PIM cresce menos

Em: 13 de abril de 2026
Vendas avançam em moeda americana, mas ficam estáveis em reais e empregos perdem ritmo no bimestre.
Indústria naval foi uma das atividades com maior queda no Polo Industrial de Manaus. (Acervo JC)
Indústria naval foi uma das atividades com maior queda no Polo Industrial de Manaus. (Acervo JC)

O faturamento do PIM em dólares ganhou mais fôlego no primeiro bimestre, mas o mesmo não ocorreu na conversão em reais. Em paralelo, a geração de empregos voltou a desacelerar. As vendas brutas cresceram 9,29% em moeda americana e somaram US$ 6,99 bilhões, na comparação com igual período de 2025 (R$ 6,40 bilhões), em um ambiente de desvalorização de 11,57% do dólar em 12 meses, conforme o BC. Na divisa nacional (R$ 37,23 bilhões), o panorama foi de estabilidade com viés negativo (-0,38%), em cenário de IPCA de 3,81% no mesmo acumulado. É o que revelam os Indicadores de Desempenho do Polo Industrial de Manaus, divulgados na sexta (10). 

A comparação entre janeiro (R$ 18,47 bilhões ou US$ 3.45 bilhão) e fevereiro (R$ 18,75 bilhões ou US$ 3.55 bilhões) resultou em aceleração nas vendas (+1,51% e +2,90%, respectivamente). Já o confronto com igual período do exercício anterior (R$ 18,76 bilhões ou US$ 3.21 bilhões) indicou estabilidade em reais (-0,05%) e aumento em dólares (+10,59%). O levantamento mensal da Suframa revela ainda que o Polo Industrial de Manaus voltou a perder velocidade nas contratações, já que a média mensal de empregos de fevereiro (128.945 trabalhadores) esfriou em todas as comparações, marcando o placar mais baixo desde agosto de 2024 (126.854). 

De janeiro a fevereiro, 12 dos 26 subsetores faturaram mais em dólares. Entre os segmentos que carreiam o PIM, os destaques vieram de duas rodas, metalúrgico, químico, termoplástico e eletroeletrônico, em detrimento de bens de informática. As melhores performances vieram das divisões de bebidas (+58,43% e US$ 62.28 milhões), brinquedos (+35,45% e US$ 12.67 milhões) e de vestuário e calçados (+28,34% e US$ 2.02 milhões). Os tombos mais severos ficaram nos polos naval (-48,30% e US$ 25.92 milhões), de couros e similares (-43,43% e US$ 389.142) e madeireiro (-38,57% e US$ 1.31 milhão). 

Os subsetores de bens de informática e de eletroeletrônicos foram mais uma vez em direções opostas, no bimestre. O primeiro (US$ 1.32 bilhão) elevou sua participação para 18,87% do faturamento do Polo, mas encolheu 5,67% ante 2025. Já os eletroeletrônicos (US$ 1.11 bilhão) cresceram 15,50% e viram seu share elevado para 15,91%. Também aquecido (+15,31%), o subsetor de duas rodas (US$ 1.45 bilhão) manteve a dianteira no ranking das vendas globais da indústria incentivada, com fatia de 20,82%. A lista se completa com os segmentos de “outros produtos” (14,25% do bolo), químico (12,15%), termoplástico (9,14%) e metalúrgico (8,87%).

 

Produção e empregos

O crescimento também foi menos disseminado em termos de produção industrial. O aumento mais expressivo do bimestre veio da linha de aparelhos telefônicos (incluindo porteiros eletrônicos), que somou 38.922 unidades e alcançaram incremento de 21,63% frente ao segundo mês de 2025. Outras altas expressivas vieram da fabricação de celulares (+7,34% e 1.817.314) e motocicletas, motonetas e ciclomotos (+5,52% e 379.046). Em contraste, segmentos de destaque para o PIM, como os de condicionadores de ar do tipo split system (-26,26% e 851.791); relógios de pulso e de bolso (-4% e 1.172.638); e TVs com telas LCD e Oled (-8,20% e 2.336.655) amargaram quedas. 

Em sintonia, o nível de empregos do Polo Industrial de Manaus voltou a perder velocidade. A média obtida em fevereiro foi de 128.945 trabalhadores, entre efetivos, temporários e terceirizados. A performance ficou pouco baixo (-0,81%) da verificada em janeiro (129.999), além de configurar queda de 2,66% diante do registro de fevereiro do ano passado (132.475). Foi o número mensal mais baixo, desde agosto de 2024 (126.854) – quando o PIM sofria os impactos logísticos do segundo ano de vazante histórica. A média de colaboradores acumulada em 2026 (129.472) ficou 1,81% aquém do exercício anterior (131.866), embora ainda supere o dado de 2024 (124.039). 

Apenas sete das 24 divisões do PIM conseguiram saldos positivos de empregos no acumulado do ano. Os melhores índices vieram de vestuário de calçados (+16,38% e 469 trabalhadores) e de “material de limpeza de velas” (+3,70% e 56) e duas rodas (+3,57% e 27.196). Já os recuos mais intensos ficaram nos segmentos e de brinquedos (-43,20% e 30), “produtos diversos” (-27,19% e 458) e mobiliário (-18,50% e 806). Dentro do grupo de mão de obra estritamente efetiva, o Polo conseguiu criar apenas 191 novas vagas no bimestre, diante das 6.545 admissões e 6.354 demissões contabilizadas no período. 

“Manter uma média de mais de 129 mil trabalhadores ativos demonstra a capacidade e força estrutural do nosso Polo. Além disso, o salto de mais de 27% nas exportações acumuladas prova que as indústrias da Zona Franca de Manaus continuam altamente competitivas no cenário internacional. Tudo isso só evidencia que o PIM segue forte, diversificado e plenamente preparado para expandir seus resultados ao longo de 2026”, destacou o novo titular da autarquia, Leopoldo Montenegro, em texto veiculado pela assessoria de imprensa da Suframa.

 

Resiliência e cautela

O presidente da Fieam, Antonio Silva, considera que os números revela um cenário de estabilização e resiliência do PIM, embora inspirem cautela. “É notável que o avanço mais expressivo tenha ocorrido em dólar e nas exportações. O resultado evidencia a competitividade externa das nossas indústrias e sugere estratégia de diversificação de mercados como resposta à conjuntura global de volatilidade e incertezas”, destacou.

O dirigente ressaltou que os conflitos internacionais e dúvidas quanto à trajetória dos juros pesam sobre o custo de capital e o poder de compra, freando a expansão em subsetores que dependem de crédito e maior previsibilidade de consumo. “Essa realidade demanda acompanhamento técnico rigoroso para garantir que os diferenciais competitivos da ZFM continuem a neutralizar as assimetrias exacerbadas por esse ambiente”, recomendou.

Antonio Silva avalia que a manutenção da média de empregos acima de 129 mil ocupações confirma o compromisso social da indústria, apesar do declínio pontual. “Para 2026, a expectativa reside na busca contínua por eficiência produtiva e equilíbrio operacional, visando sustentar os patamares de emprego e renda. O fortalecimento da segurança jurídica e a clareza nas políticas de desenvolvimento regional serão fundamentais para o setor navegar por este período de transição global com a estabilidade necessária”, frisou.

O contador, professor da Ufam e consultor empresarial especializado na indústria, André Costa, concorda que o cenário é de estabilidade para o PIM. “Mas ainda com uma percepção geral positiva. A base de comparação é muito forte, dado que o início de 2025 foi extraordinário. Agora, janeiro de 2026 só não superou 2025 devido à forte redução do desempenho de celulares. Houve recuperação e por isso fevereiro foi melhor”, ponderou.

O especialista salienta, entretanto, que a atual conjuntura ainda inspira cautela nas perspectivas. “A expectativa para o ano é bastante desafiadora, porque temos relatos de endividamento recorde das famílias brasileiras. E prevemos um impacto nos preços, em virtude do forte aumento nos preços globais de energia e logística, impactado pelas guerras no Oriente Médio. Mas temos ainda a expectativa que a Copa do Mundo e eleições sejam direcionadores que ajudem a superar os desafios”, finalizou.

 

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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