Muito mais do que tábuas de corte, agora objetos de decoração

Em: 30 de abril de 2023

Elas têm vários nomes: tábua de cortes, tábua para servir, tábua de carnes, tábua de frios. Possuem os mais diversos modelos e tamanhos e, muito mais do que um simples utensílio gastronômico, podem servir de peças decorativas se forem produzidas por um artesão, no caso o carioca Cláudio Heitor, que começou a fazer essas tábuas há quatro anos e hoje concilia sua profissão de repórter fotográfico com o hobby que, além do prazer, lhe rende um bom dinheiro extra, pois não faltam compradores para as tábuas.

Cláudio nasceu na pequena Barra de São João, no Rio e, adolescente, começou a se envolver com a arte das imagens.

“Um dia, em 1982, foram filmar cenas do filme ‘Inocência’, de Walter Lima Jr., lá em Barra do São João. Eu tinha 14 anos, me enturmei com o pessoal das filmagens e acabei trabalhando na produção, ajudando eles a encontrar locais para algumas cenas. Cheguei até a atuar como figurante”, recordou.

“Depois trabalhei na Roland Henze Produções Cinematográficas, no Rio de Janeiro, onde comecei como office-boy e me tornei um operador de câmera de cinema. Lá aprendi a fotografar e me profissionalizei repórter fotográfico. Em 1997 vim para Manaus filmar e fotografar o início do transporte do óleo por duto de Urucu até a cidade de Coari. Entre idas e vindas, acabei gostando de Manaus e ficando aqui, em definitivo”, contou.

Cláudio credita esse seu lado artesão, que sempre esteve com ele, ao avô Álvaro e ao tio Walter. 

Peças de arte

“Meu avô era mestre de obras e fazia suas próprias ferramentas. Como se não bastasse, era maestro e compositor. Em 1945 criou uma orquestra, em Barra do São João, a Sociedade Musical Santa Cecília, existente e atuante até hoje. Também herdei dele esse lado musical. Gosto de percussão”, destacou.

“Com meu tio Walter, trabalhei entre a infância e a adolescência, por uns dois anos, na marcenaria dele. Foi ali que comecei a gostar de arte, a criar objetos com madeira, mesmo ele só fazendo portas, janelas e peças assim”, disse.

Em Manaus, principalmente por questões de sobrevivência, o artesão que existia em Cláudio ficou latente dando lugar ao profissional das imagens.

“Aqui, trabalhei em várias agências de publicidade, fotografando e filmando, e até hoje atuo assim. Me considero repórter fotográfico, operador de câmera e diretor de fotografia, para completar, minha esposa Rita Queiroz, é documentarista. Atualmente estamos produzindo um documentário sobre a vida da cantora Celestina Maria, que ficou bem mais conhecida, em Manaus, depois de se apresentar no The Voice+, da TV Globo. Fomos eu e a Rita que organizamos a ida dela ao programa, inscrevendo-a e cuidando de toda a produção”, revelou.

Em 2018, aproveitando o tempo livre, Cláudio resolveu começar a fazer as tábuas. Também como herança do avô, sempre teve ferramentas e sonhava trabalhar com madeiras, não fazendo móveis, como o tio, mas peças artesanais. As tábuas surgiram por acaso, ao observar nas redes sociais que outras pessoas as faziam. Qual não foi sua surpresa ao ver o sucesso que as peças, de imediato, conquistaram. 

“Logo apareceram pessoas interessadas em comprá-las. Foi então que percebi que poderia ir além da simples peça utilitária, realizando um trabalho mais elaborado e produzindo, diria, até mais que artesanato, mas peças de arte. Passei a variar os tamanhos e modelos e fazer um trabalho de excelência no design e no acabamento”, afirmou. 

Madeiras descartadas

Há dois anos Cláudio foi morar na comunidade Castanheira, no Cacau Pirêra, e lá montou sua oficina.

“Produzo diferentes tipos de tábuas. Para churrasco, por exemplo, ela possui uma ranhura para escorrer a gordura da carne. A tábua de servir é lisa, para acondicionar a carne cortada, ou os frios”, ensinou.

E as madeiras de lei utilizadas pelo artesão são aquelas descartadas pela própria natureza, de árvores caídas na floresta.

“Trabalho com piquiá, roxinha, guariúba, maçaranduba, muiracatiara e outras espécies que estiverem disponíveis na natureza”, garantiu.

Depois de prontas, cada tábua é selada com cera de abelha misturada com óleo mineral, para impermeabilizar.

“Ficam muito bonitas, funcionais e diferentes. Tenho clientes que dizem nunca terem usado as tábuas que compraram de mim, com pena de danificá-las”, riu.

“Em algumas eu uso a técnica da marchetaria com as madeiras coladas com Titebond 3 Ultimate, cola não tóxica aprovada nos Estados Unidos para contato indireto com alimentos”, completou.

E como uma ideia puxa outra, agora Cláudio está produzindo aparadores de panelas (para serem colocados sob panelas quentes numa mesa) e servidor de lanches, peça com espaço para o sanduíche e os temperos.

“Estou focando minhas peças para a área gastronômica, que não para de crescer, em Manaus. Quem desejar adquiri-las pode ligar para: 9 9286-8191. Mando deixar em Manaus”, concluiu.    

***

Evaldo Ferreira

é repórter do Jornal do Commercio
Pesquisar