Com 101 anos de existência o Igha (Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas) se cristalizou como uma das instituições mais importantes e respeitadas do Estado. Desse mais de século, o bibliotecário José Geraldo Xavier dos Anjos passou 35 anos quase sempre ocupando a função de secretário geral, e até presidente, do Igha. Em 2019 ele pretende se afastar de qualquer outra função no Instituto para se dedicar a diversos projetos particulares. Formado em biblioteconomia e documentação, em 1982, pela antiga Universidade do Amazonas, Geraldo dos Anjos é especialista em História da Saúde na Amazônia, e atualmente é chefe do Departamento de Pesquisas da Fundação Hospital Adriano Jorge. Em entrevista ao JC, ele falou mais sobre o Igha e seus planos futuros.
Jornal do Commercio: Por que, depois de 35 anos como secretário geral e até presidente do IGHA, você resolveu deixar a instituição?
Geraldo dos Anjos: Sim, são 35 anos de dedicação e amor ao Igha mas, na realidade, não estou deixando a instituição, eu apenas não assumirei cargos nas próximas diretorias, pois entendo que a minha contribuição durante estes anos já foi dada. Lutei muito pela renovação do quadro de associados e entendo que agora é a vez deles seguirem no comando de nossa casa centenária.
JC: Nesses 35 anos o que viu mudar na instituição?
GA: Muita coisa. Participamos de um grande trabalho de equipe formado por bibliotecários, arqueólogos e museólogos que, nas suas áreas de atuação, organizaram os acervos dentro de técnicas atualizadas, com apoio financeiro do Governo do Estado do Amazonas, nosso principal parceiro até hoje; da Universidade Federal do Amazonas, da Suframa, da Câmara Municipal de Manaus e da Assembleia Legislativa, parceiros estes que garantiram a organização e o desenvolvimento do Igha nas presidências de Robério Braga, Junot Carlos Frederico, Arlindo Porto, Humberto Figliuolo, Roberto Mendonça e Francisco Gomes (estes três no exercício da presidência pelo licenciamento do presidente Robério), Ednea Mascarenhas Dias (a primeira mulher a presidir o Igha), na minha gestão como presidente, Antonio Loureiro e chegando hoje ao término do mandato de Marilene Correa. Durante todos estes anos lutamos para manter a Casa de Bernardo Ramos, como o Igha é carinhosamente chamado, aberta à comunidade amazonense.
JC: Em três décadas, que acervos importantes chegaram ao Instituto?
GA: Recebemos acervos de discos de Crisanto Jobim e acervos fotográficos de alguns fotógrafos de Manaus que os venderam ao Igha. Sob minha coordenação o Instituto participou dos projetos de microfilmagem dos relatórios dos presidentes da Província do Amazonas (século 19) e relatórios de governadores do Amazonas, de 1889 até 1930, hoje disponíveis na internet. Projeto de microfilmagem de jornais do período de 1854 a 1960 com mais de 40 mil páginas microfilmadas, a maioria disponível no site da Biblioteca Nacional. Projeto de resgate do Barão do Rio Branco, em parceria com a Biblioteca Nacional e Arquivo da Torre do Tombo, de Portugal, disponível no site da biblioteca da Universidade de Brasília. Em parceria com o Jornal do Commercio, microfilmamos a sua coleção de jornais de 1904 até hoje, também disponível para leitura do site da Biblioteca Nacional. Todos estes projetos fizeram aumentar consideravelmente o acervo do Igha.
JC: Qual a importância do Igha para o Amazonas?
GA: A importância do Igha não só para o Amazonas, mas para o Brasil, é sua luta constante pela preservação de nossa história e de nossa cultura em todas as áreas do conhecimento.
JC: É imensurável o valor do acervo documental histórico guardado no Igha. O prédio está protegido contra sinistros?
GA: Nosso acervo documental e arqueológico não tem um valor mensurável, pois todo ele é de uma importância única. Quanto à proteção do prédio contra sinistros, durante estes anos todos as diretorias têm realizado revisões constantes na parte elétrica, mandado limpar as calhas e telhados e mantido extintores de incêndio em dia.
JC: Você não sentirá falta das assombrações que moram no prédio?
GA: Durante estes anos tive o prazer de conviver com as energias dos que passaram pelo Instituto de alguma forma, por exemplo, as energias de nossos antepassados indígenas através de suas urnas funerárias, de seus armamentos, de seus vasilhames e pertences. Quando sentir falta dessa convivência, os visitarei com todo respeito.
JC: Você sempre esteve envolvido com pesquisas históricas. Pode adiantar quais são seus planos futuros?
GA: Meus planos são continuar na pesquisa dentro da minha área, História da Saúde na Amazônia, onde estou orientando três projetos; finalizar, e publicar, o livro Memórias do Carnaval de Manaus; publicar três livros, que já estão prontos; voltar aos bancos da Universidade para fazer meu mestrado e, se der, o doutorado; e por fim, escrever as memórias de minha vida (Memórias de um bibliotecário, título provisório) onde pretendo contar tudo o que passei para chegar até aqui.






