Um terreno que antes era praticamente dominado por homens, vai, aos poucos, ganhando um certo toque feminino. Aos poucos, as mulheres vão conquistando cada vez mais espaço no mercado da TI (Tecnologia da Informação), que aliás, teve seu dia comemorado no último dia 19 de outubro. A edição especial do Jornal do Commercio conta hoje a história de duas mulheres que romperam paradigmas e conquistaram uma carreira sólida neste seguimento.
Pós-graduada em Desenvolvimento de Software, Jakelane Araújo Ribeiro revela que, desde os 16 anos, tem interesse em computadores e programas. Jake também conta um pouco a respeito das dificuldades que precisou superar, mesmo antes de começar a trabalhar na área.
“Apesar de ter me formado no ensino médio com 15 anos, em 1994, comecei a fazer faculdade muito tarde, porque eu morava em Manacapuru e, naquela época, não tinha recursos para me manter em Manaus. Vim para Manaus em meados de 2001, trabalhei em comércio no Centro da cidade, fiz prova da Ufam e passei para Engenharia de Pesca, mas não era a engenharia que eu queria. Então comecei a guardar dinheiro para fazer a faculdade particular e, somente em 2004, iniciei a graduação, me graduando no ano de 2008 em Desenvolvimento de Software”, detalha Jake, antes de prosseguir com mais detalhes sobre seu desenvolvimento profissional.
“Quando eu ainda estava finalizando a graduação, passei para pós-graduação através de processo seletivo, também em Desenvolvimento de Software, pela Fucapi, com uma bolsa de estudos CNPq. A pós-graduação me deu a oportunidade de estudar e aprender 8h por dia de forma remunerada. Cumpri 6 meses de estágio supervisionado dentro da fábrica de software da Fucapi. Foi uma oportunidade única, pois fomos colocados diretamente nos projetos, atuando como profissionais da área por um semestre”, conta.
Após a finalização da pós-graduação, Jake conta que foi contratada pela Fucapi e atuou na área de Gerência de Configuração de Software por mais de três anos. “Saí da Fucapi, passei dois meses em casa descansando das telas dos computadores e voltei a ativa para trabalhar no Sidia (Instituto de Ciência e Tecnologia), onde estou até hoje trabalhando como Gerente de Configuração de Software Sênior”, conta.
Com 10 anos de experiência na área e foco em Integração Contínua -ao qual considera ser um universo para ela -, Jake ama o que faz e diz que, todos os dias, tem a oportunidade de aprender sobre novas tecnologias e métodos, melhorando a qualidade no desenvolvimento das aplicações que ela utiliza no local de trabalho. Uma conquista pessoal e tanto, especialmente para quem precisou passar por tantos perrengues durante a trajetória.
Gravidez
“Aconteceram muitas coisas no meu caminhar. Eu engravidei quando estava no penúltimo período da faculdade e minha família ficou descontente comigo. Em maio de 2008, ano que eu estava me formando, minha irmã caçula faleceu em um acidente de barco. Muitas vezes eu não tinha com quem deixar minha filha, então levava ela para a aula da pós, mas todos os percalços, tanto na vida pessoal quanto estudantil, serviram para me fortalecer e fazer de mim a profissional que sou hoje. Sou muito grata a Deus, a minha família e amigos por tudo”, diz Jake.
Jake sempre teve interesse pelo ramo de TI, interesse que ela afirma não ver com tanta frequência em outras mulheres. Minoria no seguimento, ela conta que chegou a ser alvo de machismo. “Eram pouquíssimas mulheres na minha turma da graduação. Eu tinha uma dificuldade muito grande em Lógica de Programação e sempre achei que um dos meus professores lidava melhor com os homens. Já fui alvo de machismo no ambiente de trabalho, mas a empresa lidou de forma coerente com a situação. É difícil falar sobre o tema machismo no ambiente de trabalho, né? Eu penso que machismo dá uma conotação masculina, mas às vezes, sofremos machismo por parte de mulheres também. Mas o fato é que é muito importante a maneira como a empresa trata essa questão, no seu ambiente e cotidiano”, explana Jakelane.
Satisfação com a carreira
Uma profissional realizada em sua carreira, e que não cansa de aprender nunca, Jake conta que espera ver mais mulheres no mercado de trabalho. “Eu amo demais o que faço e gostaria de ter mais tempo para estudar e aplicar os novos conhecimentos. De 0 a 10, me sinto realizada ‘9’ com minha profissão. Eu tenho várias vantagens, ganho de acordo com o que trabalho, tenho horário flexível e foi possível home office nesta pandemia. Trabalho com pessoas hiper inteligentes, profissionais, sou muito feliz”, orgulha-se.
Jake fez questão, ainda, de deixar um recado para todas as mulheres que sonham fazer carreira no ramo de Tecnologia da Informação: “Sigam em frente sem medo, não desistam por causa dos percalços, dos estresses, ou por causa de uma opinião que não é a sua. Vá com garra e seja feliz”, finaliza.
Sem preconceito
Outra profissional na área da tecnologia da informação, Soraya Silva, de 39 anos, é bacharel em Sistemas de Informação e pós-graduada em Residência de Software em Engenharia de Software. Soraya afirma não ter passado por situações envolvendo machismo, mas sabe que os homens são maioria no setor. Além disso, tenta ajudar a todos através de um grupo.
“Não sofri preconceito, mas na maior parte do mercado, sempre a presença masculina era evidente. Antes, não queriam que mulher carregasse a CPU e, hoje, não se deve ter essa discriminação na área de TI. Na época da faculdade, criei o grupo ‘Amigos de Sistemas’ para divulgação de vagas e, assim, ajudar os colegas de TI a ingressarem no mercado de Manaus em futuras oportunidades. Hoje, o grupo conta com 836 membros, tanto mulheres quanto homens no interesse das vagas”, conta.
Assim como Jakelane, Soraya teve interesse no mundo do TI desde jovem, vendo a evolução da participação das mulheres na área.
“O meu interesse foi devido ao curso profissionalizante do 2º grau, que foi técnico e normal, como formação de Tecnologias Industriais Básicas. No começo, a presença feminina era pouca, mas hoje em dia elas estão presentes em todos os níveis. A área de TI está bem evidenciada, a presença das mulheres é alta no mercado de trabalho atualmente”, comenta.
Presença de 20% no mercado nacional
No Reino Unido, uma pesquisa realizada pelo Instituto Women in Tech apontou que de cada seis profissionais da área de tecnologia da informação naquele país, apenas uma é mulher. Quando o assunto é gestão de Tecnologia da Informação, a proporção é ainda mais reduzida. De acordo com o estudo, somente uma em cada dez mulheres conseguem chegar ao posto de líderes neste segmento.
No Brasil, de acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), no levantamento feito pela Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), somente 20% do total de profissionais de Tecnologia da Informação são mulheres, o que mostra que a presença feminina, no ramo, é muito maior que há alguns anos, mas falta muito para se conseguir a tão falada equidade.
Seja por falta de interesse em ingressar no ramo, ou por questão de machismo, o fato é que esse tema –a presença feminina no mercado de tecnologia -é tema recorrente em órgãos como a ONU (Organização das Nações Unidas) e a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura).
Uma luta que ainda está longe de acabar.
Foto/Destaque: Divulgação Reportagem de Leanderson Lima















