As plantas nativas da região amazônica, tais como o açaí e o buriti, são consideradas inviáveis financeiramente para a produção de biocombustíveis, segundo os pesquisadores Edson Barcelos e Maria do Rosário Lobato. A afirmação foi feita durante o lançamento do edital Biocom (Programa de Apoio ao Desenvolvimento de Tecnologias para a Produção de Biocombustíveis no Estado do Amazonas), financiado pela Fapeam (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas) em parceria com o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), no valor de R$ 3 milhões.
Na ocasião, os pesquisadores recomendaram a utilização do dendê como solução para produção de “combustíveis limpos”. De acordo com a engenheira agrônoma, doutora em Solos e Nutrição de Plantas e chefe-geral da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) Amazônia Ocidental, Maria do Rosário, a entidade pesquisa o dendê há mais de 20 anos e, considerando que é o único vegetal com potencial para fabricação de óleo que possui histórico de estudos, “não seria recomendável produzir biocombustível com outra planta, mesmo com uma nativa da Amazônia, porque isso demandaria muitos recursos financeiros e longos anos no laboratório antes de um resultado concreto”.
A pesquisadora disse ainda que a Embrapa projetou, em conjunto com o IME (Instituto Militar de Engenharia), um protótipo de uma usina para produção de biodiesel de dendê. “Com este protótipo, já é possível fabricar biodiesel a partir do dendê por transesterificação (reação química em que o álcool do éster reagente é substituído por outro álcool). Estamos procurando uma indústria interessada em montar a usina em grande escala e iniciar a produção”, informou Maria do Rosário.
Na opinião de Edson Barcelos, considerado por seus pares como a maior autoridade em dendê no Amazonas, com exceção da planta de dendê, a única alternativa para a produção de biocombustíveis seria o coco. “Infelizmente, não existe pesquisas brasileiras onde o coco figure como origem de óleo para combustíveis, apesar de o fruto render duas toneladas de óleo por hectare ao ano”, explicou Barcelos, que é engenheiro agrônomo e doutor em Melhoramento Genético e Aperfeiçoamento do Dendê.
O especialista disse que praticamente qualquer óleo pode gerar combustível como biodiesel, por exemplo. Porém, a quantidade de óleo, o preço e a oferta regulares limitam o número de vegetais candidatos à matéria-prima. “O dendê gera de quatro a seis toneladas de óleo por hectare ao ano e cada planta é explorável por 25 anos. O que nos falta no Amazonas é espaço para o plantio”, ponderou.
Vegetal já é utilizado para fabricação de vários produtos
O óleo de dendê pode ser utilizado na fabricação de vários produtos, entre eles: sabão, artigos de limpeza, cosméticos, velas, farmacêuticos, plásticos, lubrificantes, biodiesel e produtos alimentícios -como margarina, biscoito, gorduras para sorvete e chocolate, óleo de cozinha, bolacha, misturas para bolo, glacê e macarrão instantâneo, entre outros.
O líquido é livre de colesterol e gorduras trans, além de ser rico vitaminas em A e E. As gorduras trans (saturadas) elevam o colesterol ruim e diminuem o bom, acumulam-se facilmente no abdômen e causam problemas circulatórios, como infarto e derrame cerebral, de acordo com o médico endocrinologista Alfredo Halpern.
A planta do dendê é de origem africana, resistente a doenças e tem crescimento lento, em média 45 centímetros por ano. Esta velocidade de desenvolvimento garante 25 anos de vida econômica. As unidades do vegetal começam a produção comercial no fim do terceiro ano depois do plantio.
O açaí e buriti estão entre os vegetais brasileiros que podem ser utilizados como fonte para a fabricação de biocombustíveis. Os frutos são típicos da Amazônia e largamente encontrados nos estados do Amazonas e do Pará. De acordo com os pesquisadores consultados pelo Jornal do Commercio, no entanto, a produção de óleo a partir de espécies nativas seria insuficiente para a produção de combustível em larga escala.
Edital Biocom
O edital Biocom (Programa de Apoio ao Desenvolvimento de Tecnologias para a Produção de Biocombustíveis no Estado do Amazonas) é financiado pela Fapeam e CNPq com valores máximos de R$ 300 mil por projeto. O programa é destinado ao desenvolvimento de pesquisas na área de biocombustíveis a partir da utilização de espécies nativas com foco no uso de recursos naturais para a fabricação do combustível, gerando inovação, como definiu o presidente da Fapeam, Odenildo Sena.
Quando questionado sobre a possibilidade de uso de espécies não-nativas nas pesquisas do edital, Sena declarou que é justamente pela ausência de estudos com plantas da região que o edital está oferecendo apoio financeiro aos pesquisadores interessados.
O diretor do CNPq, Roberto Drugowich, esclareceu que linhas de pesquisas sobre biocombustíveis utilizando espécies vegetais brasileiras são quase inexistentes. “Editais como o Biocom são de fundamental importância para a autonomia do Brasil na produção e utilização de biodiesel e exploração consciente e rentável das nossas potencialidades naturais ainda desconhecidas”, finalizou o dirigente.







