Prima de poeta, poeta é. Essa máxima não existe, mas…, de repente. Marilza de Melo Foucher, prima do poeta Thiago de Mello, lança seu livro ‘Quase-poemas’, hoje, às 18h, no IGHA (Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas).
“Thiago sempre me visitava em Paris e eu pedia para ele olhar e analisar minhas poesias, então ele as pegava, lia, e ia dizendo, ‘isso é um poema, isso é um quase poema’, por isso o livro se chama ‘Quase-poemas’, numa homenagem a esse meu primo, amigo e camarada, que é como nos tratamos”, contou.
Marilza nasceu em Boca do Acre e veio para Manaus com pouco mais de dois anos. Seu pai, Mario Diogo de Mello, foi deputado estadual e também era poeta. Morreu em agosto de 2017, com 104 anos. Dele ela herdou a verve poética.
“Meu pai e Thiago me influenciaram na poesia. Meu pai gostava de declamar em voz alta, de modo teatral, os grandes poetas brasileiros e portugueses. A poesia fazia parte de seu cotidiano e eu me sentia embalada pela sonoridade das palavras. Na adolescência, por exemplo, nos correspondíamos fazendo uso da literatura de cordel”, falou.
Em 1979 Marilza de Melo casou com o francês Pascal Foucher e foi morar em Paris onde se graduou em administração, pós-graduou em geografia, e fez mestrado e doutorado em geografia e economia, na Sorbonne.
“Os amigos me perguntavam como eu havia conseguido chegar à Sorbonne, e eu respondia que havia pegado uma canoa, seguido pelos rios da Amazônia, atravessado o oceano e chegado lá”, brincou.
“Costumo dizer que sou a única pessoa de Boca do Acre que mora em Paris. Pode até ter algum acreano, mas bocacrense, só eu mesma”, afirmou.
Contato com a intelectualidade francesa
Aposentada, Marilza exerce o jornalismo no jornal eletrônico parisiense Média Part. “Trata-se de um jornal político investigativo, tão respeitado que, mesmo sendo pago para acessá-lo, é o mais lido da capital francesa. Para o francês, a qualidade da informação é fundamental”, explicou. “E os franceses, pela história que a cultura tem em Paris, procuram preservá-la. Pesquisa recente mostrou que eles lêem uma média de 30 livros por ano”, revelou
E Paris sempre respeitou muito Thiago de Mello. “Devo muito a ele, pois Thiago tem muitos amigos pelo mundo todo, e em Paris não é diferente. Ele me colocou em contato com a intelectualidade francesa e sempre me visitava”, lembrou.
Thiago completará 94 anos no próximo dia 30 de março. Mora em Manaus e já não viaja mais pelo mundo, mas seu nome continua em evidência.
‘Quase-poemas’ é o primeiro livro de Marilza, segundo ela, semente e frutos de seu ócio criativo.
“Meu pai dizia que eu deveria escrever um livro de poesias, outro de contos, mais um de fábulas e, encerrando, uma compilação dos meus artigos. Já comecei”, disse.
O livro, editado pela Escaleras, editora alternativa focada nas mulheres, foi lançado em João Pessoa, hoje será em Manaus, depois em Belém e finalmente em Fortaleza.
“João Pessoa e Fortaleza porque sou muito grata ao Nordeste dos meus antepassados. Daquelas terras saíram, e saem, grandes escritores brasileiros, com renome internacional, como José de Castro, Paulo Freire, Jorge Amado, Ariano Suassuna, José Lins do Rêgo, e tantos outros. Belém porque é nossa capital irmã”, esclareceu.
“Sou profundamente amazônica. Nunca esqueço de Boca do Acre. Fiz questão de, até hoje, não perder meu jeito caboclo de falar. Ensinei minhas duas filhas e meu casal de netos a falar português. E eles falam muito bem, e conhecem Boca do Acre. Mas não tem como eu voltar a viver aqui. A França me adotou, e eu já tenho mais tempo morando lá do que aqui”, finalizou.
Bendito ócio poético
Márcio Souza *
Venho acompanhando desde sempre a produção literária de Marilza Foucher, uma amazonense quase acreana que se transplantou por amor para a minha não menor querida Paris. No início era uma estudante na Sorbonne e uma inquebrantável militante da liberdade. Nos encontramos muitas vezes desde a juventude até agora. Não vamos esquecer daqueles anos de intensa participação política que vivíamos no Brasil: uma ditadura sangrenta e reacionária. Nossa geração não perdoava ninguém, e nossos líderes carregavam rebeldia e radicalismo, lembrando que radicalismo não significava sectarismo, mas pegar as coisas pela raiz. Lembro de muitas manifestações que participamos juntos em Paris, e esses fatos não são recordados sem uma ponta de nostalgia da nossa juventude marcada pelo espírito libertário da Paris de 1968, mas também com carinho por não termos deixado morrer os nossos ideais.
O verso de Marilza, a seu modo, muitas vezes correm ao longo da fronteira em que a poesia e a prosa se olham de frente. Seus poemas registram momentos dos abalos sísmicos da política francesa e os tremores de malária da política nacional. Há belos e bucólicos momentos poéticos que rememoram as estações do ano, mas de todos os poemas ressalto um de seus versos, o que vem com um título ousado: ‘A teimosia dos utópicos’. Eu diria que é a celebração dos amigos comuns, renitentes que somos em abandonar nossa militância pela justiça. O poema que aqui destaco tem uma singeleza que só os espíritos puros são capazes de ousar versos num momento histórico de ilusões e exacerbado capitalismo.
* Márcio Souza é escritor, cineasta, ensaísta, dramaturgo.
Serviço
O quê: Lançamento do livro ‘Quase-poemas’, de Marilza de Melo
Onde: IGHA (Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas)
Rua Bernardo Ramos, 117 – centro antigo de Manaus
Quando: Quinta-feira, dia 21, a partir das 18h






