O sucesso crescente do Festival Folclórico de Parintins coloca em foco o gargalo estrutural de sua rede hoteleira. Parintins tem pelo menos 17 estabelecimentos, entre hotéis, pousadas e lodges, conforme dados do governo do Amazonas. A superlotação e a falta de quartos, contudo, é uma realidade na semana do evento, período em que a população da Ilha dobra de tamanho. Em contrapartida, a escassez de quartos para atender o fluxo extra de visitantes também fomenta o empreendedorismo e a economia criativa. Muitos moradores aproveitam o evento para alugar suas casas por temporada, transformando crise em oportunidade.
Os empreendedores visam um mercado que, assim como os transportes e os ingressos, fica inflacionado. Números da AmazonasTur (Empresa Estadual de Turismo do Amazonas) informam que os gastos médios com hospedagem em Parintins variavam de R$ 470 (para quem dorme na embarcação) a R$ 7.500 (casa completa), no ano passado. Um quarto em hotel custava R$ 2.920, e as opções em quarto de pousada (R$ 2.540) ou em residências familiares (R$ 2.300) não saiam por muito menos do que isso. Fontes ouvidas pela reportagem apontam que os preços estão ainda mais elevados neste ano. pacotes de cinco dias podem ir de R$ 12 mil a R$ 247 mil.
“Opção vantajosa”
Assistente social e frequentadora do evento “há décadas”, Sandra Colares Mourão conta que é uma das pessoas que resolveram alugar sua casa para turistas que vêm conferir os bumbás. “O valor cobrado depende muito da localização, estrutura e bairro. Minha casa tem dois quartos, sala, cozinha e um banheiro, e fica a cerca de 290 metros do Bumbódromo. A locação do imóvel, neste ano, foi de R$ 8.000, para cinco dias e dez pessoas. É uma opção mais vantajosa para o turista, do que alugar um quarto em hotel ou pousada, porque uma casa completa acomoda mais pessoas, a um preço fixo e com a comodidade e tranquilidade de uma residência”, explicou.
De acordo com a proprietária, a experiência de alugar sua casa para terceiros está sendo positiva. “É muito bom, porque é um dinheiro extra que entra, além de fazer movimentar a economia de do município”, afiançou. “E, nesses anos todos que frequento o Festival Folclórico, a infraestrutura da cidade melhorou muito. Parintins não fica bonita só para esse período, e isso acaba melhorando a vida de todos nós, moradores”, emendou.
Oportunidade e “improvisação”
O presidente da FCDL-AM, Ezra Azury, reitera que, assim como ocorrido na dinâmica dos preços dos ingressos para o evento, e no transporte de Manaus a Parintins, a lei de oferta e procura faz a diferença. “É o que acontece, e não vejo aumento no número de leitos. Deveriam incentivar a construção de um hotel vertical grande em Parintins, que pudesse atender essa demanda. Uma estrutura melhor de hospedagem para dar mais conforto. Outra opção também é deixar navios parados para locação provisória”, recomendou.
O dirigente concorda que esse é um caso de crise que gera oportunidade. “É comum as pessoas deixarem as casas nesse período para alugar. Passam uma semana ou duas em Manaus e, quando voltam, já faturaram entre R$ 5.000 e R$ 10 mil. Os valores das locações na ilha são bem altos. Acho que também poderiam incentivar as pessoas a construírem mais quartos em suas casas para alugar. E estimular também os proprietários de terrenos grandes a construir alguns quartos no fundo, para fazer locação para os turistas”, sugeriu.

O presidente da Associação Comercial do Amazonas, Bruno Loureiro Pinheiro, também avalia que a rede formal de hospedagem ainda é limitada para a demanda. “Por isso, o aluguel de casas virou parte importante da economia local. Funciona muito pela negociação direta entre moradores, turistas e intermediários, com preços variando. O desafio é organizar melhor esse mercado, dar mais segurança ao turista e garantir que o crescimento beneficie o morador. A ACA defende esse desenvolvimento com responsabilidade: mais infraestrutura, ambiente favorável aos negócios, valorização da cultura local e fortalecimento do comércio e dos serviços”, frisou.
O presidente da Fecomercio-AM (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Amazonas), Aderson Frota, considera que a estrutura hoteleira de Parintins “não existe” porque o Festival acontece apenas três dias por ano. “O que existe é uma improvisação de muitas pessoas que cedem parte das suas residências para abrigar turistas. Mas, compatibilizar isso em um modal mais justo é difícil, porque ninguém vai montar um hotel, com toda uma estrutura funcionando, para trabalhar apenas uma semana. Como justificar os outros dias do ano sem nenhuma mobilização, sem nenhuma ocupação, sem nenhuma razão da estrutura hoteleira existir?”, questionou.

“Bom acolhimento”
A Amazonastur reitera, por meio de sua assessoria, que tem como finalidade institucional a promoção e o ordenamento turístico “do destino Amazonas”. E informa que realizou, neste ano, campanhas presenciais voltadas ao setor hoteleiro em Parintins. Incluindo o incentivo à adesão de hotéis e pousadas ao Cadastur – sistema de cadastro do Ministérios do Turismo para pessoas físicas e jurídicas. “Essa ferramenta proporciona benefícios ao prestador de serviço que atua no setor e maior seguridade ao turista. A adesão é importante para manter os estabelecimentos credenciados”, concluiu.
Ainda em relação ao “bom acolhimento do turista”, a Amazonastur destaca que oferece a Estação do Turismo, no período de realização do Festival Folclórico de Parintins. Trata-se de um espaço em que participam 28 parceiros e secretarias, oferecendo serviços e informação à população, incluindo o Procon-AM e a Comissão de Defesa do Consumidor da Assembleia Legislativa do Amazonas. Este ano, o espaço funcionará entre os dias 24 e 28 de junho, das 9h às 17h30, na Praça da Catedral Nossa Senhora do Carmo.








