Desde 2020, em decorrência da grave crise sanitária decorrente da Covid-19, a época dos festejos juninos, tão típicos em todo o país, teve de se adaptar às medidas restritivas para contenção e prevenção de contágio pela doença. Encontros menores, no entanto, têm sido realizados nos lares, preservando-se a estética da festa a partir de poucos elementos, como a culinária típica, as roupas matutas e a decoração com bandeirinhas coloridas nas casas e quintais.
Falar em comemorações e pensar em festa neste momento de luto coletivo, e no mês em que a Covid-19 atingiu a marca de 500 mil mortes no país, pode parecer sem sentido ou em total dissonância com a realidade. Mas os valores de referência ligados à memória e à identidade do povo em relação às festas juninas permitem afirmar o contrário: que a celebração, além do exercício de um direito cultural coletivo, é uma forma de tornar efetivo o direito ao desenvolvimento.
O que se quer destacar é que mesmo com as duras perdas econômicas provocadas pela pandemia de Covid-19 para diversos setores, remanesce a necessidade de se valorizar e proteger os direitos culturais da comunidade.
Como prática simbólica, festas como o Festival Folclórico de Parintins estão inseridas numa dinâmica social consolidada a partir de valores e sentidos vivos, sempre inacabados e em constante (re)elaboração. São, ainda, o motor para a efetividade de outros direitos sociais, econômicos e culturais.
Desde os anos 2000, com a finalidade de atender às exigências ambientais, a comunidade incorporou as propostas de adaptação das práticas juninas: os fogos estão mais seguros, apesar de as modalidades menos barulhentas ainda precisem ser mais utilizadas, inclusive para respeitar os animais; os balões juninos, embora ainda aconteçam, estão cada vez menos frequentes, até porque são proibidos pela Lei de Crimes Ambientais; o número de fogueiras se reduziu de maneira considerável, o que se deu tanto em razão de campanhas de conscientização quanto da fiscalização dos órgãos responsáveis, que passou a cobrar a origem da lenha.
Essas adaptações dos festejos à proteção do meio ambiente, e agora também às restrições sanitárias, são demonstrações da força do elo afetivo existente entre o povo e sua cultura e um exemplo exitoso do exercício do direito ao desenvolvimento, num espectro de liberdades, pela comunidade nordestina. As boas mudanças vão além da temática ambiental e são um sinal de que as gerações futuras serão herdeiras de um legado com gosto de pão com tucumã.
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