Piratas dão prejuízo de R$ 20 milhões

Em: 21 de setembro de 2022
Piratas dão prejuízo de R$ 20 milhões - 2209 A7

Andreia Leite

@andreiasleite_  @jcommercio

O aumento de roubos de combustíveis cometidos por ‘piratas do rio’ às embarcações preocupa os empresários e representantes de  empresas transportadoras de navegação do Amazonas e segue trazendo insegurança à navegabilidade. Embora exista atuação de equipes da SPP (Secretaria de Segurança Pública) e da Marinha, a demanda por um maior reforço policial nas rotas fluviais é urgente.  

Ouvidos pelo Jornal do Commercio, representantes do segmento classificam que as ações de polícia nos rios são pequenas em relação à extensão em toda a Amazônia e demandam reforço com mais guarnições distribuídas. 

O setor tem buscado melhorias, mas lideranças pleiteiam um reforço de segurança no intuito de buscar parcerias para conter os avanços dos casos de roubos. 

Números mais recentes do Sindarma (Sindicato das Empresas de Navegação Fluvial no Estado do Amazonas) apontam que as transportadoras de combustíveis acumulam R$ 20 milhões em prejuízos decorrentes dessas ações.

O primeiro secretário do Sindarma e empresário do ramo, Homero Santos, frisou que quem atua no mercado está enfrentando um cenário jamais visto. “Ao comparar os anos 90 até 2010, a gente não tinha esse problema. Lá atrás, a nossa única preocupação era quanto à própria embarcação, que em virtude da vazante exigia um certo cuidado, já que naquela época,  eram balsas de cascos simples. Hoje, a nossa preocupação é tamanha diante desse cenário de roubos. Mesmo colocando guarda armada, os piratas do rio não se intimidam”. 

Segundo ele, o mercado está bem vulnerável. O rio é muito extenso e isso dificulta uma fiscalização mais ativa. “Todo mês tem registros dessas ocorrências. Estamos realmente preocupados. Temos que fazer todo esforço, pois precisamos fazer o transporte mesmo com tanta dificuldade e às vezes com medo que aconteça o pior”. 

Na opinião do empresário, a única saída para frustrar essas ações seria descobrir quem está por trás dos assaltos. “Isso porque esses assaltos requerem uma estrutura muito grande. São lanchas potentes, balsas petroleiras, armas de alto poder de fogo, pessoal qualificado para operar na retirada do produto e por fim, o receptador, ou seja,  é um custo muito alto investido nesses assaltos”.

O diretor de logística de uma transportadora de combustíveis, Nelson Ramos, salientou que os registros de roubos à embarcações são os piores de todos os tempos. “Tivemos roubo de 60.000 litros em 2020 e só nós arcamos com o prejuízo. Daí pra frente são vários  ataques a embarcações, ao ponto que tivemos de contratar escolta armada. Aumento de custos e nenhuma seguradora que aderir ao seguro de carga”. 

Ele citou que o segmento está sempre em diálogo com sindicato que representa os armadores, mas por parte das autoridades governamentais, nada evoluiu no sentido de contenção. “Se investisse em um policiamento mais efetivo nos rios, coibiria a ação de piratas”. 

A insegurança nos rios tem feito, inclusive, profissionais do setor abandonarem a atividade migrando para outras áreas. 

Registro

Com mais um ataque de ‘piratas’ realizado na segunda-feira passada (12), contra um comboio que transportava combustível para a cidade de Porto Velho (RO), o setor de transporte fluvial de cargas no Estado já acumula mais de R$ 20 milhões em perdas somente este ano, com a ação dos ‘barrigas d’água’.

Ainda segundo a entidade, este foi o segundo roubo de combustíveis somente neste mês provocado pelas quadrilhas que dominam os rios da região.

A ocorrência anterior aconteceu na semana anterior, entre os municípios de Parintins e Juruti (PA). No total foram furtados mais de 620 mil litros apenas nos dois assaltos realizados em setembro.

“Nestes números não estão incluídas as tentativas diárias que as empresas de navegação conseguem evitar por conta da escolta armada e da ação e perícia dos próprios tripulantes. A situação está muito grave e ainda estamos na metade do mês”, alertou o vice-presidente do Sindarma, Madson Nóbrega.

Agressões 

Nóbrega afirmou ainda que além do roubo dos combustíveis e de equipamentos, os criminosos estão ameaçando e agredindo fisicamente os marinheiros e profissionais que trabalham nas embarcações.

“No ritmo em que a situação se encontra nos rios, em pouco tempo haverá falta de tripulantes, uma vez que ninguém vai arriscar a vida em uma atividade de alto risco e isso poderá gerar problemas de abastecimento de produtos de primeira necessidade, principalmente de combustível, nos municípios do interior”, acrescentou.

Ainda de acordo com Nóbrega, a situação fica mais complicada no período de vazante dos rios por conta da dificuldade para navegar em certos trechos em que há maior incidência de bancos de areia e pedras, como no rio Madeira, fatores que obrigam as embarcações a reduzirem a velocidade e desta forma, facilitam a abordagem dos ‘piratas’.

Mais segurança 

Para o presidente da Abani (Associação Brasileira para Desenvolvimento da Navegação Interior), Dodó Carvalho, somente a regulamentação viabilizaria o ordenamento do rio e consequentemente, a segurança para o setor.

Carvalho considera que as ocorrências são reflexos da ausência dos órgãos que têm poder de controle do segmento.

“Há mais de 15 anos registramos problemas de garimpo ilegal no rio Madeira e nem a Marinha e nem o Ibama, Ipaam ou Polícia Federal se atentaram ou quiseram controlar isso. Já ocorreram inúmeros acidentes envolvendo balsas de transporte de combustível, de cargas em geral, de contêineres, com as balsas garimpeiras”, disse.

Andréia Leite

é repórter do Jornal do Commercio
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