O vocabulário de Stradelli

Em: 4 de julho de 2014
Livro escrito no século 19 é reeditado, e apresenta dicionário em Nheengatu
Livro escrito no século 19 é reeditado, e apresenta dicionário em Nheengatu

Os amazonenses não sabem, mas temos uma língua falada no vale do rio Negro que um dia foi praticamente a língua da Amazônia, o nheengatu, ou língua geral.
O nheengatu surgiu em tempos que se perderam, derivado do tronco tupi como uma evolução natural da língua geral setentrional. Os colonizadores portugueses até tentaram proibi-lo mas, em não conseguindo, acabaram por achar melhor utilizá-lo como veículo de comunicação para suas catequeses, ações sociais e políticas junto aos indígenas, e mesmo à população, que aprendera a falar a língua, então utilizada mais que o próprio português.
Atualmente, cerca de oito mil pessoas continuam a falar o nheengatu no vale do rio Negro, mas quem quiser se aprofundar no conhecimento dessa riqueza que um dia poderá ser extinta, uma boa oportunidade é ler o “Vocabulário Português-Nheengatu/Nheengatu-Português”, escrito por Ermanno Stradelli no final do século 19, em suas andanças pelo vale do Purus. Note-se a distância do vale do Purus para o vale do Negro. O vocabulário foi reeditado pela Ateliê Editorial, de São Paulo, este ano.
O conde italiano Ermanno Stradelli, então com 27 anos, aventurava-se pela Amazônia desde 1879 até resolver estabelecer-se definitivamente no Amazonas em 1888. Ficou conhecido pela dedicação que teve pelo estudo do nheengatu e de outras línguas indígenas.
Inicialmente trabalhou como fotógrafo (a Sociedade Geográfica Italiana possui 62 dessas fotos expostas em Manaus entre julho e agosto do ano passado), virou comerciante na capital amazonense e passou a conviver com missionários franciscanos italianos, percorrendo com eles o rio Purus e seus afluentes, quando conheceu o nheengatu, pelo qual se apaixonou e estudou pelo resto da vida.
Para elaborar o vocabulário, Stradelli contou com o auxílio de um indígena que, lógico, dominava o nheengatu, mas o próprio conde se tornou fluente na língua, cujas culturas regional e de referência conhecia extensamente.

Proibida por duas vezes
Quando Stradelli morreu, em 1926, aos 74 anos, pobre, num casebre improvisado no leprosário do Umirisal, em Manaus, o vocabulário continuava com ele, inédito, e só foi publicado três anos depois, em formato de revista, pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.
“Longe de sermos um país monolíngue, no que respeita a fala cotidiana generalizada em todo o território nacional, somos um país bilíngue. No portugues que herdamos de Portugal, os brasileiros infiltraram uma segunda língua, popular, o nheengatu, que se falava aqui, duas vezes proibida por Portugal aos brasileiros, em 1727 e em 1757. Não obstante, impregnou com sons e palavras a língua oficial e dominante, até então língua de repartição pública. O nheengatu (língua boa) ainda é falada em várias regiões e é, até mesmo, língua oficial em São Gabriel da Cachoeira, no alto rio Negro”, explicou José de Souza Martins, editor do “Vocabulário…”, da Ateliê.
Ainda de acordo com o editor, “Stradelli não se limitou a arrolar vocábulos e as respectivas traduções, mas agregou-lhes uma gramática e preciosas considerações etnográficas de quem conhecia a língua vivencialmente. Esse cuidado é enriquecido pela incorporação de palavras nheengatu que já expressam a realidade social pós-tribal, resultante, sobretudo, da influência missionária invasiva, como é o caso de tupaocamiri (pequena casa de Deus), para desiginar capela, que não existe nas nossas sociedades indígenas: uma ideia portuguesa pronunciada em inventada palavra brasileira”, revelou.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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