Produzir bons trabalhos literários

Em: 23 de abril de 2026
Neste final de semana a Academia Amazonense de Letras estará em festa, com a posse de mais um acadêmico.
"Essa cadeira 25 foi ocupada por meu pai, José Lindoso"
"Essa cadeira 25 foi ocupada por meu pai, José Lindoso"

Na próxima sexta-feira, 24, às 20h, no Salão Nobre do Pensamento Amazônico, da Academia Amazonense de Letras, o advogado e cronista Pedro Lucas Lindoso irá tomar posse na cadeira de nº 25, que um dia foi ocupada pelo seu pai, o também advogado e político, ex-governador do Amazonas, José Lindoso. Além das crônicas, que escreve semanalmente no Jornal do Commercio, há mais de 15 anos, Pedro Lindoso tem publicados vários escritos premiados e os livros ‘O boto cor-de-rosa e o jacaré do rabo cotó’, ‘Oremos pela guerra – Manaus de Chopin e Mussolini’, e ‘Uma amazonense em Copacabana’. O evento será aberto ao público. Na entrevista a seguir, ao Jornal do Commercio, o escritor falou mais sobre sua posse na Academia.   

 

Jornal do Commercio: Qual a importância de se tornar um imortal da Academia Amazonense de Letras?

Pedro Lindoso: Penso que a questão da tal imortalidade é um pouco discutível. Acredito que não sou e nunca serei imortal. A imortalidade de que falam eu deixo para minha mulher Vera, meus filhos e netas e para os amigos que quiserem. Não me pertence. Pertence a quem quiser me dar essa honra, esse carinho. Até que se acabe com o tempo. E o tempo foge. Como diziam os romanos, ‘tempus fugit’.

 

JC: Você ocupará a cadeira de número 25, do imortal Araújo Lima? Quem foi Araújo Lima e que obras publicou?

PL: Araújo Lima foi um médico, formado pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e farmacêutico pela Faculdade de Medicina da Bahia, além de especialista em microbiologia pela Universidade de Paris. Foi inspetor escolar e diretor da Instrução Pública, o que seria hoje o equivalente a secretário de Educação. Na política destacou-se como prefeito de Manaus. Quanto à sua contribuição literária, destacam-se dois livros: ‘Só a educação transforma os povos’ e ‘Amazônia, a terra e o homem’. Essa cadeira 25 foi ocupada, por último, por Márcio Souza. E antes dele, por meu pai, José Lindoso. Uma coincidência de grande importância para mim. Serei recepcionado por Elson Farias, que foi recepcionado por meu pai. Outra coincidência: quem recebeu meu pai foi Aderson de Menezes, compadre dele e meu padrinho.

 Pedro Lindoso tem publicados vários escritos premiados.
Pedro Lindoso tem publicados vários escritos premiados.

 

JC: Qual papel a Academia ocupa dentro da sociedade amazonense?

PL: A Academia Amazonense de Letras é a entidade literária mais antiga e mais destacada do Amazonas. Foi fundada em 1º de janeiro de 1918. Somente o Igha (Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas), do qual também sou membro, é mais antigo, fundado em 25 de março de 1917. Na Academia só existem 40 vagas seguindo o modelo da ABL (Academia Brasileira de Letras), que dará posse neste mês a Milton Hatoum, primeiro amazonense a se tornar membro da ABL.

 

JC: Cite alguns dos nomes mais ilustres que passaram pela Academia.

JL: São muitos. Vou me ater aos que conheci: Álvaro Maia, governou o Amazonas por vários anos. Em novembro de 1923 o jovem poeta Álvaro Maia, então com 30 anos, fez esse pronunciamento histórico: ‘A canção de fé e esperança’, no Teatro Amazonas. Cito ainda Djalma Batista e Samuel Benchimol; Jorge Tufic, autor do Hino do Amazonas; Francisco Vasconcelos; o poeta e chazista Almir Diniz; e, claro, Armando de Menezes. Mas a lista é grande.

 

JC: Quais ações a Academia realiza ao longo do ano?

PL: A Academia tem publicado obras importantíssimas para o resgate e preservação da cultura do Amazonas. Esteve fechada por alguns meses devido a reformas mas, quando aberta, recebe alunos das escolas de Manaus, realiza a ‘Academia de portas abertas’; acontecem encenações e saraus abertos ao público, sempre com viés histórico; e constantemente promove lançamentos de livros dos seus membros.

 

JC: Na sua opinião como está, hoje, a literatura amazonense?

PL: Vibrante. Muita gente nova se destacando. Possivelmente estarão como futuros membros da Academia. Há vários clubes, associações, academias, e coletivos, antigamente chamados de grêmios. Isso é muito bom. Que se espalhem mais e mais.

 

JC: O que você diria para um jovem escritor que deseja se tornar imortal da Academia?

PL: Eu diria duas coisas. Primeiro produzir bons trabalhos literários. Eu me destaquei como cronista. Agradeço ao JC por publicar minhas crônicas por mais de 15 anos. Ser cronista é uma vocação familiar. Meu tio Salim Daou, irmão de meu avô, Philippe Daou (não confundir com seu sobrinho Phelippe Daou, fundador da Rede Amazônica). Tio Salim foi um dos maiores e mais conhecidos cronistas de Porto Alegre. Assinava com o pseudônimo S.D. Ramayana. Escrevi uma crônica sobre ele e o nosso Ramayana de Chevalier. Mostrei para o Armando de Menezes e ao Diniz, numa sexta-feira de Chá do Armando. Naquele dia o querido Armando disse ao Diniz que queria me levar para a Academia Amazonense de Letras. Meu pai, o Diniz e ele devem estar muito felizes, no Oriente Eterno, com minha posse. O segundo conselho para quem deseja entrar na Academia é frequentá-la. Conhecer e interagir com os acadêmicos.

Evaldo Ferreira

é repórter do Jornal do Commercio
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