de, futuramente, incluir outros frutos que possam complementar o tratamento como, por exemplo, o jenipapo, rico em ferro. A idéia é misturar esses frutos e criar suplementos nutricionais regionais”, adiantou.
“Meu objetivo é atender aos pacientes de baixa renda. Por que adquirir remédios caros, de laboratórios estrangeiros, depois que temos uma rica fitoterapia na Amazônia? Agora estou à procura de empresas que queiram concretizar o resultado das minhas pesquisas e, utilizando o extrato do fruto, produzir spray, pomada, cápsulas, gel e adesivos”, avisou.
As pesquisas da dra. Tamara Menezes estão sendo desenvolvidos com apoio da Fapeam (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas) por meio do Programa Amazonas Estratégico, cujo objetivo é financiar atividades de pesquisas científicas, tecnológicas e de inovação, em diversas linhas temáticas.
Riqueza amazônica
O camu-camu, caçari, ou araçá-d’água (Myrciaria dubia) é um arbusto pertencente à família Myrtaceae, disperso em quase toda a Amazônia, encontrado no estado silvestre nas margens dos rios e lagos, geralmente de água preta.
Em 1980, o Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) colocou o camu-camu na lista de prioridades de trabalho, entre as espécies frutíferas nativas da região com potencial e desde então, estudos vêem sendo desenvolvidos.
Há mais de dez anos Jaime Paiva Lopes Aguiar e Francisca das Chagas do Amaral Souza pesquisam o camu-camu em pó, considerado o fruto mais rico em vitamina C do mundo. As pesquisas revelaram ação eficiente na redução de gordura e de açúcar no sangue em adultos sadios.
Trabalhos recentes comprovaram o alto teor de vitamina C no camu-camu apresentando concentrações que podem variar entre 800 e 6.000mg em cada 100g de fruto. Para Jaime, o consumo da fruta incorporada a uma dieta equilibrada, rica em fibras e micronutrientes, pode constituir uma alternativa promissora de manutenção da boa saúde, tanto para pessoas saudáveis quanto para as portadoras de doenças cardiovasculares.
Além da vitamina C, o fruto possui alto teor de antocianina, substância antioxidante, que protege contra doenças cardiovasculares e de circulação, podendo, também, prevenir alguns tipos de câncer, bem como ser usado no tratamento da depressão e no fortalecimento do sistema imunológico.







