A Conab manteve suas projeções para a safra de grãos 2021/2022 do Amazonas, na revisão de março. A estimativa é que a produção atinja 56 mil toneladas, valor 2,6% superior ao da safra de 2020/2021 (54,6 mil toneladas). As apostas se concentram no milho (+19% e 27,5 mil toneladas) e na soja (+4,7% e 13,5 mil toneladas), em detrimento do feijão (0% e 2.500 toneladas) e do arroz (-22,2% e 12,6 mil toneladas). A área de plantio (22,7 mil hectares) segue com a mesma elevação anual de 4,6%, e a produtividade (2.467 kg/ha) aguardada é 2% menor.
A guerra na Ucrânia, no entanto, lança sombras sobre a atividade, ao sinalizar um choque de oferta no mercado de fertilizantes, já que a Rússia é o principal fornecedor global. A expectativa é que, no mínimo, os preços vão escalar com mais força do que nos meses anteriores ao conflito. O consenso é que a safra atual está garantida, até porque a maior parte da colheita se dá até abril, sendo seguida pela chamada “safrinha”. Mas, há dúvidas se a crise será contornada até setembro, mês em que começa o plantio da próxima safra, e quando os atuais estoques brasileiros já terão acabado.
O país corre atrás de um plano B. A titular do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina, propôs, nesta quinta (17), em reunião da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), que os fertilizantes sejam retirados da lista de sanções à Rússia. Mas, os EUA defendem subsídio aos produtores americanos para beneficiar “nações aliadas” com maior oferta. Em paralelo, o Mapa negocia com o Canadá o aumento da importação em 400 mil toneladas, em contratos com empresas privadas. O embaixador iraniano no Brasil, Hossein Gharib, fez oferta semelhante e também acenou com a possibilidade de mais compras de alimentos brasileiros pelo Irã.
“Floresta de pé”
De acordo com o sexto levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento para a atual safra, o índice de crescimento do Estado foi o 20º lugar do ranking nacional, ficando atrás das medias brasileira (4%) e da região Norte (+6%). Em termos de taxa de alta na área de cultivo, o Amazonas aparece na 12ª posição, indicando relativo aumento no quesito. Mas, por esse motivo, caiu para a 18ª colocação, na produtividade.
Sem entrar em detalhes sobre a crise dos fertilizantes, o ex-superintendente da Conab e administrador com especialização na gestão de informação ao agronegócio familiar e empresarial, Thomaz Meirelles, disse que os números são uma notícia positiva, quando a ZFM é “novamente atacada pelo governo federal”. O especialista, que também é colaborador do Jornal do Commercio, destaca que a queda do arroz se deve à opção do produtor pelo cultivo do milho, algo que já acontece também em Roraima, Rondônia e Tocantins. Mas, aponta amarras para a expansão agrícola no Amazonas.
“Crescemos na soja, de 12 mil para 13 mil toneladas. Mas, o Amapá saiu de 12 mil para 17 mil toneladas, e o Acre, de 16 mil para 23 mil toneladas. Nosso atraso se deve à lentidão do órgão ambiental do Amazonas. É bom ressaltar que a área natural para cultivo com sustentabilidade é o Sul do Amazonas. A agropecuária é a única saída para movimentar a economia do interior. A floresta em pé ainda não melhorou a vida de quem a protegeu. Ela vai continuar em pé, porque somos responsáveis, enquanto o mundo não foi”, frisou.
“Quebra de produtividade”
O produtor rural, Vitor Marmentini, contou à reportagem do Jornal do Commercio que os empresários do Sul do Amazonas temem que, com a escassez da oferta de fertilizantes, os fornecedores acabem restringindo a oferta, em favor de concorrentes com maior volume de compras, histórico de negociação mais longo e “vendas já compactuadas”. Esse não seria o caso dos agricultores amazonenses, que ainda contam com escala de produção reduzida, em razão de “travas ambientais”. “Não temos poder de barganha”, resumiu.
Marmentini produz soja e arroz, há dois anos, em Humaitá e informa que a produção é vendida a duas multinacionais. O empresário estima que a produção deve aumentar 20% neste ano, índice que considera acanhado ante o potencial da região. Também lembra que a situação já era ruim antes da guerra, já que o preço dos fertilizantes em dólar teria dobrado, entre setembro de 2021 e janeiro de 2022, quadro agravado pelo fato de o mercado estar concentrado em” três ou quatro grandes fornecedores”.
“Infelizmente, o risco para o investidor está aumentando, e o retorno, diminuindo. Um ano atrás, era possível injetar R$ 1,5 milhão para conseguir R$ 3 milhões em safra, em valores brutos. Agora, com o aumento dos custos, para tirar a mesma diferença tenho de investir o dobro, esperando receber R$ 4,5 milhões. Mas, o negócio ainda é rentável. E mesmo se a produção cair, a lei de oferta e procura deve manter o produto valorizado, diante da escassez do produto. Mas, teremos quebra de produtividade e risco alimentar”, alertou.
“Exploração racional”
O titular da Sepror (Secretaria de Produção Rural do Amazonas), Petrúcio Magalhães Júnior, avalia que os números da Conab mostram “crescimento estável” para a safra do Amazonas. Sobre a crise dos fertilizantes, informa que o país importa cerca de 85% dos adubos minerais que necessita e ressalta que, dependendo do tempo de duração da guerra, as próximas safras podem ser prejudicadas. “Nossos produtores já estão sentindo a alta nos preços. Isso certamente pressionará os custos de produção e, consequentemente, os preços ao consumidor”, lamentou.
O secretário estadual defende a redução da dependência externa pela “exploração racional e sustentável” das reservas de potássio em Autazes. Lembra, contudo, que há um processo judicial movido pelo MPF contra a empresa Potássio do Brasil, em razão de parte da exploração atingir terras indígenas. A continuidade dos trabalhos dependeria de consultas públicas. Petrúcio Magalhães Júnior estima que, se o problema for contornado, o Estado poderá suprir 25% da necessidade no agronegócio brasileiro, nos próximos 30 anos.
“Entendo que é possível, com as tecnologias disponíveis, mitigar os efeitos ambientais da exploração da silvinita. Sem falar que, ocorrendo a autorização da exploração, centenas de empregos serão gerados e, com a maior arrecadação de impostos, os governos poderão implementar políticas públicas, para melhorar a vida da população no interior”, afiançou.
“Imponderável da guerra”
O presidente da Faea (Federação da Agricultura e Pecuária do Amazonas), Muni Lourenço, comemorou a estimativa da Conab, mas destacou que a situação dos fertilizantes é “preocupante”. O dirigente lembra que o setor já enfrentava escalada de preços, em decorrência da pandemia, e reforça que a guerra tende a agravar o cenário. “Estamos diante do imponderável de uma guerra, que não se sabe quando se encerrará. Temos um quadro de incertezas, mas estamos com expectativas positivas de que as recentes ações do governo federal possam suprir a demanda para a próxima safra”, asseverou.
O dirigente, que também é vice-presidente da CNA (Confederação Nacional de Agricultura e Pecuária), acrescenta que a entidade acompanha as tentativas do Mapa de implementar medidas para amenizar a situação, no curto prazo. “Além disso, esperamos que sejam equacionadas as questões que impedem a jazida de potássio de Autazes. Se for explorada, poderá atender a demanda da produção rural brasileira, no médio prazo”, encerrou.







