O ‘vale tudo’ contra a crise das grandes livrarias

Em: 30 de novembro de 2018
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Em menos de um mês, duas das maiores livrarias do país entraram em recuperação judicial, com dívidas que, somadas, chegam perto de R$ 1 bilhão. A Cultura recorreu à medida no fim de outubro. No último dia 23/11, foi a vez da líder Saraiva seguir o mesmo caminho. Ainda que editoras e outros varejistas do setor insistam que não se trata de uma crise de demanda por livros – que está em discreta expansão -, os problemas das duas varejistas obrigam o mercado editorial a desarmar uma bomba a poucas semanas do Natal: a missão agora é convencer o cliente acostumado a comprar livros nessas duas empresas a procurar o produto em sites, clubes de assinatura ou outras redes.Não se trata de um volume pequeno: Saraiva e Cultura respondem por cerca de 35% das vendas do setor.

Diante da necessidade, redes regionais, grandes sites de varejo eletrônico – do Brasil e dos EUA – e até as próprias editoras estão virando opções para ajudar os livros a chegar às mãos do consumidor. “Vivemos um paradoxo, pois não se trata de falta de leitores – esse é um problema crônico, mas que não se agravou”, diz Cassiano Elek Machado, diretor editorial da Planeta. “Mas vamos passar por essa travessia do deserto, porque existe demanda pelo livro.”Embora a estratégia da Planeta seja evitar concorrer a sua rede de distribuição, há grandes editoras que pensam diferente.

Um dos grupos mais tradicionais do país, a Record vai estrear um e-commerce próprio antes do Natal. A ideia era estrear a novidade na Black Friday, mas a vice-presidente da companhia, Sônia Machado Jardim, diz que a opção foi resolver falhas técnicas, para evitar problemas agora em dezembro. Além do novo site, a Record – que concentra 15 selos, em diferentes segmentos – também está lançando um clube de assinaturas, com curadoria de escritores.

Nesse sentido, a empresa segue o caminho da Intrínseca, que lançou em outubro o Intrínsecos, em que assinantes têm acesso a edições especiais, em capa dura, de obras que só serão lançadas posteriormente. “É mais uma opção de receita”, disse Jorge Oakim, fundador da Intrínseca, que insiste que a crise é das varejistas, e não dos livros. De janeiro a outubro, a Intrínseca acumulou alta de 23% em vendas, na comparação com o mesmo período de 2017.

Na web
Além dos testes de venda direta pelas editoras, os grandes sites de e-commerce também devem abocanhar parte das vendas da Saraiva e da Cultura, segundo fontes do setor. Para algumas grandes editoras, a americana Amazon já representa cerca de 15% do faturamento – e oferece a vantagem de comprar livros, em vez de pegá-los em consignação.

Neste fim de ano, gigantes brasileiras, como Americanas.com e Submarino, também reforçaram aquisições de títulos. Procurada, a B2W não quis comentar. Embora a Amazon não revele sua participação de mercado, o diretor da área de livros da gigante americana no Brasil, Mário Meirelles, diz que a receita com o segmento foi recorde na Black Friday 2018. “O crescimento está relacionado ao aumento do número de títulos oferecidos e também ao atendimento”, diz. “A Black Friday é a nossa data de maior volume em vendas. Começamos o planejamento no início do ano, para garantir que a disponibilidade de produtos e a experiência de atendimento fossem as mesmas de um dia comum.”

Rivais
Embora a venda direta e a busca pelos canais online sejam opção às redes tradicionais, há empresas que no varejo físico também conseguem obter bons resultados. Uma das companhias vistas pelo mercado editorial como candidata a assumir parte do espaço da Saraiva é a Leitura, hoje vice-líder do setor, com 70 lojas. Em entrevista na semana passada, o presidente da Leitura, Marcus Teles, disse já ter iniciado negociações com shopping centers para assumir até cinco lojas que a Saraiva encerrou.

Acordo
Depois de sofrer com atrasos no pagamento tanto da Cultura quanto da Saraiva – que, apesar da dilatação de prazos dos fornecedores, tiveram de recorrer à recuperação judicial -, as editoras bateram o martelo: agora só aceitam enviar livros para as duas redes se tiverem algum tipo de garantia de recebimento. Foi o que aconteceu no acordo fechado com a Saraiva na última quinta-feira: ao apoiarem a recuperação judicial da líder em vendas no País, as editoras aceitaram adiar o recebimento de débitos antigos, mas exigiram garantias claras daqui para frente. Pelo acordo, todos os livros enviados à Saraiva deverão ser pagos à vista. É assim que funcionará para as encomendas para o Natal, por exemplo.
Segundo apurou a reportagem, um contrato parecido, com garantias claras de recebimento, é esperado também da Cultura.

Apesar de ter fechado quase 20 pontos de venda nas últimas semanas, a Saraiva tem uma presença espalhada pelo país, com 85 unidades em funcionamento, enquanto a Cultura está restrita a algumas capitais, com 15 lojas.

Débitos
Embora a Saraiva tenha chegado à recuperação judicial com uma dívida de R$ 674 milhões, seus débitos são proporcionalmente menores em relação à capacidade de faturamento da empresa. A Cultura, em seu plano de recuperação judicial, informou um endividamento de R$ 285 milhões. O resultado equivale a 42% do valor total da dívida da Saraiva.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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