Cruzeiro do Sul, Órion, Dragão… Certamente a maioria da população certamente já ouviu o nome desses conjuntos de estrelas. O que pouca gente sabe é que, desde que os portugueses chegaram no Brasil há registros escritos de que os índios nativos já olhavam os céus e dividiam os astros em suas próprias contelações. No entanto, pesquisadores têm encontrado, em todas as regiões do Brasil, arte rupestre (pinturas e gravuras) com conotação astronômica representando, por exemplo, o Sol, a Lua, cometas, eclipses e constelações indígenas. Isso indica que há milênios os indígenas brasileiros já tinham suas constelações.
Assim como na astronomia dominante, as constelações indígenas, como Anta, Surucucu, Homem Velho, Cervo do Pantanal e Ema, eram utilizadas de diversas formas: desde calcular a passagem das horas durante a noite até prever mudanças climáticas que comprometeriam a caça e a lavoura. “Existem constelações indígenas que são mais importantes que as outras, pois elas indicam fenômenos extremos, de chuva ou seca, de calor ou de frio. Dois exemplos de constelações indígenas importantes são a Surucucu e o Homem Velho”, explica o astronomo do Musa (Museu da Amazônia), Germano Afonso.
Onde estão?
De acordo com o astronomo, a constelação da Surucucu, da família linguística Tukano, do Amazonas, está localizada na região do céu onde se encontram as constelações ocidentais do Escorpião e do Sagitário.
Quando a Surucucu começa a desaparecer no horizonte oeste, ao anoitecer, aproximadamente no dia 25 de outubro, ocorre o período de maior seca no noroeste do Brasil.
Atualmente, não é possível observar a Surucucu ao anoitecer.
Já a constelação do Homem Velho, da família linguística Tupi-Guarani, é formada pelas constelações ocidentais do Touro e de Órion. A cabeça do Homem Velho é formada pelas estrelas do aglomerado estelar Híades, em cuja direção se encontra Aldebaran, a estrela mais brilhante da constelação do Touro, de cor avermelhada. Acima da cabeça do Homem Velho, localiza-se o aglomerado estelar das Plêiades, representando um penacho que ele tem amarrado sobre a sua cabeça. As Três Marias representam o joelho da sua perna sadia.
Quando a constelação indígena do Homem Velho surge totalmente no céu, ao anoitecer, ela anuncia a chegada do solstício do verão, que ocorre no dia 21 de dezembro, aproximadamente, uma estação de muito calor no sul e de muita chuva no norte do Brasil.
Atualmente, a constelação do Homem Velho é bem visível ao anoitecer.
Resgate
O professor Germano coordena um projeto da Fapeam (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas), que pretende resgatar esse saber tradicional, mas que acabou suplantado pela astrologia greco-romana. Intitulado “Etnoastronomia dos Povos Indígenas do Amazonas”, o trabalho é desenvolvido dentro do Musa e nas comunidades indígenas.
Na opinião do pesquisador, as tradições locais precisam ser, além de conhecidas, preservadas: “É importante resgatar e registrar de maneira escrita bilíngue, em português e na língua nativa, essas tradições porque elas estão se perdendo. Além disso, as escolas, tanto indígenas como ocidentais, podem utilizar podem utilizar esses registros, como já tem acontecido. Esses conhecimentos da relação do céu, com o clima, a fauna e a flora são úteis na própria subsistência da comunidade”, conclui.
No mês que vem, as escolas indígenas de Dourados, no Mato Grosso do Sul, ganharão uma cartilha em português e guarani com a astronomia indígena. Agora chegou a vez dos amazonenses também descobrirem um pouco mais sobre o seu próprio céu.






