Polo Naval de Manaus espera um crescimento 20% este ano

Em: 30 de março de 2010
Com a finalidade de trazer mais visibilidade ao setor naval e promover um estreitamento maior entre as empresas atuantes, o Sindnaval (Sindicato da Indústria da Construção Naval de Manaus) realiza no mês de junho o Workshop em Construção Naval
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Com a finalidade de trazer mais visibilidade ao setor naval e promover um estreitamento maior entre as empresas atuantes, o Sindnaval (Sindicato da Indústria da Construção Naval de Manaus) realiza no mês de junho o Workshop em Construção Naval

Com a finalidade de trazer mais visibilidade ao setor naval e promover um estreitamento maior entre as empresas atuantes, o Sindnaval (Sindicato da Indústria da Construção Naval de Manaus) realiza no mês de junho o Workshop em Construção Naval. O evento acontece em parceria com a Suframa (Superintendência da Zona Franca de Manaus) e Seplan (Secretaria de Estado de Planejamento e Desenvolvimento), no auditório da sede da Fieam (Federação das Indústrias do Estado do Amazonas), nos dias 25 e 26 de junho. Em entrevista ao Jornal do Commercio, o presidente do sindicato, Matheus de Oliveira Araújo, revela quais os principais obstáculos enfrentados pela categoria na capital e no interior, além de perspectivas para o futuro do setor. Em suma, Araújo disse esperar que o setor tenha o devido reconhecimento da sociedade e dos governantes e falou sobre os planos de instalar o curso em técnico naval no Estado, em parceria com escolas e instituições da região Sudeste.

Jornal do Commercio – Na sua visão, como está o setor naval em Manaus?

Matheus Araújo – O setor naval hoje se encontra em uma fase pujante, com relação a projetos, onde nós estamos tentando firmar em 2010 algumas parcerias junto aos chineses e coreanos. Nossa meta é que o setor cresça em 2010, cerca de 20%. Nós tivemos ano passado, uma estagnação do setor, em função da grande cheia, e com exceção dos grandes estaleiros, atuamos numa área muito limitada, por isso, o trabalho das empresas se intensifica somente na entresafra, quando o rio está subindo e quando está descendo. Os estaleiros têm que ser feitos na margem do rio, só podendo ser em terra se a produção for em série. Para este ano eu espero um deslanche do setor.

JC – Quais as principais dificuldades encontradas?

MA – Um dos gargalos enfrentados é exatamente o fato de não se ter uma política para o setor. Nós buscamos o governador (Eduardo Braga) e ele nos ajudou a fazer um seminário em busca de encontramos uma diretriz para o setor, que já é secular e merece uma visão apurada e um carinho por parte do governo. Quando foi assinado o decreto 67, que criou a Zona Franca de Manaus, o setor estava no “boom” do desenvolvimento do Amazonas, mas a Suframa priorizou mais o segmento de eletroeletrônico, deixando o naval como prioridade secundária. Agora, fomos contemplados com o Plano Urbanístico da Cidade de Manaus e até então não tínhamos tido isto.

JC – Qual o limite no qual o setor deve atuar, há conversas para uma solução?

MA – O governo tentou barrar o pólo Naval, criando um cinturão da refinaria da cidade até o porto do Ceasa, onde não se pode construir estaleiro nenhum. Só resta nos resta o Puraquequara. Agora querem colocar o pólo naval do outro lado do rio, mas tem um problema: os incentivos fiscais não atingem este espaço, o município de Iranduba. O limite que atinge os incentivos da Suframa é até a Ilha das Onças. Não pega todo mundo, mas 60% das empresas do pólo. Nós pleiteamos isto junto ao governo, já que há esta vontade de fazer o pólo naval do outro lado do rio.
JC – Quantas empresas atuam no setor hoje?
MA – Temos um total de 65 empresas em Manaus e também uma base naval em Novo Airão e São Sebastião do Uatumã. Os negócios não foram bons em 2009, foi um ano atípico e os resultados foram instáveis. Para se ter uma idéia, somente agora no começo de 2010 alguns serviços do ano passado foram entregues. A enchente afetou bastante o setor e agora em 2010 que começamos a melhorar. Por isso, essa previsão de 20% de crescimento neste ano. Acredito que o preço do aço estabilizado pode ajudar a competitividade. Há 20 anos, a construção de embarcações de madeiras representava 80%, contra 20% dos de aço. Hoje esse quadro se inverteu, com as embarcações de aço representando 90%.
JC – Existe alguma Lei determinando o material que as embarcações serem construídas?
MA – A Marinha Mercante deu um prazo até 2011, para que as embarcações deixem de usar a madeira e passem a utilizar o aço naval. Isto seria apagar a memória da construção naval do Estado. Na capital pratica-se a construção de barcos com o aço, já no interior predomina ainda as embarcações de madeira. O interiorano vai continuar fazendo de madeira por muitos anos, porque é a matéria prima que ele sabe manusear. Lá, não tem a tecnologia, o aço e nem a figura do soldador; o trabalho é todo artesanal. Aqui em Manaus tem o engenheiro, o soldador e o montador, entre outros; uma série de profissionais. Esta transformação é positiva para o meio ambiente, mas culturalmente ela agride o caboclo, pois ele vai migrar para uma outra atividade.

JC – As questões ambientais atrapalham neste trabalho no interior?

MA -Em Novo Airão, a UEA está montando uma escola para formar técnicos em construção naval e o Ibama não deixa ninguém tirar madeira para construir. Eu chego a me perguntar: “O que está fazendo este pólo em Novo Airão?”. Os madeireiros de lá puxam a madeira por debaixo de água escondidos, na madrugada para não serem pegos. É uma disparidade da profissão, onde, ao invés de criar políticas para facilitar o trabalho da pessoa, seja certificando a madeira ou outra solução, eles apreendem a madeira e a embarcação. Atualmente, São Sebastião do Uatumã e Novo Airão são os que mais trabalham com este tipo de produção naval, de recreio e pequeno porte.

JC – Quais as ações efetivas para especializar a mão de obra no setor?

MA -Na área do desenvolvimento de mão de obra, estamos trabalhando em parcerias, visto que somos o segundo maior setor de construção naval do Brasil. Nossa produção ainda é muito artesanal e carecemos de muitos profissionais que fazem o setor crescer. Estudamos parceria com o Senac do Rio de Janeiro (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) e com a Fatec – Jahu (Faculdade de Tecnologia de Jahu), para que possamos desenvolver no Amazonas o curso de técnico naval, em nível de segundo grau. Isto vai atender a demanda dos estaleiros que trabalham de forma artesanal. Podemos com essa mão de obra especializada, ter um parque naval mais desenvolvido e competitivo. Nós temos um universo de 15 mil de trabalhadores diretos no segmento; indiretamente, temos 25 mil. Estes números mostram que temos demanda para implantar um curso na área.

JC – Quais as funções mais carentes do setor?

MA -Eletricista naval, montador, soldador de raiz, técnico naval (segundo grau e tecnólogo), pintor industrial e técnico de corrosão em pintura são os cargos que o setor mais necessita, pois não há cursos especializados para cada área. Geralmente, que atua nestas funções, aprende o ofício na prática.

JC – Existem novas empresas interessadas em se instalarem no pólo naval de Manaus?

MA -Sim. Semana passada, tivemos um grupo de chineses que vieram conhecer o Amazonas com o intuito de formar parcerias. E eles vieram principalmente saber qual o fluxo de capital que o setor demanda, os incentivos dados pela Suframa aos estaleiros e investidores e a garantia que a Fieam e outros setores fornecem como benefício para as empresas deles. Um desses representantes da comissão chinesa possui 40 mil empresários como possíveis investidores na “menina dos olhos”, que é o Amazonas atualmente. Já houve conversa com a Suframa e ela mostrou o possível e o impossível de se instalar em Manaus, além dos incentivos fiscais.

JC – E quanto ao grupo de coreanos que vieram conhecer o potencial do setor? Quais as suas conclusões?

MA – Os coreanos, por sua vez, foram até mais ousados, pois eles emitiram uma carta de intenção para montar um laboratório no estaleiro de um amigo nosso, para saber, como se pode desenvolver o pólo industrial naval aqui, com a tecnologia deles. Ainda não posso falar a localidade e informações mais aprofundadas, por não estar fechado.
Tivemos também, semana passada uma reunião com o governo peruano, pois eles querem muito firmar essa parceria com o Brasil, no setor de transporte e logística. Isso por causa de uma rodovia que ligará os dois países. Eles vêem o Brasil como um lugar que possui uma tecnologia muito avançada em transporte e logística. Eles saíram fortalecidos com a informação de que receberão todo o apoio da Suframa.

JC – A que você atribui tamanho interesse de outros países pelo setor naval no Amazonas?

MA -O nome “Amazônia” vende muito. É uma marca com venda segura. Quando se fala “Produzido na Zona Franca de Manaus”, o produto tem um peso grandioso. O Amazonas em particular, tem 98% de sua mata preservada, e meio ambiente é o assunto da moda. Fomos convidados a participar de uma feira do setor na Espanha exatamente pelo motivo do nome, porque eles querem conhecer o potencial da construção naval “na Amazônia”.

JC – Quais os investimentos previstos para o ano de 2010?

MA – Os investimentos ainda não podem ser divulgados, porque estamos fazendo um levantamento. A informação deve ser liberada no mês de maio, mas posso adiantar que os recursos serão aplicados em infraestrutura, instalação portuária e qualificação de mão de obra.

JC – Como andam as conversas com o Governo, para a construção do novo porto de Manaus?

MA -Eles estão fazendo consulta pública e agora em abril será retomado o plano de retorno, exatamente para determinar a construção. A Prefeitura de Manaus queria fazer um plano sem ouvir a população. Agora a discussão será aberta em abril para chegar a conclusão se o porto é ou não favorável à cidade. Aqueles projetos apresentados para reforma do porto, em parte, são positivos, mas o governo vai enfrentar muitos gargalos na Manaus Moderna. Se vai aplicar em um local que já sofre de um colapso, por que não transferir para outro lugar, como a Ceasa, para desafogar mais o Centro de Manaus?

JC – E quanto a situação dos portos no interior do Amazonas?

MA -Tivemos um sério problema ano passado referente ao transporte no interior. O Fundef (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental) liberou 5 mil embarcações para o Brasil inteiro, a fim de auxiliar no transporte de alunos em áreas de difíceis acessos. O estado do Pará conseguiu 300 embarcações e o Amazonas não pegou nenhuma dessas por problemas de inadimplência dos municípios com o órgão.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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