Obras para se tocar

Em: 17 de julho de 2025
Obras de arte não devem ser tocadas, mas os quadros de ‘Antes do ângulo’ foram pintados exatamente para isso.

Um misto de literatura e artes plásticas. Assim se define a exposição do poeta/artista plástico Elpídio José Nunes, que terá a vernissage nesta-sexta-feira, 18, às 16h, no Museu da Cidade de Manaus, no Paço da Liberdade (praça Dom Pedro II), no Centro. Já no título da exposição, ‘Antes do ângulo’, a literatura se faz presente.

“Trata-se do título de uma obra literária minha, que ainda não foi publicada. Este livro aborda, em poesia, o tema olhar, e a exposição tem como finalidade maior incluir o público com limitação da visão, mas que tem a capacidade de, muitas vezes, ver e sentir mais intensamente do que as pessoas que tem a completa visão, mas são ‘cegas’, metaforicamente falando. ‘Antes do ângulo’ nos desafia a termos o olhar do coração”, explicou.

Nascido na cidade de Barreirinha, terra de Thiago de Mello, o lado literário de Elpídio teve forte influência do poeta da Amazônia.

“Sim, tive influência do nosso grande poeta. Desde criança, no final da década de 1970, eu acompanho a sua trajetória, sua chegada ao Brasil após o retorno do exílio, em 1978, e sempre que ia na sua residência chamada ‘Porantin do Bom Socorro’, ficava contemplando as obras de artes que faziam parte do acervo da casa: obras originais de Miró, também do brasileiro Aldemir Martins, e de outros artistas. Tive contato com obras esculpidas em bronze por Bruno Giorgi. Essa experiência, na infância, me marcou muito e também me fez ser um apreciador das artes nos seus variados segmentos. Claro que na poesia foi onde o nobre vate me deixou muitas lições, orientações, ideais e ideias”, contou.

 

Artista multifacetado

Adolescente, Elpídio conheceu Thiago pessoalmente. Adulto, teve alguns encontros com o poeta na sua residência, no rio Andirá. Em Manaus, na década de 1980, Elpídio lançou seu primeiro livro, ‘Sorriso do vento’ e nesse mesmo período iniciou nas artes plásticas.

“O artista plástico também surgiu na década de 1980 quando tive contato com o Castro, um artista plástico de Barreirinha. Com ele aprendi a técnica de alto-relevo em concreto e também aprendi a fazer estátuas com a mesma matéria prima. Já realizei algumas exposições, sendo todas coletivas. Em 2009 fiz uma instalação solo, sobre o meio ambiente, denominada ‘Eco das águas’. Essa exposição, de agora, é a minha primeira experiência solo”, revelou.

“Me considero um artista multifacetado, às vezes poeta, às vezes artista plástico, e também sou os dois ao mesmo tempo, transpirando poesia na cor e na escrita”, definiu.

A exposição ‘Antes do ângulo’ apresenta 20 telas com expressões múltiplas, algumas contemplativas, com temáticas amazônicas e temas folclóricos da Amazônia; outras minimalistas, com temáticas universais, e ainda telas que remetem à mitologia grega. A exposição brinca com as formas, em alto, médio, e baixo relevo, e com as cores. Uma característica é que todos os quadros foram pintados propositalmente para serem tocados por pessoas com deficiência visual.

“Quem é da arte sabe que obras de arte não podem ser tocadas, mas em ‘Antes do ângulo’, não há problema algum com relação a isso, pois a exposição foi pensada e realizada exatamente com esse objetivo. No caso dos danos, caso aconteçam, no término da exposição as obras serão restauradas, para que continuem sendo tocadas manualmente, ou, como diria o poeta, olhadas de outras formas”, avisou.

Obras para se tocar - A exposicao foi pensada e realizada exatamente com esse objetivo ser tocada

Diálogo com excluídos

Quando cursou a faculdade de Letras, Elpídio estudou a disciplina ‘Inclusão social’, que lhe trouxe conhecimentos técnicos referentes às pessoas possuidoras de certas limitações e, segundo ele, os deixaram mais sensibilizado com a questão dos excluídos. 

“Ao amadurecer a ideia desta exposição, eu não queria simplesmente trazer a minha influência de artista moralista em alto relevo, queria que a minha obra pudesse dialogar com pessoas que sofrem de limitação visual. Com a concretização de ‘Antes do ângulo’, cuja finalidade é dialogar com esse público especial, não descarto o público sem deficiência visual, que poderá contemplar as obras de outra forma que não o tato”, falou.

A pintura de Elpídio é eclética. O artista usa técnicas variadas, além dos temas e títulos regionais e universais.  

“Vou do estilo clássico ao minimalismo moderno através de ensaios com novas ferramentas e formas de criar e materializar o belo. ‘Antes do ângulo’ é uma metáfora em obra plástica que nos provoca a refletir sobre os olhares”, concluiu.

A exposição permanecerá de julho, e por todo o mês de agosto, aberta ao público, no Museu da Cidade de Manaus. 

E o poeta continua em ação. Elpídio está com três manuscritos concluídos: ‘Alcovas de nuvens’, com poesias eróticas; ‘Cão, cão, cão!’, com poesias filosóficas; e o conto ‘Auto de poxuretê’, que satiriza as bajulações palacianas contemporâneas. Em breve deverá lançá-los.

Evaldo Ferreira

é repórter do Jornal do Commercio
Pesquisar