Muito além do gostei, não gostei

Em: 8 de agosto de 2017
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Quando você vai assistir a um filme, com certeza, após a sessão, sai falando bem ou mal sobre o que viu: do desempenho dos atores, da história, das músicas, do som, da iluminação, e se é um cinéfilo, até do diretor. Se você continuar se aperfeiçoando nessas críticas, poderá se profissionalizar e se tornar um crítico de cinema. É com essa intenção que o Cine Set irá promover, entre os dias 14 e 18, o curso “Análise fílmica: os sucessos de 2017”.

Críticos, seja de cinema ou de qualquer manifestação artística, existem porque existe a arte, explica o crítico de cinema do Cine Set e professor do curso, Ivanildo Pereira. “Eles existem para que se possa debater a produção artística, e esse debate é mais importante e vital do que simplesmente dizer se tal obra é ‘boa’ ou ‘ruim’. Sem críticos, sem debate, a arte não evoluiria, nunca sairia das opiniões rasas, do simples ‘gostei’ ou ‘não gostei’. Dizer isso é fácil, mas dizer com argumentação e de uma forma que estimule outros a se aprofundar mais na arte, isso é o papel do crítico”, disse.

Segundo Pereira, não existe um caminho único para se tornar crítico de cinema. “Alguns fazem faculdade de cinema, outros de jornalismo. Alguns dos mais influentes críticos da história começaram escrevendo ‘sob encomenda’, como o americano Roger Ebert, que trabalhava como jornalista em Chicago e um dia foi substituir o crítico tradicional do veículo e não parou mais. O fato é que qualquer pessoa pode exercitar essa veia crítica, todo mundo faz um juízo de valor ao ler um livro, ouvir uma música, ver um filme. Mas, obviamente, é o tempo, a atividade rotineira e a qualidade da escrita que ajudam o profissional a se estabelecer como crítico”, ensinou.

À primeira vista, parece ser difícil criticar um filme de forma profissional, mas tudo é questão de você ser um atento observador. “O termo crítica vem do grego ‘krinein’, que significa quebrar. É assim que o crítico age: quebrando, fragmentando analiticamente a obra de arte. No caso de um filme, é função do crítico de cinema prestar atenção nos elementos do filme: as imagens, a fotografia, a forma como a história é conduzida, as atuações dos atores, a montagem, o uso da música, a proposta do filme, e como eles são usados, como se encaixam uns em relação aos outros, e se esse processo ao final satisfaz ou não como um todo”, disse.

Fazer as pessoas prestar atenção
E qual a relevância de um crítico de cinema nos dias de hoje, em tempos de internet, quando todos se acham sabedores de tudo? “Em tempos recentes, a atividade de crítica cinematográfica migrou mesmo para a internet, são poucos os veículos impressos que ainda dão destaque a esse tipo de produção jornalística. Claro, na internet qualquer um que publique um textinho ou grave um vídeo pode se intitular crítico”, lamenta.

Por um lado, a tecnologia trouxe a democratização da informação, mas ao mesmo tempo trouxe também uma necessidade para o leitor: a de selecionar o que vai ler, de concordar ou não com aquela opinião, argumenta Pereira. “Como disse antes, é uma atividade na qual o tempo e o trabalho laboral da escrita fazem a diferença: Quanto mais um crítico produz, e quanto mais tempo ele se dedica a isso, mais valorizado será pelos leitores”, afirma.

Mesmo assim, a relevância dos críticos de modo geral diminuiu bastante. “Foi-se o tempo em que eles influenciavam no gosto popular ou nas bilheterias dos filmes, embora ainda vejamos hoje alguns fenômenos esporádicos de filmes que, impulsionados por boas críticas, acabam tendo boa bilheteria. Isso evidencia outra função do crítico: fazer as pessoas prestar atenção em filmes que poderiam passar batidos por não contarem com um grande marketing”, garantiu.

Uma boa ferramenta para os críticos é o YouTube, pela facilidade e velocidade em se atingir milhões de pessoas, mas como confiar nesses críticos? “Existem aqueles vídeos ‘pra galera’, nos quais basicamente a pessoa apenas mostra a sua empolgação com o filme. Mas existem sim vídeos bem produzidos e com conteúdo. De novo, volto àquela noção de selecionar: as pessoas que assistem têm de selecionar a forma de conteúdo que mais lhes interessa. Existe muita coisa superficial, mas também existe gente que discute cinema de forma mais aprofundada. É só procurar”, disse o crítico.

Para Ivanildo, a ideia de que o crítico é o cara mal-amado, que não gosta de nada a não ser o filme iraniano feito no fundo do quintal do diretor, ainda é muito forte, mas é um estereótipo. “Não digo que não existam figuras assim, que só reclamam, mas esse não é um bom profissional na minha visão. O bom crítico é aquele que reconhece o valor presente em qualquer tipo de produção e que bons filmes podem vir de qualquer lugar. Pra ser um bom crítico é necessário ver o cinema sem preconceitos”, ressalta.

Rubens Ewald como exemplo
As aulas do curso “Análise fílmica: os sucessos de 2017” terão apenas 10 vagas, mas o idealizador do projeto vislumbra seu desdobramento. “Críticos podem vir de faculdades de cinema ou de jornalismo, mas quem sabe não surja algum no nosso curso. Acima de tudo um crítico precisa estudar, não apenas a arte, mas técnicas de escrita, de jornalismo, e precisa estar sempre acompanhando os novos filmes, além de ver, rever ou estudar os clássicos. Precisa ver muito filme, de todos os tipos”, ensinou.

Rubens Ewald Filho, um dos mais renomados críticos de cinema do país, já assistiu a mais de 35 mil filmes, desde a sua infância, e anota tudo desde o título, os atores, a sala e o horário onde os assiste. “O primeiro filme em que chorei foi ‘Barco das Ilusões’, com Ava Gardner”, disse Ewald Filho certa vez numa entrevista, e o detalhe está anotado no seu caderninho.

E pra quem quer seguir as orientações de um crítico, atenção no que Ivanildo disse. “Uma crítica bem feita, na minha opinião, tem que ter duas coisas. Primeiro, tem que ser bem escrita: nada de erros de português, frases confusas, dificuldade de compreensão. E segundo, tem que ter embasamento.
O autor tem que expor a sua visão do filme de maneira clara e transmitindo conhecimento para o leitor. Dessa forma, o leitor vai valorizar a crítica mesmo se discordar dela.

Se ele sentir que aprendeu algo novo sobre cinema lendo o texto, valeu a pena, mesmo que o crítico esteja detonando um filme de que ele gosta. Assim, a crítica pode ser também uma forma de arte”, concluiu.

Mais comentados no momento
O Cine Set é um site de cinema produzido em Manaus existente desde setembro de 2014. Produzido por oito integrantes, o Cine Set busca abordar assuntos relevantes ao cinema, especialmente, ao produzido no Amazonas. Para se inscrever no “Análise fílmica: Os sucessos de 2017” os interessados devem mandar email [email protected] com o título no Assunto: Vaga no Curso de Cinema.
O curso pode ser feito por pessoas a partir de 13 anos, tanto para quem é cinéfilo ou para aqueles que querem dar os primeiros passos na crítica cinematográfica, além de admiradores da cultura em geral. Serão temas no curso os filmes ‘Moonlight – Sob a Luz do Luar’, ‘La La Land’, ‘Mulher-Maravilha’, ‘Fragmentado’ e ‘A Criada’, conforme falou Danilo Areosa.

Jortnal do Commercio: Por que vocês escolheram esses cinco filmes para o curso?
Danilo Areosa: Porque são aqueles que estão sendo mais comentados nas redes sociais. Geraram bastante debates, discussões e polêmicas como foram os casos de ‘La La Land’ e ‘Moonlight’, no Oscar. Sem contar que analisar filmes recém-lançados e que estão ainda ‘quentes’ na memória do público a partir da sua cinematografia (simbolismos, cores, montagem, etc) é algo inédito do nosso curso.

JC: Quem seria o público para esse curso?
DA: O curso é todo voltado para quem curte cinema, independente se atua na área ou não. Aconselhamos que pessoas a partir de 13 anos se inscrevam. O curso é voltado para quem é cinéfilo ou aqueles que querem dar os primeiros passos para a crítica cinematográfica.

JC: Qual a importância de se fazer críticas a um filme?
DA: É importante se fazer críticas porque você pode analisar o que existe por detrás das imagens dos filmes, seus símbolos, linguagens e metáforas. A crítica não deixa de ser um instrumento que por mais que seja a avaliação pessoal do crítico, ajuda o público a olhar o filme sob outro viés e desta forma fomentar vários diálogos diante da obra cinematográfica.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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