Prejuízo cresce sem energia nos municípios da Região Metropolitana

Em: 23 de julho de 2019
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Desde a última sexta-feira (19) sem energia elétrica, o município de Manacapuru vive uma situação de completo de caos e abandono. A mesma situação enfrenta Iranduba, que também é abastecido pelo cabo subaquático da concessionária Amazonas Energia. Pela segunda vez consecutiva, o sistema entrou em colapso, deixando às escuras pelo menos 150 mil pessoas entre as duas cidades da RMM (Região Metropolitana de Manaus). E ainda Novo Airão, localizado nas adjacências.

O primeiro apagão ocorreu em fevereiro deste ano e a pane voltou a acontecer cinco meses depois com um novo rompimento do cabo subaquático de 69 KV que alimenta as duas cidades. O reparo é difícil e demanda um maior tempo porque a fiação encontra-se a 1.500 metros da ponte Rio Negro, que liga as duas cidades à capital.   

A prefeitura de Manacapuru montou um gabinete de crise junto com a Defesa Civil e o governo do Estado dentro do hospital da cidade, hoje o único lugar onde existe energia elétrica alimentada por um gerador.  “A situação é desesperadora. Estamos há cinco dias num completo apagão e a população começa a se manifestar cobrando providências urgentes. A situação é desafiadora”, diz o prefeito do município, Beto D´Ângelo (PROS). “Os prejuízos são inestimáveis, tanto do ponto de vista humano quanto comercial e econômico”, acrescenta o administrador.

Beto D´Ângelo está despachando de dentro do hospital de Manacapuru, que deve receber hoje um novo gerador para ter energia ininterrupta. De acordo com o prefeito, o município está fazendo ainda um levantamento dos danos e deve decretar uma situação de emergência a partir de hoje. “A economia da cidade está praticamente parada”, acrescentou. Ele informou que a Amazonas Energia se comprometeu a sanear o problema até esta quinta-feira, mas o gabinete de crise se prepara para enfrentar a situação por mais tempo. “Dificilmente, a situação será normalizada dentro do prazo estabelecido pela concessionária”, afirmou o gestor. 

Em nota, a direção da Amazonas Energia informou que providencia uma solução de abastecimento alternativo com a utilização de unidades geradoras movidas a diesel. Mas depende ainda da compra de uma peça do sistema na Suíça para sanear o problema por completo. A empresa disse que um dos cabos foi encontrado em curto-circuito e informou não saber ainda se o apagão foi causado por vandalismo ou por desgaste do sistema.

Segundo Beto D´Ângelo, seis geradores fornecidos pelo governo do Estado e pela concessionária estão abastecendo a cidade precariamente, mas em forma de revezamento – a cada quatro horas, um bairro do município é atendido para a população armazenar água nas caixas d’água e permitir também a conservação temporária de alimentos.

Carros-pipa levam água aos bairros e às comunidades mais distantes, mas mesmo assim os moradores enfrentam muitas dificuldades para ter acesso ao produto. Filas quilométricas são formadas por onde os veículos passam.  O cenário é desolador e preocupante em Manacapuru, Iranduba e Novo Airão. A população faz fila para comprar gelo importado de Manaus, mas poucos podem pagar a sacola com preço de R$ 30. Somente os mais abastados têm condições de usufruir do produto que se tornou um artigo de luxo nessa época de crise.

Alimentos se deterioram nas prateleiras de supermercados e mercadinhos. Produtos perecíveis como carne, iogurte, verduras, hortaliças, entre outros itens de primeira necessidade, estão ficando impróprios para o consumo. Apenas poucos empresários conseguem evitar mais prejuízos comprando toneladas de gelo para a conservação de alimentos. Os frigoríficos deixaram de comprar peixes do setor primário por não ter aonde conservar o produto, atingindo pescadores que dependem exclusivamente da atividade para sobreviver. 

Escolas e faculdades da rede pública e privada também suspenderam as aulas. Não há condições para ministrar o ano letivo nessas condições adversas, segundo gestores das unidades. Sem salas climatizadas, é praticamente impossível manter as atividades escolares devido ao intenso calor.

Outro cenário atípico que lembra as comunidades mais distantes desassistidas do interior – para não perder os alimentos estocados nas geladeiras, donas de casa tentam amenizar o prejuízo guardando os itens em caixas de isopor repletas de gelo. Mas nem todas as pessoas podem fazer essa contrapartida na crise, pois o produto é caro e inacessível para muitos.

De acordo com o vereador de Manacapuru Leonardo Silva Guimarães (PTC), até os proprietários de celulares enfrentam situações de emergência com o apagão. Pontos estratégicos nas ruas alimentados por geradores foram montados pela prefeitura para recarregar os aparelhos. E os usuários também fazem filas para conectar os rabichos dos aparelhos nas tomadas. “Nunca se viu um cenário desses tão caótico que lembra as cidades antigas do oeste norte-americano”, diz ele.

O prefeito de Iranduba, Chico Doido (Democratas), informou que as fábricas do polo de cerâmica do município estão todas paradas. Ele estima já um prejuízo de pelo menos R$ 100 mil desde o apagão que começou na última sexta-feira. Segundo ele,  a merenda escolar das unidades da rede pública de ensino começam a se deteriorar e não existem geradores suficientes para manter a conservação dos produtos perecíveis. “O município parou completamente”, disse ele. “Só um comerciante que vende iogurtes me disse que já perdeu, no mínimo, R$ 15 mil com a deterioração dos itens causados pelo blecaute de energia”, acrescentou. 

Força-Tarefa

A DPE-AM (Defensoria Pública do Estado do Amazonas) e o Procon-AM (Programa Estadual de Proteção e Orientação ao Consumidor do Estado do Amazonas) anunciam uma força-tarefa para acompanhar de perto as medidas emergenciais adotadas pela Amazonas Energia para minimizar os prejuízos à população de Manacapuru, Iranduba e Novo Airão. O apagão afeta as três cidades desde a última sexta-feira e muitos estimam que a solução do problema não virá tão cedo.

A mobilização avalia ainda medidas judiciais para o ressarcimento dos danos materiais e coletivos à população dos municípios. Pelo menos 200 mil pessoas foram atingidas pela pane no cabo subaquático que leva a anergia para a região dos três municípios. O trabalho é composto também pela Comissão do Consumidor da Aleam (Assembleia Legislativa Amazonas). A ação conjunta garante que vem atuando sistematicamente em questões de interesse coletivo da população.  

“Os órgãos que atuam na defesa do consumidor estão unidos para pensar estratégias que permitam à população voltar a ter energia elétrica e possam então retomar a rotina sem esse contratempo, tendo a garantia de seu bem-estar”, afirmou o defensor geral do Estado, Rafael Barbosa. “A Defensoria está engajada nesse projeto para dar uma resposta imediata às pessoas que estão vivenciando este problema e buscar minimizar os prejuízos com perda de alimentos e eletrodomésticos, por exemplo”, acrescenta ele.

Na manhã de ontem, integrantes da força-tarefa estiveram reunidos na Defensoria Público para traçar estratégias de atuação. Também foram para a Amazonas Energia, onde ouviram a garantia do presidente da concessionária, Tarcísio Rosa, de que o abastecimento nos três municípios deverá ser normalizado até o final desta semana.

“Uma usina termelétrica de 60 MW será instalada para garantir o fornecimento de energia, priorizando hospitais, até que o problema seja definitivamente solucionado”, adiantou Rosa. Ficou acertado ainda que a usina termelétrica de Flores, em Manaus, que foi recentemente desativada, será instalada na região dos municípios afetados pelo apagão.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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