Prevenção contra malária deve destacar aspectos históricos

Em: 29 de abril de 2009
É preciso pensar campanhas de prevenção contra a malária no Amazonas nas quais sejam incorporadas as dimensões históricas da doença
É preciso pensar campanhas de prevenção contra a malária no Amazonas nas quais sejam incorporadas as dimensões históricas da doença

É preciso pensar campanhas de prevenção contra a malária no Amazonas nas quais sejam incorporadas as dimensões históricas da doença. Essa foi uma das sugestões feitas pelo pesquisador Júlio Cesar Schwei­ckardt, que acaba de defender a tese “Ciência, nação e região: as doenças tropicais e o saneamento no Estado do Amazonas (1890-1930)”. O pesquisador  tratou no último dia 27, em palestra realizada no salão Canoas, Fundação Oswaldo Cruz – AM, em Manaus, onde é servidor.
A apresentação mostrou resultados da tese de doutorado defendida por Júlio Cesar Schweickardt no COC/Fiocruz (Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde da Casa de Oswaldo Cruz). A pesquisa levou quatro anos para ser concluída, sendo iniciada no ano de 2002.
Seu trabalho aborda a discussão da medicina tropical e das doenças tropicais entre 1890 e 1930, com o objetivo de mostrar como os médicos e cientistas da época conseguiram aplicar as descobertas científicas no controle da transmissão da malária e da febre amarela por meio de campanhas de saneamento e políticas públicas em Manaus e no interior do Amazonas. 
Parte dessas conquistas, segundo o pesquisador, deu-se porque os cientistas da época tinham uma visão ampla não somente da doença, mas da economia, do fluxo migratório, da cultura, ou seja, tinham a compreensão do espaço no qual estavam inseridas as pessoas. “As campanhas atuais precisam ser pensadas tendo esses elementos históricos sociais vinculados aos ambientais”, ressaltou.
Para ele, hoje há uma discussão rica sobre a ecologia, elementos do ambiente, mas, às vezes, a ecologia prende-se à ecologia apenas dos mosquitos.      
A crítica que se faz, de acordo com Schweickardt, é que não se pode pensar as doenças tropicais apenas pelo aspecto biológico.
O cientista, que é ex-bolsista do RH-Posgrad (Programa de Apoio à Formação de Recursos Humanos Pós-Graduados para o Estado do Amazonas), da Fapeam (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas), ressaltou que é preciso incorporar dados antropológicos, culturais e até mesmo simbólicos da sociedade no processo de controle das doenças. Em razão disso, não se pode reduzir os casos apenas ao problema do mosquito, do parasita ou do agente. Ou seja, é algo bem mais complexo.

Campanhas atuais são semelhantes às antigas

“Quando vemos os estudos na área de malária, por exemplo, são focados nos aspectos biológicos: tratamento, medicamento, entre outros. É uma lógica de se pensar a doença. Entretanto, esquece-se do indivíduo e o que ele representa. As informações levantadas por meio da tese podem ajudar nesse processo. A malária é uma doença que tem mais de cem anos de história, com a qual o homem convive até hoje”, lembrou o pesquisador. 
Durante o trabalho, o cientista pontuou que foram levantadas informações sobre campanhas feitas por comissões locais e federais há mais de cem anos, as quais obtiveram êxito. Foram encontrados relatórios sobre as atividades, o cotidiano dos sa­nitaristas, tudo detalhado.
Júlio Cesar Schwei­ckardt disse, por exemplo, que nos locais de maior incidência da malária era comum a convivência com a doença, ou seja, era cultural.
 
Campanhas sanitárias

Segundo Schweickardt, as campanhas contra a febre amarela e a malária não se diferenciavam muito das atuais que são feitas, por exemplo, contra a dengue, pois envolviam educação sanitária, não-acúmulo de água, armazenamento de garrafas e o combate à larva. Por isso, para o pesquisador é importante fazer uma análise histórica das campanhas. Dessa forma, é possível aprender como os médicos da época lidavam com as doenças.  
“Hoje parece que sempre se começa do zero. Pelo contrário, a ciência na medicina tropical era muito dinâmica, porque inte­ressava aos países europeus, que tinham tropas no local, comerciantes, co­lonos, por isso, a medicina surge como um braço do imperialismo europeu, prin­cipalmente, inglês. Atu­­­almente, acontece o inverso, o Brasil desenvolveu tecnologias, há institui­ções que trabalham com a temática”, ressaltou.  
 
Avanço científico

Na época, a malária era um problema de todo o Amazonas, o que é muito claro nos relatos dos cientistas que viajavam para a região: Oswaldo Cruz, na época da Madeira Mamoré, e Carlos Chagas, entre os anos de 1912 e 1913.
Manaus era um lugar onde a malária era a res­ponsável pela metade das mortes na cidade. “Era um problema sério e acometia, principalmente, a população nativa ou as pessoas que migravam para o Estado”, salientou.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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