O uso político de um fato trágico

Em: 27 de fevereiro de 2014
A morte, por meio de um disparo de rojão, do cinegrafista Santiago Ilídio Andrade (que no dia 6 filmava manifestação pelo passe livre no Rio de Janeiro), após quatro dias em coma, um trabalhador que estava em mais um dia de desempenho de suas funções
A morte, por meio de um disparo de rojão, do cinegrafista Santiago Ilídio Andrade (que no dia 6 filmava manifestação pelo passe livre no Rio de Janeiro), após quatro dias em coma, um trabalhador que estava em mais um dia de desempenho de suas funções

A morte, por meio de um disparo de rojão, do cinegrafista Santiago Ilídio Andrade (que no dia 6 filmava manifestação pelo passe livre no Rio de Janeiro), após quatro dias em coma, um trabalhador que estava em mais um dia de desempenho de suas funções, deixou o país em estado de intensa e justificada comoção.
Não é possível esquecer de uma família que fica órfã, mulher e três filhos, tampouco negligenciar as inúmeras inseguranças pelas quais passa diariamente a categoria dos jornalistas, em país onde o exercício sério de tal ofício acarreta riscos maiores que os divulgados, como já mostraram algumas pesquisas e institutos. É, no entanto, cínico, hipócrita e inaceitável o aproveitamento da morte do cinegrafista no Rio de Janeiro com objetivos políticos mesquinhos e antipopulares.
Insensíveis diante de dezenas de milhares de mortes diuturnas de trabalhadores e populares – inclusive nos próprios protestos, desde a eclosão das grandes manifestações de 2013 -, pelas quais são direta e indiretamente responsáveis, alguns segmentos servem-se despudorada e demagogicamente da morte singular de um trabalhador no desempenho de suas funções, para acelerar ofensiva há muito em curso contra a população em geral e os trabalhadores em particular.
Há campanha estridente para que se retome e se acelere, a partir da morte do cinegrafista, não somente a criminalização dos movimentos e protestos sociais, mas um inaceitável e anacrônico clima de repressão e medo. O que dizer do açodamento com que alguns parlamentares tentam agora acelerar a aprovação de lei que tipifica o terrorismo, o PL 499/2013, redigido pelo senador Romero Jucá (PMDB-RR), que realiza salto de qualidade na criminalização da resistência social ao capital, ao equiparar a ato terrorista praticamente toda resistência popular organizada? E das insinuações levianas que rondam pelos mais diversos canais da mídia comercial, mencionando que teria ocorrido um homicídio culposo, sob amparo de figuras que são reconhecidamente defensoras de direitos humanos?
Trata-se este de um Estado que agora se aproveita da naturalização de uma violência por ele mesmo gerada pra esvaziar manifestações e protestos sociais. E se possível, sob o amparo jurídico, a partir de lei de caráter fascista e ditatorial.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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