O lixo como fonte de renda

Em: 5 de junho de 2014
Produção de peças artesanais geram mudança de profissão e aumento da reciclagem
Produção de peças artesanais geram mudança de profissão e aumento da reciclagem

O lixo é um problema sério em todo o planeta. Em Manaus, não é diferente. Dados da Semulsp (Secretaria Municipal de Limpeza e Saneamento Público) mostram que a quantidade de lixo recolhido na capital amazonense aumentou 38,9% em dez anos. Essa quantidade de lixo produzido somada à falta de educação da população, pioram ainda mais a situação. No ano passado foram recolhidos mensalmente dos igarapés da cidade, 624 toneladas de lixo. Este ano os números permanecem praticamente os mesmos, porém, apresentando tendência de aumento na quantidade. O que fazer, então?
A solução, aparentemente simples, existe, mas passa novamente pela educação da população, trata-se da reciclagem. Quando todos os habitantes de Manaus adotarem esse procedimento com o lixo que produzem, ele deixará de ser um problema. Por enquanto, somente alguns tímidos pioneiros dão um novo, e melhor, destino ao que se é usado e descartado.
José Denizal Melo era motoboy, mas queria mudar de profissão, então fez um curso de eletrônica. Remexendo um aparelho e outro, o espírito criativo do parintinense foi despertado e ele começou a juntar as peças que não serviam mais fazendo surgir uma pequena obra de arte. “A primeira peça que fiz foi uma moto e não parei mais”. Foi assim que HDs, roteadores, mouses, fones de ouvido, impressoras, e qualquer outro objeto eletrônico (entram na lista os CDs) passaram a fornecer a matéria-prima tão útil para a criatividade de Denizal. “Gosto muito de fazer motos, mas aí passei a montar robôs, aviões, helicópteros, carros, salas de estar e o que mais a minha imaginação permitir”, contou.
Há três anos, nas folgas do trabalho, em casa, Denizal produz suas peças, decorativas, com preços que vão de R$ 30, a R$ 200, ou mais, dependendo da peça. E ele vende tudo. “Antes demorava cerca de quatro dias para fazer uma, agora faço em um dia”. Em junho o transformador de lixo eletrônico em obras de arte vai participar de sua primeira feira de artesanato em Coari e já tem outras feiras, fora do Amazonas, agendadas. Também vai ensinar a arte para os adolescentes de uma instituição para menores onde trabalha. “Fui o pioneiro nessa arte aqui no Amazonas e quero que outras pessoas tenham a oportunidade de aprender também”, disse.

A importância dos cursos
Há cinco anos, Cleone Freitas resolveu fazer um curso de flores com EVA. Nesse curso tinha uma senhora que sabia fazer cestaria com jornais e decidiu ensinar esse trabalho para os colegas de curso. Cleone não pensou duas vezes para aprender o novo tipo de artesanato. Usando a mesma técnica, da cestaria com jornais, ela migrou rapidamente para os trabalhos com papelão fazendo objetos que, verificou, vendiam facilmente. Aí surgiram vasos, jarros, abajures, molduras para espelhos, porta revistas e porta-retratos, borboletas e corujas decorativas e aqueles que se tornaram os carros chefes das vendas, os oratórios. “Onde eu vejo papelão descartado, eu pego. É matéria-prima que vem de graça. Em casa, eu corto e monto as peças. Passo cola, tinta acrílica, verniz e o papelão fica duro como madeira. Pode até molhar. As peças podem durar por anos”, contou. As peças de Cleone custam de R$ 10, a R$ 250, (o oratório grande, com luz dentro), vendidas às terças feiras, na feira de Aparecida; aos sábados, na feira da Cachoeirinha; e nas exposições realizadas pela Setrab. “Nos outros dias fico em casa montando as peças, pois tudo vende rapidamente”, falou, satisfeita.
Com Nira Rocha a história foi um pouco diferente. Há sete anos ela ficou desempregada do Distrito Industrial e resolveu fazer um curso com garrafas PET visando ganhar algum dinheiro com o que resultasse do aprendizado. Dominando a arte de recortar, dobrar e transformar as garrafas PET, o portifólio de Nira foi sendo ampliado: bolsas, chapéus, borboletas decorativas, carteiras, acessórios para cabelo, os chamados porta trecos, porta papel higiênico, puxa saco e agulheiro. “Consigo as garrafas PET com os vizinhos, também as que eu consumo e muita gente traz garrafas nas feiras organizadas pela Setrab, onde fico”, contou.
Nira não tem ideia de quantas peças produz por mês, mas calcula cerca de 100 garrafas PET utilizadas mensalmente. “São muitos modelos diferentes. Só as bolsas são quase 15”, contou. As peças custam entre R$ 15, e R$ 70, o que dá a Nira uma renda bem maior do que se estivesse trabalhando na indústria. “Prefiro o artesanato, pois ganho meu dinheiro e ainda ajudo a reduzir o lixo no planeta”, comemorou.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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