Há muito se sabe das potencialidades dos frutos amazônicos, principalmente quando o assunto é saúde. Mas pesquisas nunca são demais, como as que estão sendo desenvolvidas pelo Grupo de Alimentos e Nutrição, do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), coordenado pela Dra. Francisca das Chagas do Amaral Souza.
“Visamos aprimorar tecnologias na obtenção e verificar o efeito de bebidas à base de frutos amazônicos, especificamente do camu-camu (Myrciaria dubia), açaí (Euterpe oleracea), bacaba (Oneocarpus bacaba) e patauá (Oneocarpos pataua)”, falou a doutora.
Essas quatro espécies serão trabalhadas porque várias outras pesquisas já mostraram seu grande potencial econômico, nutricional e funcional, além de serem frutos nativos, tipicamente amazônicos e de uma singularidade ímpar.
“Nossos testes iniciais foram realizados com o camu-camu e o açaí, com resultados bastante satisfatórios. Como a bacaba e o patauá possuem características parecidas com as duas anteriores, entraram nas pesquisas”, informou.
O foco do estudo é a prevenção de doenças crônicas não transmissíveis, como doenças cardiovasculares, cânceres e diabetes. Os trabalhos buscam desenvolver bebidas à base dos frutos, avaliando os efeitos biotecnológicos na redução de taxas elevadas de colesterol no sangue e obesidade abdominal. Nesta fase, a pesquisa está sendo feita em roedores.
“As bebidas são duas: o shake e o néctar. No shake a bebida é bem concentrada, com mais polpa do fruto, e é adicionado leite. Ficou parecido com esses shakes encontrados no mercado. Já o néctar é um suco mais fraco, com pouca polpa, ainda assim suas propriedades continuam bastante acentuadas”, declarou.
Consumidos como farinha
“Também produzimos cápsulas. Com 15 a 30 dias avaliamos as cobaias e observamos que a quantidade de vitamina C em seus organismos havia aumentado e o colesterol havia reduzido”, concluiu.
Francisca das Chagas adiantou que as pessoas não devem consumir esses frutos achando que eles vão curar as doenças citadas acima. “Eles auxiliam no controle. Isso é fato”.
Normalmente esses frutos são subaproveitados, com uso direcionado principalmente ao consumo direto. As pesquisas do Grupo de Alimentos e Nutrição também buscam novas tecnologias em relação ao processamento que possibilitem o aumento da vida deles nas prateleiras e sua melhor utilização.
“Nesse caso, qualquer um desses frutos pode ser transformado em farinha e consumido naturalmente, na alimentação. Basta secá-los no forno e depois moê-los no liquidificador. Lógico que açaí, bacaba e patauá precisam ser cozidos antes e sua massa retirada da semente para só então ser levada ao forno”, explicou. “Quanto ao camu- camu o ideal é realizar todo o processo de secagem e moagem, incluindo a semente, agora se a pessoa quiser preparar o néctar ou o shake, aí é preciso tirar a semente, pois ela dá um gosto amargo no resultado final”, ensinou. “E dos frutos ainda pode ser retirado o óleo, bem como sua torta residual deve ser aproveitada, coisa que as pessoas não tem o costume de fazer, jogando-a no lixo”, acrescentou.
Grupo existe há dez anos
Na última década, o Grupo de Alimentos e Nutrição tem se dedicado a estudar as propriedades e funcionalidades de frutos nativos, espécies que têm participação na economia do setor agrícola da região. A proposta agora é agregar valor a alimentos existentes e na elaboração de novos produtos regionais, nutritivos e funcionais.
No ano passado Francisca Souza conquistou, junto com o pesquisador Jaime Aguiar, também do Inpa, o 2º lugar no Prêmio Samuel Benchimol na categoria ‘Projetos de Desenvolvimento Sustentável na Região Amazônica’ com a proposta de utilizar frutos amazônicos como estratégia de inovação, sustentabilidade e melhoria da qualidade de vida.
Um melhor do que o outro

Camu-camu: Na Amazônia peruana, o camu-camu é utilizado no preparo de refresco, sorvete, picolé, geléia, doce, licor, ou para dar sabor a tortas e sobremesas. A importância do camu-camu é devido ao seu elevado teor de vitamina C, superior ao encontrado na maioria das plantas cultivadas.

Açaí: Os dois principais produtos originários do açaí, o palmito e o fruto, são usados na alimentação humana. A polpa de açaí é largamente usada na produção industrial ou artesanal de sorvetes, geléias e licores.

Bacaba: Da polpa do fruto da bacaba faz-se o vinho de bacaba. Este vinho (ou suco) é uma delícia servido gelado, misturado com açúcar, farinha de mandioca ou de tapioca.
Das sementes desta planta também se extrai um óleo com propriedades emolientes.

Patauá: A proteína de patauá é uma das mais valiosas dentre as encontradas no reino vegetal, podendo ser comparada à da carne ou do leite de bovinos. O óleo de patauá é um poderoso agente de hidratação, podendo ser utilizado como substituto do azeite de oliva em produtos para cuidados com a pele.







