Quando a música dos Beatles estourou no mundo e o rock passou a ser o ritmo preferido dos jovens em meados da década de 1960, Manaus não passou incólume por esse movimento musical que tomou conta do planeta. Aqui surgiram Os Embaixadores, Os Aristocratas, The In Crown, The Sunshine, The Rock’s, apenas para citar algumas das bandas formadas por entusiasmados jovens. Uma delas, porém, conseguiu atravessar as décadas sem nunca ter deixado de existir: o Blue Birds, que no próximo dia 17 de junho de 2017, completará 50 anos, com uma agenda repleta de eventos até o final do ano.
O primeiro show dos Blue Birds aconteceu na Saga (Sociedade Atlética Guarda de Aparecida), uma sociedade criada pelos padres redentoristas de Aparecida, para reunir os jovens do bairro, e cuja sede ficava num prédio em frente ao atual Centro de Convivência do Idoso. Pois o primeiro evento comemorativo dos 50 anos da banda será quase no mesmo local, na igreja de N. Sra. Aparecida, com uma missa em Ação de Graças e a apresentação da banda, às 18h.
Na banda desde o início da década de 1970, Roberto Sá Gomes, o Beto, comenta sobre a gênese e a celebração dos 50 anos do grupo. “Os integrantes pioneiros da Blue Birds foram Irandy, Dibo, Ananias, Cacau e Chain, que depois se tornaram, respectivamente, engenheiro, empresário, economista, médico-legista e advogado. Estão todos vivos e voltarão a compor a banda nos eventos do jubileu de ouro”, adiantou Beto, hoje a cara, e o cara, da Blue Birds. Sobre sua entrada na banda, Beto lembra de todos os detalhes. “Só entrei para a Blue Birds no início da década de 1970, depois de aparecer tocando guitarra num programa local da TV Ajuricaba. O Chain viu minha apresentação e me convidou. Entrei para a banda e continuo até hoje”, falou.
A história de Beto, 70 anos, com a música, é antiga. “Com oito anos eu via meu pai tocando um violão e quando ele saía, eu ia lá e ficava dedilhando as cordas do instrumento. Um dia ele me pegou fazendo isso e perguntou se eu queria aprender a tocar o violão. Lógico que eu queria. Então a ter aulas com Domingos Lima, o único professor de violão que existia na cidade. Um ano depois o professor chegou com meu pai, Antonio Gomes dos Santos, e disse: ‘Está aqui o menino, tocando melhor do que eu'”, lembrou.
Fusca 0 km, pago a vista
Com 16 anos Beto começou a tocar profissionalmente na banda Os Tropicais, no famoso prostíbulo Lá Hoje. “Além de ter carteira assinada, ganhava o dobro do salário do meu pai, mas não demorei muito no emprego, pois tocava das 22h às 4h, ajudava meu pai na padaria onde ele trabalhava e ainda estudava no Colégio Estadual. Vivia dormindo durante as aulas. Minha mãe me levou ao médico pra saber o que eu tinha e quando eu disse pra ele que, além do trabalho, ainda me divertia com as meninas do Lá Hoje, o médico aconselhou minha mãe a me tirar do emprego ou eu ficaria tísico”, contou Beto.
Depois o músico ainda tocou no Os Diplomatas e no Blue Star até chegar ao Blue Birds. “Posso dizer que aqueles foram os nossos ‘anos dourados’, meus, dos meus colegas da banda e das outras bandas. Eram festas quase que diariamente, garotas atrás de nós, e muito dinheiro entrando. Quando comprei meu primeiro carro, um Fusca, era o carro do momento. Comprei zerado e paguei a vista. 1515 era a placa dele”, recordou.
Por toda a década de 1970 e boa parte da década de 1980 a Blue Birds viveu seu apogeu. “Shows nunca nos faltaram e todos eram muito bem pagos”, disse. Desde 1980 Beto havia se tornado o proprietário da banda se mostrando, além de bom músico, um excelente empresário.
Celebrada desde o início
Beto mantém o mesmo entusiasmo de Lúcio Cavalcanti, pai de Lúcio Hernani, que há 49 anos publicou no ‘O Jornal’ um artigo comemorando o primeiro ano dos Ble Birds. Escreveu ele (em grafia da época): “Fêz ontem o seu primeiro aniversário o popular, o melhor conjunto de iê-iê-iê do norte e nordeste do Brasil, coqueluche da jovem guarda amazonense: “BLUE BIRDS”.
E os BLUE BIRDS continuam a voar nos céus melodiosos da música popular, com marcante sucesso em nossa metrópole, assim como nos territórios limítrofes, e são, indiscutivelmente, ídolos verdadeiros da juventude esperançosa e animada da Amazônia Ocidental”.
De quando as bandas de Manaus tinham um dono
Em 1977 o empresário Adriano Bernardino, dono de várias salas de cinema em Manaus, resolveu comprar todas as bandas de música existente na cidade, incluindo a Blue Birds. “Desde o começo a banda foi uma empresa e seus músicos, os sócios. Fizemos uma reunião e pedimos um valor bem alto achando que o Adriano não pagaria, mas ele pagou. Vendemos a banda e ele me colocou como empresário do grupo”, disse Beto.
O músico revela afinal qual o interesse de Bernardino na cena musical manauara da época. “Na realidade ele queria apenas aparecer, frequentar os grandes clubes da cidade e ser citado como o dono das bandas que ali se apresentavam. Três anos depois o Adriano só acumulava aborrecimentos com elas, menos com a Blue Birds, mas resolveu se desfazer de todas, então eu a comprei”, contou.
Beto gosta de lembrar que o fundador da Blue Birds, e seu primeiro empresário, foi Lúcio Hernani. “Depois veio o Elcy Barroso, que foi delegado da Polícia Civil, e eu, há 40 anos”, falou. “Por que temos tido uma existência tão longeva? Porque respeitamos quem nos contrata e o nosso público. Em todas essas décadas de existência, nunca atrasamos um show e nem deixamos de cumprir nenhum contrato”, garantiu. Mas hoje os tempos são outros e desde a década de 1990, com o surgimento de várias bandas na cidade e o fim das tradicionais festas em clubes, a Blue Birds vem perdendo espaço. “O nome da banda é o mesmo, mas seus músicos sempre se renovaram nesses 50 anos de existência. 250 músicos já tocaram na Blue Birds. Também estamos num nível de qualidade e cachê, que os empresários não querem mais pagar”, disse.







