Música que vem das latas

Em: 19 de janeiro de 2026
O projeto Curumim na Lata começou despretensioso, mas hoje realiza apresentações o ano inteiro e tem formado músicos .
Quando conseguiram reproduzir vários tipos de sons, se interessaram mais”
Quando conseguiram reproduzir vários tipos de sons, se interessaram mais”

Quando você ver uma lata jogada no lixo, possivelmente enxergue ali mais um objeto descartado poluindo o meio ambiente. Carlos Ramón Torres Valdez não. Para o músico, aquela lata pode ser transformada num instrumento, e assim ele tem feito há 22 anos.

“Sou músico. Estudei em conservatório de música, na Venezuela. Quando vim para o Brasil, há 25 anos, queria continuar trabalhando com música. Aqui, criei o projeto Tambores Urbanos, na Colônia Antônio Aleixo, até que recebi o convite para atuar como professor de percussão no Centro Municipal de Arte e Educação Aníbal Beça, no São José Operário”, contou.

“Mas precisava formar uma turma, então fui atrás de alunos que se interessassem por percussão. Visitei várias escolas do bairro e das redondezas. Nos dias que se seguiram, os futuros alunos começaram a chegar até inteirar 60, quando formei a primeira turma”, lembrou.     

Eis que surge um problema. Tinha a escola, o professor, os alunos, mas faltavam os instrumentos.

“Como era um projeto piloto, com um grupo experimental, a direção da escola não havia providenciado os instrumentos, e não tinha dinheiro para comprá-los, então, como tenho vários amigos músicos, pedi ajuda a eles que, prontamente, me doaram os instrumentos”, falou.

Além das aulas, Carlos precisava fazer com que os meninos e meninas se interessassem em continuar no projeto. Foi então que teve uma ideia. Idealizou o espetáculo ‘Curumim, o lixo transformado em arte’ no qual pediu aos alunos que recolhessem o material que era jogado no lixo, e que pudesse ser transformado num instrumento de percussão.

“Qualquer material, de plástico, de metal, eles traziam para a sala de aula e fazíamos uma pesquisa sonora. Tínhamos que conseguir colocar o som daqueles objetos dentro de uma música. Quando eles conseguiram reproduzir vários tipos de sons, se interessaram mais”, disse.

Carlos, quando vim para o Brasil, há 25 anos, queria continuar trabalhando com música
Carlos, quando vim para o Brasil, há 25 anos, queria continuar trabalhando com música

Perda de tempo

Junto com essas descobertas, Carlos também repassava teoria musical: altura, intensidade, duração, timbre, ritmo, impacto entre outros ensinamentos.

“Interessante que o projeto passou a envolver até as mães. Elas pegavam latas e outros objetos, que iam jogar no lixo, e diziam para os filhos levarem para a escola para ver se serviam”, informou.   

Logo Carlos observou que o projeto inicial envolvendo as crianças com o lúdico e a música, agora tinha o foco direcionado para a preservação do meio ambiente com reaproveitamento de materiais que iriam ser descartados.

Mas nem tudo foram flores. Tiveram mães que quando foram ver as apresentações dos filhos tocando latas, não gostaram e os tiraram das aulas dizendo que aquilo não os levaria adiante, estavam perdendo tempo.  

“Tivemos um trabalho árduo para mudar essa situação, e como conseguimos mudá-la? Convencemos as mães que os seus filhos estavam praticando uma ação positiva, que não os deixava ir para as ruas fazer coisas que não deviam. Os pais entenderam e passaram a nos apoiar”, revelou.  

Assim surgiu o projeto Curumim na Lata.

 

Curumim Açu

No Curumim na Lata, instrumentos de percussão são usados apenas como referência para a criação dos instrumentos alternativos, numa mistura do convencional com o artesanal, porém, com afinação definida.   

“Não reciclamos o material. O reaproveitamos e mantemos no formato original. Esse é o diferencial do grupo, uma lata ou objetos comuns no dia a dia, transformados em instrumentos. Isso é que causa o impacto”, comemorou.

Desde o começo, e até agora, o projeto aceita crianças a partir dos nove anos, até adolescentes de 16, 17 anos.

“Por ano passam pelo Curumim na Lata de 50 a 60 alunos, ou seja, nesses 22 anos, já circularam por aqui mais de 1.000 alunos. Todo tempo tem aluno que entra e aluno que sai”, afirmou.

E o projeto começa a dar cria.

“Para dar prosseguimento ao Curumim na Lata, criamos o projeto de extensão Curumim Açu, formado por ex-alunos hoje formados em música, alguns até são professores, e se uniram a nós para dar continuidade ao que iniciamos. No futuro, eles tomarão conta do projeto”, avisou.

Por ano os Curumins na Lata fazem diversas apresentações em empresas, faculdades, abertura de eventos, espetáculos infantis ou algo relacionado ao meio ambiente.

“Sempre somos solicitados e apresentamos um repertório formado por músicas regionais. O Curumim na Lata se consolidou como algo simples, que se tornou grandioso”, concluiu.

Informações, Instagram: @curumim_na_lata

 

Um Centro de artes

O Centro Municipal de Arte e Educação Aníbal Beça, integrado à Semed (Secretaria Municipal de Educação) oferece oficinas de percussão alternativa, teatro, dança, coral, artes visuais, teclado, flauta doce, informática, produção audiovisual, entre outros, este ano oferecendo o curso de Steel Band, um instrumento caribenho e percussivo. O objetivo do Centro é promover o acesso à arte como ferramenta de inclusão social, formação de valores e estímulo à criatividade, por meio de uma abordagem pedagógica que integra as linguagens artísticas ao processo de ensino-aprendizagem.

Evaldo Ferreira

é repórter do Jornal do Commercio
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